2012/10/01
Ilusões, expectativas e manifestações
Etiquetas: Impostos, PREC, Sindicatos, socialismo, União Europeia
2012/07/16
Cuidado, Alerta !!!
É verdade que o sistema económico-social soviético ruiu, o muro de Berlim foi derrubado (não caiu) e as nações europeias a leste foram libertadas das ditaduras comunistas, dessas que o PC queria em 1975 impor em Portugal, mas não conseguiu.
Daí para cá, em Portugal, o PC perdeu garra, eleitores e deputados. Mas conseguiu aguentar-se numa posição ainda com poder e controla ainda muita coisas no Estado e nos sindicatos. O suficiente para fazer barulho e exigências utópicas, agarrados à cartilha marxista que ainda resta na Constituição de 1976. Se ao PC juntarmos os primos do Bloco e franjas mais radicais do PS, podemos sem grande dificuldade encontrar 20% do eleitorado, ou mais.
Mas é claro que com a derrocada do socialismo soviético, há pouco mais de 20 anos, a luta de classes, a sociedade sem classes e a reforma agrária foram por água abaixo, esta última com a prestimosa ajuda da PAC rebentou com a agricultura portuguesa.
Mas a verdade é que nem os comunistas nem o PC desapareceram em Portugal. Têm-se aguentado, o que significa que ainda estão longe de ser politicamente derrotados. Em grande medida porque é a "direita" (PSD e CDS) que não se quer dar ao trabalho de os derrotar. Mas também porque o socialismo nas duas últimas décadas deixou de lado a construção da economia socialista, limitando-se apenas, ora a pactuar com o capitalismo, que diz combater, ora a dizer mal do sistema capitalista, sem poder apresentar nada como alternativa, pois a verdade é que, pactuando mais ou menos com o capitalismo, o estado socialista depende do capitalismo e dos capitalistas para se alimentar (impostos, taxas, taxinhas...de pessoas singulares, famílias, empresas, sector privado).
Onde o socialismo apostou nas duas últimas décadas (PS, PC e Bloco) foi na engenharia social: promoção do aborto, do divórcio, da homossexualidade, da queda da natalidade, com todas as suas consequências destrutivas, sempre com a justificação da "igualdade". E foi aqui que muitas cabecinhas débeis da "direita" não lhes souberam sair a terreiro, permitindo que eles impusessem a sua agenda radical. Os efeitos negativos desta agenda serão muito piores que os da actual crise económica.
Mas, ainda assim, talvez a situação actual ou futura de alguns bancos dê ao Estado o pretexto para estatizar os bancos que operam em Portugal, passando-se daí para uma ainda maior estatização da economia e para um verdadeiro assalto à propriedade privada como sucedeu no PREC.
Como o Estado são aqueles que lá estão, e muitos são da esquerda totalitária, a caça à propriedade privada (dinheiro e bens) pode voltar. Ponham-se a pau.
Cuidado, alerta !!!
manuelbras@portugalmail.pt
Etiquetas: Capitalismo, Em Defesa da Vida, Impostos, PREC, socialismo, Universidade Livre
2008/09/29
O mundo não é perfeito
Questionam-se alguns espíritos sobre a validade dos princípios da economia de mercado, do sistema capitalista, da primazia e anterioridade da iniciativa privada sobre o Estado. Interrogam-se, no fundo, sobre a consistência de alguns princípios básicos do conservadorismo.
Não há razão para isso. Há muito mais razões para questionar a economia socialista, o estatalismo, a propriedade colectiva dos meios de produção, loucuras que levaram, não a uma grande crise, mas à derrocada total, sem sobrevivência, do sistema económico socialista – marxista – que vigorou em alguns países durante décadas. É claro que isto não se pode dizer em voz alta porque é preciso branquear a tela de fundo do PC e do BdE, não vá alguém pensar, devido às suas simpatias e ligações com regimes totalitários, que nunca foram devidamente julgados a par doutros, que essas forças políticas mereciam ser ilegalizadas por isso. Mas adiante.
Quem achar que o capitalismo não é sistema e que é preciso voltar ao socialismo, à estatização da economia e da propriedade, que veja os resultados das estatizações de empresas em Portugal durante o PREC e o que daí resultou de prejuízo para o País ou no que deu a Reforma Agrária: foi tão boa que hoje não temos agricultura.
O sistema capitalista tem fraquezas? Com certeza. E o socialismo ainda tem mais. O Estado português, em concreto, não é pessoa de bem: deve imenso e durante muito tempo a fornecedores, especialmente do sector da saúde, gozando arbitrariamente de privilégios que não concede aos seus devedores. Há mais razões para desconfiar do Estado socialista que da iniciativa privada e da economia de mercado, porque consegue esconder e ampliar as fraquezas e vícios das primeiras.
Quem quiser julgar o capitalismo, verá como nos últimos anos têm fugido imensos americanos para a Rússia, a Venezuela, a Bolívia, Cuba, Irão e outros paraísos que tais, em busca de melhor vida.
Porque é que a economia socialista ruiu e a capitalista não? Porque o capitalismo, apesar de não ser um sistema perfeito – não existe nenhum – é aquele que mais e melhor se adequa à realidade da condição humana, é mais refractário às utopias, é o mais flexível e adaptável às novas circunstâncias e, nessa medida, o que mais e melhor sobrevive, se regenera e corrige.
É em boa medida, por isso, que o sistema económico dos EUA sobrevive há mais de 230 anos, enquanto a URSS e outros sistemas socialistas ruíram ao fim de algumas décadas de manutenção forçada.
Quem é que tem saudades?
manuelbras@portugalmail.pt
Etiquetas: Capitalismo, Em defesa do Ocidente, Manuel Brás, O mundo não é perfeito, PREC, socialismo
2008/09/03
Desclassificados
É conhecida a política habitual das autoridades americanas, incluindo a CIA, de desclassificar documentação sob reserva ao fim de 30 anos. Um exemplo, assim ao correr da pena, foi a publicação do "relatório Kissinger" sobre a política (anti)demográfica seguida desde meados dos anos 70 por algumas "administrações" americanas com forte conivência da ONU e de poderosas ONG´s, com alguns intervalos, até 2000.
Mas, desengane-se o leitor se pensa que só os americanos é que desclassificam material "reservoso". Nada disso. A transparência foi sempre uma prática na esquerda e, em particular, na URSS.
As autoridades russas não têm feito outra coisa senão desclassificar, desde os saudosos tempos do camarada Estaline até aos actuais dos camaradas Putin/Medvedev. Ele são os gulag, as deportações forçadas, as purgas sanguinárias, dentro e fora do Partido Comunista, e um interminável etc.
Consta que está para breve a desclassificação dos arquivos da PIDE/DGS, que o PCP fez chegar a Moscovo em 1974.
Será verdade?
manuelbras@portugalmail.pt
Etiquetas: Manuel Brás, PREC
2008/05/28
Ensino Profissional/Escolas Profissionais
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Foram estas uma realidade totalmente nova no panorama do ensino em Portugal, se nos lembrarmos de que os verdadeiros antecedentes delas foram as antigas Escolas Técnicas Profissionais (ETP).
É que o “25 de Abril” tinha-as fechado, sob o pretexto de viverem na sombra do elitismo dos liceus, esses, sim, frequentados pela elite social do País, aspirante à frequência do ensino superior e universitário.
É capaz de ter sido um dos actos políticos mais estúpidos de toda a história da humanidade civilizada…
Os mais entendidos e atentos não saberão mesmo como reabilitar a Revolução de tão assombroso pecado!
Entre a morte das ETP e o nascimento das EP, passaram-se perto de vinte anos completamente perdidos para a formação técnica e profissional, de nível III, dos portugueses!
Um crime de que ainda não recuperámos e de que talvez nunca recuperemos.
Mas ganhou-se alguma coisa na substituição dum modelo por outro, no plano do ensino profissional escolarizado?
Penso que sim, que o ensino actual talvez até seja mais decididamente profissionalizante, mas também é muito mais caro e, por isso, ao fim de vinte anos de existência, de expansão muitíssimo mais limitada que a do antigo ETP (Ensino Técnico Profissional).
Há, porém, no Ensino Profissional actual, possibilidades de significativamente maior variedade de cursos que o tornam muito mais adaptável ás carências locais, a partir da grande liberdade e capacidade de iniciativa e organização atribuídas ás próprias escolas.
Dou como exemplo a escola Profissional que criámos em Seia.
Em 2008-2009 terá a funcionar turmas dos seguintes cursos de técnicos profissionais, com equivalência ao 12º ano de escolaridade, nas áreas de:
Construção civil
Turismo – Informação e Animação Turística (ou simplesmente Turismo)
Gestão
Serviços Jurídicos
Termalismo
Viticultura e Enologia
Topógrafo – Geómetra
Instrumentista de Sopro e de Percussão
Esta listagem inclui quatro cursos mais antigos e outros quatro, os últimos, que são de criação muito recente.
Todos estes cursos formam técnicos (em vários casos pela primeira vez) para actividades da maior importância no desenvolvimento socio-económico da região.
Mas são talvez mais flagrantes os casos recentes do termalismo e da viticultura e enologia, numa região muito rica em termas importantes e de pequenas e grandes adegas produtoras de vinho do Dão (região demarcada, com marcas de qualidade garantida).
Quanto aos topógrafos-geómetras, o curso vem, especialmente, mas não só, ao encontro de necessidades dos municípios do Interior, no recrutamento de técnicos do levantamento do território, base do seu melhor conhecimento e utilização.
Mas talvez mais surpreendente de todas foi a reacção à criação do curso de música para Instrumentistas de Sopro e Percussão, que encheu de expectativas os numerosos grupos musicais e bandas de toda a zona.
Sem dúvida os agentes económicos dos concelhos de Seia e circundantes viram, na criação destes novos cursos, mais uma prova, particularmente significativa, da atenção da escola às realidades particulares do tecido social e empresarial desta zona das Beiras.
O futuro dirá em que medida acertámos na análise dessas realidades.
Mas também sabemos que uma característica fundamental das Escolas Profissionais é a permanente atenção dos seus dirigentes á adequação delas ao evoluir dessas realidades e às novas carências do tecido sócio-económico.
Julgo conhecer bem o espírito de muitos de tais dirigentes e que…
Cá estão e estaremos para isso mesmo!
Contando evidentemente com a prevalência desse espírito também nos Serviços centrais e regionais do Ministério da Educação.
A.C.R.
Etiquetas: Beira Interior, Ensino, Escola Profissional da Serra da Estrela, PREC
2008/04/21
Morreu o Cónego Melo (Mons. Eduardo Melo Peixoto)

Sem ele e sem algumas outras personalidades da sua categoria, Portugal não se teria livrado, com a mesma rapidez e grandeza, da enorme praga de esquerda que o 25 de Abril despoletou.
Temos de afirmá-lo alto e sem hesitações, mesmo os que como eu sempre acreditaram que Portugal ganharia, acabaria sempre por ganhar mais aquela provação e sair dela confirmado na sua verdadeira natureza de povo indomável, que nunca deixou, nas piores situações, de encontrar os chefes à altura e as inspirações certeiras.
A formação anti-comunista do País, levada a cabo em extensão e profundidade, pelo Estado Novo e pela Igreja, revelou-se igualmente fundamental, como era evidente, creio que para a maioria.
Foi então fácil a tarefa dos líderes aclamados como tal?
De certeza que não, apesar da reacção popular e geral que os apoiou inteiramente e que, de certeza, também os inspirou para o melhor.
Para o cónego Melo, terá sido menos difícil ainda, por ele ser, como de há muito era, um homem admiravelmente ligado ao povo da cidade e da Diocese, que conhecia como poucos, além de também ser um grande e reconhecido patriota, pelo coração e pela inteligência.
Ora a vitória dos portugueses sobre o PREC talvez tenha sido, principalmente, grande obra do nosso patriotismo, pois que o PREC, no fundo, nos ameaçava sobretudo de integrar Portugal, a bem ou a mal, no mundo comunista, geográfica e ideologicamente contrário ao nosso.
Honra, pois, a esse grande português que foi o cónego Melo, forte símbolo da arquidiocese bracarense, o qual ainda, para mais, sabia como poucos que “não se fazem omoletas sem ovos”…
Deus o tenha em Sua Santa Guarda.
E que nós saibamos guardá-lo para sempre nas nossas memórias, como parte inalienável do património moral e histórico da Pátria Portuguesa!
A.C.R.
Etiquetas: PREC
2007/10/15
Memórias das minhas Aldeias
Esquecimentos da História
Parte VII – nº 11 – DE PRESSA… QUE NÃO TEMOS VAGAR
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Podia ser esse o lema de Rufino e sua equipa.
A apoiar e corroborar o outro lema, o da “UL… UM PROJECTO NACIONAL”.
Para começar… pareceu-lhe…
Já tinha feito as suas sondagens, nos meios do Ministério da Educação e entre os próprios associados da cooperativa titular do estabelecimento Universidade Livre.
E era comum a análise concluir em dois pontos, com poucas divergências.
Primeiro. Apesar da larga margem de cobertura das despesas pelas receitas das propinas, o saldo de tesouraria da UL era pequeno para as grandes ambições de investimento a que o desenvolvimento sonhado da UL obrigaria.
Segundo. Era preciso mais dinheiro, portanto. Porque não alargar o leque dos associados? Mas para interessá-los não seria possível, à escala desejada, com um pacto social de cooperativa, que não estimulava o investimento, porque o direito de voto era igual para todos os associados, qualquer que fosse a participação de cada um no capital social. Isto é, havia que transformar a cooperativa em sociedade anónima.
Foi fácil convencer os mais reticentes dos associados da primeira hora, garantindo-lhes alguns privilégios, sobretudo honoríficos, como “sócios fundadores”.
Mas o argumento decisivo foi este: para subscrever o capital alargado da sociedade anónima, com que todos concordaram, os novos sócios teriam de pagar o dobro do valor nominal de cada acção, ao passo que os sócios fundadores as pagariam apenas pelo valor simples delas, o valor nominal.
Não obstante isso, foi uma verdadeira corrida à subscrição do capital da nova sociedade anónima.
As acções subscritas e pagas acima do par não assustaram nem indignaram ninguém.
A publicidade à UL, e sobretudo a propaganda graciosa feita pela Comunicação Social simpatizante, pareciam explicar, só por si, o sucesso.
Mas talvez não tivesse bastado se… Se Rufino e os seus “ultras” (assim começavam a ser conhecidos os seus mais fiéis, isto é, quase todos), se efectivamente não tivessem imaginado um plano mirabolante de novas realizações a partir da UL, plano que aliás em menos de cinco anos seria amplamente concretizado.
O País parecia entusiasmado, até como que ansioso por entregar-se a uma espécie de “revolução” de direita e à direita.
Depois do susto pregado pela esquerda – chegou a dizer-se – o País respirava de alívio, com esta inesperada e profunda mobilização à direita e entregava-se a ela entusiasticamente.
Parece excessivo?
Só quem viveu a experiência e a compreendeu pode avaliar a verdade do que aí fica, embora na própria altura isso fosse já o juízo expresso pelas sensibilidades e discernimento dalguns mais lúcidos que o comum.
Cada vez mais, desde então, e por um número rapidamente crescente, seria entendido que a UL fora o golpe definitivo no PREC-Processo Revolucionário em Curso a partir de 25 de Abril de 1974.
Estava de facto criado o clima necessário para outras reformas contra-revolucionárias que finalmente abririam o País completamente à direita, como viriam algum dia a compreender tantas cabeças, muito e pouco dotadas.
Dir-se-ia que o sucesso da UL fez compreender a muitos “estadistas” e futuros “estadistas” qual era a verdadeira natureza do País, o seu sentir mais profundo, até a sua capacidade de reacção contra-revolucionária absolutamente imprevista e talvez mesmo imprevisível, mas evidentemente lógica, se pensarmos bem.
Por isso a UL foi tão bem vista no País, da direita à esquerda. Com excepção evidentemente dos comunistas que continuavam a ver nela, não o factor saudável de recuperação nacional que os demais viam, mas a encarnação de todos os demónios possíveis e impossíveis de direita e extrema-direita, visíveis a olho nu, segundo os marxistas de obediência soviética, os menos e os mais retintos.
O caso impressionava sempre Rufino e a sua gente, talvez incapazes de compreender e aceitar essa única mancha colada pelos “comunas” ao extraordinário percurso da “sua” UL.
Realmente, a UL – pensavam Rufino e os seus homens – só fora possível porque o País se revelara totalmente outro do que aquilo que os comunistas imaginavam dele.
Como não viam isso os marxistas e seus adeptos ou simpatizantes?
Seria preciso convertê-los às realidades que os portugueses em geral tão fácil e rapidamente haviam descoberto e assimilado?
Mas como, se era tão persistente a cegueira dos "comunas"?
A.C.R.
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2007/08/10
À Legião Patriótica (6)
Morte honrosa do PRD... Felix culpa!
Nascimento falhado do PNR... Mea culpa!
Não bastava ao grupo do VECTOR ter criado este; lançado a "Resistência"; combatido o PREC de esquerda e o PREC de direita; relançado o PDC-Partido da Democracia Cristã...; defendido pública e decididamente o prestígio de Salazar; criado o NEOS-Núcleo de Estudos Oliveira Salazar; ter concebido e posto a funcionar a Aliança Nacional; ter promovido edições muito estimáveis através da Editora Nova Arrancada; ocupado lugar significativo na blogosfera; etc., etc...
Havia ainda de ter promovido a transformação do PRD eanista no PNR nacionalista, salvando ao mesmo tempo a face do primeiro e dando uma grande oportunidade ao nacionalismo de cara lavada e apresentável, com rejeição inequívoca de quanto pode desacreditar e tornar o nacionalismo ultrapassado e inaceitável, restituído, pelo que nos respeita, à categoria de grande força política, se não a maior, promotora do desenvolvimento histórico da Humanidade.
Acredito que o nosso falhanço, relativamente ao nascimento do PNR, é temporário, mas que caberá a novas gerações resolver o terrível dilema que está em suspenso.
Quererão vocês, os da Legião Patriótica, com muitos outros, ajudar o País a sair deste impasse?
Não foi casual - soube-o logo, na altura - por que escolheram os do PRD a Aliança Nacional para tomar conta do partido que fora eanista.
E soube-o através do próprio Presidente infeliz que tenho referido, o qual na reunião em sua casa, na Amadora, largamente me interrogou sobre as origens, constituição, natureza ideológica e finalidades políticas da Aliança Nacional.
Percebi que as minhas respostas o satisfizeram e tranquilizaram completamente.
Concluiu, sem qualquer dúvida, que nós não seríamos eanistas, pela certa. Mas que não deixaríamos transformar o PRD num partido xenófobo, racista, racialista, uma deturpação completa do nacionalismo da AN.
Peço perdão à sua memória de o termos enganado sem querer.
A.C.R.
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2007/08/09
À Legião Patriótica (3)
Depois...
O "Vector" foi mesmo bom na resistência e combate ao chamado progressismo, naturalmente falso, de certos meios católicos e cristãos em geral. Isto antes do 25 de Abril, e, depois deste, também na resistência e combate ao PREC, até ao momento, já por 1976/77, em que vencido o PREC graças ao retorno e aprofundamento dos sentimentos nacionalistas portugueses, resolvemos entrar no combate cultural.
Criámos em 1977 a Universidade Livre.
Conhece ou conheceu?
Ainda bem.
É sem dúvida o acontecimento, impulsionado pelo VECTOR, de maior repercussão nacional.
Ignoram-nos?
Há mesmo historiadores de muito "respeito" que conseguem referir a fundação da UL, sem a mínima alusão ao papel decisivo do VECTOR e dos principais responsáveis pela UL e seus visionários.
Derrotados inapelavelmente na UL pelo ódio sem sentido(?) dum ministro da Educação, alguns de nós resolvemos voltar à acção cívica e criámos a Aliança Nacional, que teve origens imediatas nos convívios relacionados com o centenário do nascimento do Doutor António de Oliveira Salazar e com deslocações de romagem ao Vimieiro a partir daquele ano, 1989.
Vê como é fácil e natural hoje contar tudo isto e ser ouvido em respeito (respeitinho?) porque uma votação da RTP deu a AOS 41% dos "votos" expressos, como o "Maior Português de Sempre"?
Quem imaginaria?
Mas também isso é em parte fruto de muitos como nós, na AN, etc., que não deixamos cair nem apagar a chama que acabou por impor-se, por métodos não terroristas, nem puramente desfilatórios, como sejam a evocação histórica e teórica sistemáticas, as publicações persistentes, as revalorizações frontais, sem agressão, apenas pela verdade repetida sem medo, sem humilhar ninguém...
Tínhamos, em 1991, criado também o NEOS-Núcleo de Estudos Oliveira Salazar, igualmete nascido das comemorações do Centenário do nascimento e das primeiras peregrinações anuais ao Vimieiro, com um númewro de edições sobre Salazar e o Estado Novo já respeitável, através da Editora Nova Arrancada, que os nacionalistas do pós-Universidade Livre também fundámos...
E foi ainda movidos pelas mesmas motivações e impulsos, que há quatro anos se criou o presente blogue...
Não é, ao todo, tão pouco como isso, pois não?
Mas falta o essencial, nestas respostas, que é responder às últimas perguntas suas, a partir da criação da Aliança Nacional, as suas ligações, a sua natureza política, o PNR que dela saíu, etc...Fica para amanhã, mas sumariamente como tudo até aqui, ou ainda mais, por motivos óbvios que talvez saiba ou possa adivinhar e, em qualquer caso, lhe direi.
A.C.R.
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2007/08/03
Memórias das minhas Aldeias
Esquecimentos da História
Parte VI – N.º 24 – OS JOVENS TIGRES
Eram encabeçados por um arregimentador de movimentações que Rufino já conhecia, recém licenciado na Universidade pública com alta classificação, o qual, não obstante os convites repetidos da sua própria Universidade, resolvera apostar na Universidade privada, onde calculava vir a obter, e de facto o aguardavam, promoções muito mais rápidas.
Dizia ele, em nome dos colegas, que era “uma indecência” os professores graduados na Pública poderem usar vestes próprias, quando os professores como eles não podiam usá-las, por as não terem, nem poderem arranjá-las de um momento para o outro, apesar dos Conselhos dos Departamentos lhes haverem atribuído categorias académicas com direito às mesmas vestes.
Rufino percebeu imediatamente aquilo que os movia.
Vaidade apenas e ciúme, além do atrevimento que não estava disposto a tolerar.
Mas ciúme sobretudo, por os travestidos poderem vir a ser tidos pelos alunos e famílias, só por isso, como melhores professores, nas suas farpelas medievais.
“Não tenham pressa! – disse-lhes Rufino –. Vocês têm todo o tempo à vossa frente. Contamos totalmente convosco para fazermos a melhor Universidade do País!”
A malta foi-se embora, mas sem saber se havia de deixar-se convencer. Em todo o caso, acalentada por tão grandes expectativas e desafios que o “fundador” da Universidade não hesitava em oferecer-lhes!
Era dali que se gerava o futuro!
Ficaram a conhecer-se bem, um ao outro, desde então, o jovem líder dos professores jovens e Rufino, o administrador-delegado e autoridade maior da entidade patronal de Libânio Ferreira, esse jovem líder dos “jovens lobos”. Assim eram conhecidos, entre os mais velhos e já “instalados”, na rotina das grandes Universidades, estes aspirantes a “futuros donos da U.L.”. Uma aspiração que não contestavam nem deixavam de contestar, porque a intriga era para eles diversão e vício de mulheres e eles não queriam as mulheres senão para casar.
Mas, como colegas, apenas umas marronas, vistosas às vezes mas de conversas pouco convidativas e mesmo nada interessantes… “Culturalmente”, claro, pois que, para o efeito, nada as ajudava maquilharem-se ou pôr as pernas ao léu, quando se sentavam, mesmo que nisso desperdiçassem árduos esforços a tentar cobrir pudicamente os joelhos, para melhor revelarem como seriam bonitos, saudáveis e apetitosos, além de… estudiosos.
Na verdade, as professoras na Universidade eram por essa altura muito menos que passados trinta anos, mal começavam a ousar aparecerem., “imiscuir-se”, como aqueles jovens colegas diziam delas, sem piedade e até frente-a-frente, como eles gostavam especialmente que elas lhes dessem oportunidades.
O professor Libânio Ferreira e a noiva – casariam daí a meses – tiveram de confessar que a festa inaugural da UL, em Lisboa, foi com efeito um grande sucesso.
Ostensivamente, ambos exibiram a sua satisfação em todos os cantos e recantos da Universidade, de modo a convencer toda a gente de que, não só haviam participado entusiasticamente na festa, como era um facto dever-se-lhes pessoalmente grande parte da mobilização geral para o êxito dela.
Não era nenhuma mentira!
Com grande surpresa, todos os viram chegar, antes da festa começar, a ele e a ela, acompanhados pelos restantes do grupo de jovens professores protestantes de uma semana antes… Mas tudo “fardado” universitariamente a rigor, pessoal!
Rufino tivera zunzuns da intenção deles e, mal o soube, apressara-se a convocar o líder para o pôr à vontade, no caso de “o grupo” precisar dalgum empréstimo para a compra das vestes adequadas ao “estatuto” de cada professor.
Libânio Ferreira apressou-se a dizer que sim e de quanto precisavam, como se tivesse acabado de pensar demoradamente no assunto.
Ofereceu-se mesmo para ficar garante da pronta e integral restituição do valor “adiantado” pela UL. E Rufino teve de concordar, tal foi a insistência do chefe dos “jovens lobos”, que aproveitou para insinuar que gostaria mais de vê-los titulados de “jovens tigres”, a partir de então.
Assim viriam de facto a aparecer designados no larguíssimo noticiário da TV, Rádio e Jornais sobre a festa, durante dois ou três dias.
Assim também ficariam conhecidos e louvados, a partir daquela hora, sem desprimor mas com bastante menos projecção, para o Professor e para Rufino.
Mas Rufino explorava a seu modo essa publicidade a favor da UL, que se tornou, de facto, na única grande vedeta do acontecimento, por muito que outros se pusessem em bicos de pés.
Mas Libânio não deixou de insistir com Rufino noutra coisa.
No dia seguinte, Libânio visitou sozinho o administrador-delegado para ter o privilégio de ouvir-lhe em directo os juízos mais secretos e, se possível, alguma confidência. Mas também como que para fazer-lhe as suas propostas. É que passara, desde o triunfo “em comum”, a ter-se por aliado privilegiado de Rufino, convicto, talvez antes de outros quaisquer, de quanto Rufino viria em breve a carecer de bons, fiéis e fortes aliados.
“Por exemplo, Professor Rufino – V. Exa. deveria contratar no futuro, como Professores da nossa Universidade, só docentes titulares, naturalmente possuidores das farpelas adequadas…”
Rufino olhou Libânio com disfarçada surpresa mas logo percebeu, antes de abrir-lhe a porta do corredor, com um largo sorriso e um ligeiro amigável encontrão de ombros.
Libânio não queria, ali dentro, mais concorrentes da sua geração!
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2007/08/01
Memórias das minhas Aldeias
Esquecimentos da História
Parte VI – N.º 23 – OS JOVENS LOBOS
Como antecipar-se na descoberta deles?
Começara a evidenciar-se dentre os professores um dos últimos contratados, o Dr. Baptista de Melo, que, se bem o entendera, nas suas meias palavras, já expressamente se lhe oferecera para delator dos colegas. Mas porque era visto com desconfiança por todos, que o desprezavam como intriguista e fala-barato, Rufino teve o cuidado de o manter tanto quanto possível à distância, apesar do assédio indiscreto que o Baptista de Melo insistia em fazer-lhe.
Foi aí que Rufino pela primeira vez se felicitou por não haver seguido o conselho dos seus mais íntimos colaboradores do “movimento”, no sentido, segundo os mesmos, de que deveria Rufino manter-se distante do grupo dos professores, para não perder a sua independência, relativamente a eles.
De facto, Rufino também estava certo já de que haveria de conquistar melhor a confiança dos professores sendo um deles e vivendo e comportando-se como eles, ao mesmo tempo que ia tomando nota dos seus problemas e ambições, méritos e fraquezas, para seu uso futuro, oportunamente.
Também cedo começou a esforçar-se por pagar-lhes bem, embora em estrita relação com os horários de facto cumpridos.
Mas havia outras compensações.
Os lugares de estacionamento automóvel no território da Universidade eram muitos no Porto, mas apertados em Lisboa. Pode dizer-se que, em troca da reserva garantida dum lugar para viatura ligeira, no espaço da UL, em Lisboa, os beneficiários professores davam tudo o que a Cooperativa precisasse deles, sem outra paga.
Rufino treinou-se a negociá-los – os lugares de estacionamento – sem o mínimo receio, nem pudor de parte a parte.
Mas o que mais felizes os deixou, foi assegurar-lhes os rituais académicos e o uso das vestes talares, talares como as asas de Mercúrio.
Aprendeu no meio de tudo que, para serem efectivamente talares, tinham de chegar aos tornozelos.
A ideia de os manter entretidos também com vestes e ritos académicos foi-lhe dada por um dos professores mais categorizados, do curso de Direito naturalmente, que um dia o convidou para almoçarem juntos ali perto, no Grémio Literário, fazendo até questão de ser ele a pagar a despesa.
Rufino mediu quanto o entretenimento lhes era caro, ao aperceber-se de como a classe se sentia frustrada por vestes e ritos terem sido suprimidos, ou passado a ser mal vistos, o que valia o mesmo, na Universidade pós-abrilina, Universidade sem rei nem roque, como todos a consideravam, sem meias-tintas.
Rufino queria tudo original, entusiasmou-se.
Isto é, não queria que se copiasse o “teatro” das Universidades clássicas, mas que os especialistas da matéria entre o corpo docente, inventassem um “teatro” novo.
O professor seu anfitrião ao almoço dissuadiu-o disso.
Segundo ele, a cópia exacta do “teatro” académico tradicional é que daria aos interessados em geral, isto é, famílias dos futuros alunos e futuros alunos, mas também autoridades académicas e as do Ministério, todas as garantias visíveis e convincentes de que o ensino na Universidade privada… seria pelo menos tão bom como o das Universidades públicas, incluindo a UCP.
“E quanto vai custar o espectáculo?” – perguntou desconfiado, mas sorrindo, o administrador delegado.
“Nada!” – retorquiu o outro sem pestanejar.
“Nada – explicou – porque todos temos os nossos graus académicos que nos obrigam a adquirir essas trapalhadas. Não precisamos portanto doutras. Só os professores não recrutados nas Universidades estatais é que não terão vestes próprias. Mas como não têm oficialmente graus académicos, também não poderiam usar as vestes correspondentes…”
“Entende?” – perguntou o Professor, a quem Rufino estava a parecer mais distraído que até aí.
“Entendo… Oh! Se entendo, Professor!”
Ao Professor não escapou mesmo assim que Rufino andava por longe dali, até que, voltando a si lentamente logo sugeriu de surpresa, como quem não quer perder mais tempo.
“E se fizéssemos uma abertura solene da nossa Universidade, hem! Que lhe parece Professor?... Não é uma ideia genial?”
“É verdade que o ano lectivo já vai mais adiantado do que conviria, mas…”
“Professor! Então o Senhor tem ideias excelentes e depois estraga-as com objecções sem importância!” censurou-o Rufino com muita aspereza e absolutamente decidido.
O Professor embatucou e combinaram com o maior entusiasmo todos os pormenores da sessão solene para daí a uma semana.
Foi geral a satisfação de alunos, pais, familiares e professores, como a Comunicação Social sublinhou, embandeirada em arco.
Desde o anúncio da abertura solene, matricularam-se logo muitas dezenas mais de alunos, nos dias úteis duma semana só.
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2007/07/30
Memórias das minhas Aldeias
Esquecimentos da História
Parte VI - N.º 22 - UMA GAROTA AZOUGADA
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Sem contar a ninguém, Rufino decidiu ir a Coimbra falar com o que lhe diziam ser um dos professores-chaves da rede de Universidades de todo o País.
Entendeu que agora tinha argumentos para convencer, pelo menos “amolecer”, fosse quem fosse, por mais desconfiado do futuro em Portugal do ensino universitário privado.
Não seria a prima volta que se encontravam e conversavam do muito que os unia, a ponto de o Professor de Coimbra ter mesmo aceitado ser presidente da assembleia plenária do “movimento”, o que é dizer muito, atendendo à resistência que em geral os académicos muito prestigiados ofereciam para comprometer-se com organizações mesmo que apenas de intervenção cívica, mas que pudessem ser tomadas por político-partidárias.
Mais ainda, o Professor de Coimbra, já saneado pela Revolução recente de director da sua Faculdade e de simples docente, embora catedrático, visitara-o outra vez Rufino por causa da Universidade, ainda esta não tinha nome, só com o propósito de pedir-lhe uma sugestão ou sugestões, pois que nas reuniões em Lisboa ninguém havia até agora sugerido um nome que merecesse o acordo geral.
Sobretudo Rufino não gostava de nenhum.
Mas também não via ninguém, um só participante que fosse, entusiasmado com qualquer das sugestões aparecidas.
Intempestivamente, uma filha do Professor entrou na sala enquanto falavam e, como tivesse ouvido a conversa, de escuta atrás da porta, logo a Rufino ela pareceu azougada bastante para tal, mas não tanto que alguém pudesse prever o alvitre que imediatamente atirou para o ar…
- Porque não lhe chamam Universidade Livre! Por favor, chamem-lhe Universidade Livre! Vai ser uma destas bofetadas nesta bandalheira toda!...
- Olha a língua, rapariga! - ralhou o pai.
- Senhor Professor, quem é esta menina?... Sua neta? Tem de apresentar-ma!
- É já! – anuiu o Professor ansioso de reparar a gaffe – É minha filha, pouco mais velha que a minha neta mais nova. Fez dezassete anos… Está no segundo ano de Direito… Com as melhores notas… E tão atrevida quanto acaba de demonstrar, como viu.... Chama-se Joana Goretti mas os irmãos e primos chamam-lhe Joana a Guerrilheira ou também Joana do Arco… da Velha! Aí tem o retrato da última prenda nascida cá em casa! Gostou?...
- Melhor não ficaria em qualquer outro retrato! Ainda que o Pai dela se tivesse esquecido do último retoque… com certeza que não o menos importante. Que é também muito bonita e gentil!
Ela olhou-o muito corada.
E saiu noutro repente, quase como entrara.
Porém não sem deixar nova marca do seu estilo de garota sem papas na língua, nada preocupada com ser gentil, usando as palavras como tiros.
- Mas se pensasse só na sua Universidade?... Que grandes sarilhos lhe vai dar!
E saiu aparentemente furiosa, atirando com a porta nas caras do Pai e de Rufino.
Levaram alguns minutos a recompor-se os dois, mas ambos concordaram que a sugestão era excelente, como a aceitação geral viria a confirmar.
A.C.R.
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2007/07/26
Memórias das minhas Aldeias
Esquecimentos da História
Parte VI - N.º 21 - JOGOS DE GATAS E RATOS
Um porque fora antes da Revolução um Professor essencialmente político e tudo fizera, depois, para que os outros o esquecessem como tal; e o mais novo porque começava a reencontrar o gosto que chegara a sentir por ela, no seu tempo de Paris, através da admiração por dois dos maiores estadistas do séc. XX.
O Professor entendia terminada a sua quarentena relativamente à velha política ou política velha; sentia-se pronto para “a nova”, cada vez mais igual à de sempre e ainda mais propícia à arte de “mexer os cordelinhos”.
Rufino, por seu lado, tinha de admitir como etariamente tardia a sua redescoberta da política – mais três anos e estaria nos cinquenta – mas não tinha dúvidas de que a política chegava ainda a tempo e, sobretudo, na hora certa de facilitar-lhe a vida e a vida da Universidade, que se tornara a sua própria razão de viver e a garantia de sobrevivência duma geração, a sua geração, na memória dos homens e no património histórico da Nação.
Como quer que fosse, tanto o Professor como Rufino sentiam ter dado naquele dia, com a visita ao ministro da Educação, o avanço até à data mais decisivo no lançamento dos alicerces a que, sólida e definitivamente, ficava amarrado o futuro da Universidade Livre.
Assim o festejaram, essa noite, num jantar no Gambrinos, entre os quadros do “movimento” e a maioria dos futuros professores já apalavrados.
A pedido de Rufino, presidiu o Professor na qualidade de vice-Reitor, só ali tornada pública, pelo que logo foi muito cumprimentado por todos, com palmadinhas familiares dos cavalheiros nas costas e beijinhos “marcelistas” das damas nas faces mais ou menos levemente rosadas das libações moderadas.
Ainda poucos meses antes não seria possível uma tal festa, tão descontraída e com tantos sinais de amena restauração social e de forte confiança no porvir, por parte de gente tão variada e de idades tão desencontradas, dos vinte aos setenta, as meninas e senhoras todas com bem apurados vestidos e os homens encasacados e engravatados sem excepção.
Dir-se-ia que, com efeito, um marcelismo para pior tinha voltado, mas não quanto à beijoquice de cumprimentos agora generalizada entre bípedes dos dois sexos, que essa não a teria o PREC animado.
Isso da beijoquice fora fruto de outras circunstâncias…
Aconteceu logo a seguir à morte política de Salazar, era Portugal marcelista haveria pouco mais de um ano.
Estava um dia Rufino com um conjunto alargado de quadros superiores e médios do “movimento”, na sede, esperando pelos atrasos e atrasados do costume.
Rufino era dos tais tão, tão pontuais que mesmo quando querem e planeiam chegar atrasados não conseguem atrasar-se senão cinco ou dez segundos, quando muito, de tal modo incorporam, como que geneticamente, deixar-se condicionar a ser escravizados dos relógios.
A correr, chegou por fim a Marina acompanhada dum pequeno bando de três ou quatro moças como ela, também militantes que, sem avisar, desataram a cumprimentar todos beijando indiferentemente os dois sexos nas faces.
Era um gesto surpreendente que Rufino levou algum tempo a compreender, embora não se tivesse dado por achado logo à primeira, julgando ter percebido que seria uma moda nova e não querendo passar por saloio.
Com o tempo compreenderia tratar-se de facto e definitivamente do primeiro gesto supostamente revolucionário e “adesivo” da nova ordem política do marcelismo, lançado de cima para baixo, da classe alta para a média alta, logo copiado nos degraus inferiores, talvez como sinal simbólico de adesão e participação na anunciada “primavera marcelista” e de descomprometimento dos estratos sociais privilegiados como antigamente.
Um gesto que acabou por aparecer a Rufino tão oco quanto a própria “primavera” que o teria feito nascer.
As classes “oprimidas” pelos privilégios aproveitavam o que quer que aparecesse apropriado para sacudirem as rédeas que as prendiam e sujeitavam.
O gosto e a ânsia por se “libertarem” que sobretudo as raparigas iam revelando prenunciava grandes mudanças.
E que mudanças!
Nem do Vaticano II e das suas “liberdades” litúrgicas deixaram de aproveitar.
Rufino falava do que sabia.
E como sabia!
De certos esforços e truques, por exemplo, que tinha de desenvolver todas as semanas, ao sábado ou domingo, para tentar escapar, quase sempre sem êxito, à jovem casada, com já uma filha de dez anos ao lado, que à missa do preceito o perseguia implacavelmente para ir pôr-se atrás dele e, em vez do beijo da paz, o atacava com um outro beijo, sôfrego, lábios em cheio nos lábios dele, só uns segundos…
Por fim Rufino teve de mudar de paróquia, até que ela o descobriu e ele passou ao sistema de itinerância paroquial.
A.C.R.
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2007/07/23
Memórias das minhas Aldeias
Esquecimentos da História
Parte VI - N.º 20 - A FRAQUEZA DOS GOVERNOS
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“A fraqueza dos Governos é a sua maior força.”
Não sou eu quem o diz, era RUFINO, com o seu talento para julgar e avaliar tudo o que politicamente “mexia” ou “abanava”.
Nesse tempo estava no ME um ministro de esquerda que se lhes revelou completamente informal e sem preconceitos, mas inteligentemente conhecedor de como a educação é também um instrumento político de primeiríssima ordem, nos planos mais comezinhos do dia-a-dia dum governo responsável.
Era dos poucos, mas em número que vinha crescendo, a perceber que o caos instalado pela Revolução não tinha que estar só ao serviço da esquerda, mas que devia, e ele sublinhava devia, ser ainda mais útil ou eficaz e inteligentemente explorado pela direita.
Grande homem de esquerda, o primeiro finalmente inteligente que Rufino encontrava!
Com grande rapidez, o ministro acedeu a recebê-los – ao Professor e a ele, Rufino – logo que solicitado, para lhe apresentarem o “caso Universidade Livre”, a qual os teria designado para o efeito. O que nada importou ao ministro, mas sim que o Professor fosse um seu velho conhecido, que tinha por um “original” muito atento, duma direita muito particular, e porque de Rufino lhe haviam chegado notícias da desconfiança e azedumes com que a esquerda mais radical e conservadora, sua conhecida, costumava desprezadoramente tratá-lo, fingindo-se escandalizada da tolerância do ministro para com gente desqualificada daquela espécie da “direita mais desqualificada” deste mundo e do outro!
Disso o ministro gostava especialmente, de escandalizar os “puristas e rigorosos” da sua esquerda que armavam em zelosos defensores do “purismo” e “rigores” daqueles espadachins de novo modelo, que aspiravam, fosse lá como fosse, a serem sagrados cavaleiros da esquerda, no mais puro estilo de cavaleiro das direitas históricas.
A oportunidade oferecida pelos representantes da UL, o ministro não esteve com meias medidas, aproveitou-a em cheio.
Pois aqueles inocentes, assim os classificou no seu íntimo e quase esteve para lho dizer… pois aqueles ingénuos queixavam-se de não haver legislação que os orientasse e balizasse nos seus intentos de criarem pela primeira vez em Portugal uma Universidade privada…
“E para que precisam de legislação?” – perguntou-lhes frontalmente, para logo acrescentar…
“Vocês não são tão de direita que defendam o monopólio da UCP, pois não?”
“Estão a prestar um bom serviço ao País – talvez um grande serviço, quem sabe? – então vão em frente, não olhem para trás, e corram quanto puderem, que mais cedo ou mais tarde, alguém aqui, do meu actual lugar, há-de louvá-los alto e bom som, proclamando que vocês tiveram razão, para justificar a legislação tardia que há-de dar-vos cobertura, tarde mas a tempo bastante de salvar as faces de nós todos!”
O Professor e Rufino fizeram, sem dar por isso, todo o percurso a pé do ME, na 5 de Outubro, até à Vítor Córdon, revivendo à gargalhada todo o decorrer da longa entrevista, que o ministro quis saber tudo do projecto e do seu andamento, até não ter dúvida alguma de que aqueles dois… aqueles dois malucos, tinham as doses certas de loucura para não falharem.
Não lhes o disse, mas ambos perceberam ou quiseram perceber, e acertadamente, que a intenção do ministro fora mesmo essa, uma vez que, como bem lhes dera a entender num rápido e fugidio “por alto”, ao ministro a Universidade privada ser-lhe-ia muito útil, até para assustar as estatais, em polvorosa, aonde a ordem e a hierarquia talvez só regressassem pelo medo de que os estudantes lhes fugissem todos para a privada ou talvez os melhores alunos ou os de mais futuro.
O ministro em nada se comprometia politicamente por escrito, para já. Mas se os dois “representantes” fossem efectivamente da fibra que aparentavam, o ministro, ou quem quer que viesse depois de si, passava a ter uma arma mais para fazer regressar as Universidades públicas ao redil, aos seus redis.
A.C.R.
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2007/07/21
Memórias das minhas Aldeias
Esquecimentos da História
Parte VI - N.º 19 - A UL NO PORTO
Mais de pressa ainda os professores necessários.
E num ápice lançaram larga campanha publicitária e instalaram a secretaria.
E mobilaram as salas todas, com o dinheiro disponibilizado por Lisboa.
O novo Ano Propedêutico arrancaria no Porto, em 1 de Setembro de 1978, com algumas centenas mais de alunos, que a procura continuava a ser grande, da parte dos que pretendiam assegurar o acesso à Universidade.
Rufino agarrou imediatamente a oportunidade de reforçar o seu poder nos órgãos sociais da Cooperativa, inserindo neles os elementos do Porto que mais se haviam destacado e prontamente aceitaram propor-se como cooperadores.
Com eles, o Conselho onde se decidia a admissão de novos cooperadores passou a dispor de larga maioria favorável ao administrador-delegado, que a minoria se apressou a aceitar sem objecções, cavalheirescamente.
Quando o grupo do Professor deu pelas consequências, era tarde. Ainda tentou recuperar espaço, mas os seus candidatos foram quase todos rejeitados, com o pretexto simples de serem pouco ou nada conhecidos da maioria dos membros do Conselho que tinham de votá-los. Eram quase todos catedráticos das Universidades públicas e os poucos conhecidos à volta daquela mesa, pela maioria, pareciam autores de declarações recentes muito desafectas, insinuou o tesoureiro, a tudo o que cheirasse a ensino universitário privado. Foram mesmo feitas citações a abeirar-se de explosivas. Rufino que presidia, na cuidadosamente preparada ausência do titular, apressou-se a precipitar as votações, não fosse a conversa dar mais para o torto.
Dos doze candidatos apresentados pelo Professor, foram admitidos dois e rejeitados outros dez.
Ficava sobretudo dado o tom para eventuais futuros despiques, que podiam resultar menos bem.
Rufino, à saída do encontro, pediu ao Professor para falarem a sós e dizer-lhe o que há muito pensava: que ele deveria começar desde já a preparar o primeiro ano da verdadeira Universidade. Havia muito a fazer, com decisões académicas a tomar que impunham a designação do Reitor.
“Penso – disse de chofre – que o Reitor deve ser o Senhor Professor. Está disposto a sacrificar-se e aceitar, Senhor Professor? Já prestou à iniciativa tão grandes serviços, que não deve estranhar que lhe peçamos mais este! Digo-lhe que todo o grupo do “movimento” ponderou este convite e me encarregou de transmitir-lho!”
O Professor ficou visivelmente lisonjeado, mas não perdeu o sangue-frio.
“Não, Amigo, não. Temos de arranjar um verdadeiro Professor universitário, com toda a sua carreira feita na Universidade. Saiba, eu nunca tive de prestar quaisquer provas académicas em concurso público. Todas as minhas nomeações foram de mérito académico comprovado na secretaria, sabe… Não é a mesma coisa, aos olhos dos professores de carreira, nem aos olhos do homem comum, mesmo que não perceba nada destas subtilezas… Temos de convidar um verdadeiro académico de carreira e com uma grande carreira!”
“Mas – retorquiu-lhe Rufino – não temos nada feito nessa área que justifique e nos dê crédito para um convite a esse nível, só os nossos projectos, sem sequer podermos abrir matrículas, fazer publicidade, sem os cursos sequer decididos.”
“Ora! Para tanto basta um vice-Reitor. Posso ser… mesmo assim provisoriamente, posso ser esse vice-Reitor!”
“Deixe-me dar-lhe um abraço! – exclamou Rufino, abraçando-o – Encontramos sempre a solução conveniente para todos e a melhor para os nossos projectos!”
“Por favor! Dê cá outro abraço, Professor!”
E depois de se abraçarem novamente, afastou-o de si, como para olhá-lo de menos perto e apreciá-lo melhor, e exclamou.
“Vamos longe, Professor! Digo-lho eu! Vai ver que vamos muito longe! Eu e o Senhor juntos, nenhum poder vai resistir-nos!”
E, como comprovando-o, arrastou o Professor, verdadeiramente arrastou-o consigo, para o seu gabinete no Ano Propedêutico – começavam já então a chamar-lhe o IPU-Instituto de Preparação para a Universidade – e fez o Professor sentar-se num cadeirão ao lado da sua secretária, para expor-lhe as suas inquietações sobre como fazer o governo aceitar os factos consumados.
É que Rufino desconfiava de todos os governos, especialmente dos que nos governavam desde a Revolução, mas acreditava que eram esses os mais frágeis de todos e podiam por isso ser enganados como nenhuns outros.
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2007/07/18
Memórias das minhas Aldeias
Esquecimentos da História
Parte VI - N.º 18 - UM HOMEM DE AÇO
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Primeiro que tudo houve que criar a cooperativa impulsionadora e proprietária do futuro estabelecimento de ensino superior.
Rufino estudou com os juristas do grupo tudo o que havia a ler de legislação cooperativista para elaborarem a minuta do estatuto que faria parte do pacto notarial fundador da Cooperativa de Ensino Universidade Livre C.R.L..
A preocupação essencial foi limitar rigorosamente as possibilidades de acesso de novos associados.
Os “cooperadores” que participaram na escritura foram menos de trinta, mas o capital reunido pouco passou dos trezentos contos, que as entradas em catadupa das primeiras propinas de pressa ultrapassaram.
A ponto de, mesmo para as obras de urgência, o conselho de administração da cooperativa não ter tido que pedir à banca, por cautela e mais para apalpar terreno que por outra coisa, senão um pequeno empréstimo, eximiamente negociado por Rufino e o tesoureiro, que se entendiam… criativamente, quase sem se falarem.
O conselho de administração era completamente dedicado a Rufino mas, em troca de remunerações equilibradas, que surpreenderam positivamente todos, Rufino obteve de cada um o compromisso de que estariam em qualquer momento disponíveis para trabalhar quanto fosse necessário e urgente, a começar por si próprio, desde havia meses ocupado com a U.L. praticamente em super full time.
Começara ele, logo que o interesse e fascínio pelo “ano propedêutico” se anunciara, por levar consigo os mais atrevidos, para negociarem com o presidente da Fundação monárquica o contrato de arrendamento do prédio da Vítor Córdon, com uma renda que Rufino quis que fosse alta para conforto e segurança da Família real, ainda que metade do pagamento das obras viesse a ser descontado nas rendas, durante o primeiro ano do contrato.
Desculpem os leitores estes pormenores aparentemente desinteressantes, mas verão que tudo é importante para a História.
O conselho de administração e Rufino, seu administrador-delegado, nunca porém viriam a arrepender-se de terem sido generosamente compreensivos e simultaneamente ponderados nestas negociações, que conduziram com o maior tacto, para vencerem definitivamente desconfianças que pudesse haver contra eles, nos meios monárquicos, sobretudo quanto à ortodoxia monarquista de alguns. Afigurava-se que, para muitos monárquicos, se alguém gostava deles, não podia deixar de ser monárquico também…
Este era um ponto particularmente sensível para o administrador-delegado, porque todos o consideravam monárquico e ele nunca como tal se declarara, a não ser que o seu muito grande respeito, estima e consideração pela Família real e pela memória de todos os Reis de Portugal fossem tomados como provas de monarquismo.
Como a questão acabasse por ser-lhe, uma ou outra vez, expressamente posta, teve de responder que não era monárquico nem republicano e que, se problema havia para o País, a solução era de mera oportunidade conjuntural e não ideológica, nem de coerência histórica.
Mas supõe-se que ninguém acreditava, porque todos continuavam a tê-lo ou parecer tê-lo por necessariamente monárquico, pode ser que por se mostrar cada vez mais um fiel, quase devoto cultor da História de Portugal, de que menos de um décimo do tempo fora ocupado pelo regime republicano contra mais de nove décimos, e os mais gloriosos, de monarquia absoluta e liberal.
Acaso ninguém conseguisse compreender que não fosse monárquico quem era tão obviamente e confessadamente homem da direita mais coerente.
Na verdade, tudo corria pelo melhor à Universidade Livre, S.C.A.R.L., e o primeiro teste à solidez da situação pôr-se-ia só uns meses mais tarde.
Mesmo assim, já depois de alargada ao Porto a UL.
O que, mais uma vez, mostrou a confiança de todos os interesses e pessoas aliciadas, nas iniciativas, ideias e quadros do “movimento”.
O “movimento” é que os tinha bons!” – diziam muitos.
“Bons e bonitos” – pensavam algumas raparigas, atraídas pelo trabalho em células.
Deve assinalar-se que, também neste grande e decisivo salto em frente, para a expansão do projecto da UL, o empurrão inicial se deveu igualmente ao Professor.
Isto é, foi ele quem perguntou um dia a Rufino se o “movimento”, nas células do Porto, também tinha gente para lá se abrir a UL, agora que em Lisboa já…
Disse-lhe Rufino que sim e o resultado viu-se logo.
Mas, por uma misteriosa iluminação, o administrador-delegado, Rufino, entendeu que desta vez os agentes para a operação teriam de ser predominantemente mulheres, raparigas ou senhoras, que o “movimento” até aí só empregara em tarefas quase domésticas e menos, ou muito raramente, em acções de desenvolvimento estruturante.
Falou pelo telefone e por telex com algumas e a reacção foi simplesmente da mais completa adesão e do maior e mais imaginativo empenhamento, logo a seguir.
Seria mais uma machadada, talvez a machadada final no PREC.
A.C.R.
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2007/07/16
Memórias das minhas Aldeias
Esquecimentos da História
Parte VI - N.º 17 - O PROJECTO DUMA GERAÇÃO
Apenas isto…
Que o “movimento” liderado por Rufino tinha de ser importante também e temido, o que explicaria não só a sua sobrevivência ao “25A”, durante o PREC e parecia, depois, que para sempre, mas também que jamais tivesse havido prisões entre os seus membros.
Ora, desde logo, isso pelo menos obrigava Rufino a uma rectificação. Isto é, que os do “movimento” não teriam sido engavetados não por serem insignificantes mas, ao contrário, exactamente por serem temíveis. Isto é, com as suas células e métodos de trabalho em células, dispersas pelo País e funcionando em rede, autonomamente mas talvez com um comando central que aliás diziam não existir, no que o Professor não podia acreditar, com a sua formação política algo arcaica, como é compreensível.
Pouco menos de três anos depois do “25A” – durante os quais manteve o “movimento” e as suas figuras mais conhecidas sob observação, o Professor foi confirmando os juízos iniciais, apesar de não ter voltado a Lausanne, senão por contactos de interpostos agentes.
Melhor ainda: quando chegou a altura de tentar a chance dum ensino introdutório à Universidade, foi no “movimento” e no seu líder que o Professor pensou para o seu lançamento, num contexto socialmente já muito menos adverso, mas politicamente ainda uma grande incógnita e um risco difícil de desprezar ou mesmo minimizar.
Tanto que o próprio Professor, como muitos outros exilados portugueses, em Espanha, França, Brasil, etc., ainda não tinham achado oportuno regressar a Portugal.
Casos, entre eles, daqueles portugueses que, numa viagem curta ao Rio de Janeiro e São Paulo, já nos fins de 1976, em missão do “movimento, Rufino lá encontrou, em empregos por vezes bastante incertos e com mulheres, filhos e netos deixados na Pátria. Mas eles próprios cheios de saudades do Portugal velho ou do velho Portugal… e de ódio a Marcelo que, exilado lá também, sofria ainda mais que todos, porque se sentia o único derrotado de “Abril”, que os demais não passariam a seus olhos de simples desertores sem perdão.
Rufino não se arrependeu nunca, de se ter dado, em regime de plena entrega, ao desafio do Professor, mas cedo julgou perceber e se convenceu de que uma Universidade privada seria coisa demasiado importante e demasiado séria para ficar obra e responsabilidade de professores universitários apenas.
Quis, por isso, desde pode dizer-se o primeiro instante, assegurar-se de que os quadros escolhidos pelo “movimento” ocupariam todas as posições de comando, não exclusivamente didáctico-pedagógicas, da grande iniciativa.
Mas diga-se que com um objectivo fundamental: fazer da UL a mais importante obra e realização da sociedade civil portuguesa, depois de “Abril”, por muitos, muitos anos, servindo de exemplo e estímulo para tudo o que de melhor os portugueses de Portugal viessem a construir nos cem anos seguintes. No ensino como na investigação, no futebol como no râguebi, no atletismo como no golfe ou na ginástica de exibição, no ensino superior como na formação profissional, na inovação como na competitividade, nas Forças Armadas como nas missões de paz, na qualidade do ensino em geral como no combate ao insucesso e abandono escolares, etc., etc., etc.
Mas Rufino já acreditava que isso seria o grande projecto da sua vida profissional, e sonhava que isso seria também a grande obra colectiva da sua geração.
O projecto e obra de uma geração!
Como não podia falhar e pôr a obra em risco, entregou-se de alma inteira à concretização dos passos decisivos dela, sobretudo os primeiros, e mobilizou para colaborarem consigo os melhores quadros do “movimento”.
Com risco embora, em que na altura mal pensou e mal consentiu que outros pensassem, de deixar o “movimento” afundar-se para sempre por ficar entregue a camaradas pouco experientes e pouco ambiciosos, nada visionários.
Mas a Universidade Livre monopolizou tudo e todos, as maiores e melhores energias, as mais formidáveis dedicações e inteligências.
A.C.R.
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2007/07/13
Memórias das minhas Aldeias
Esquecimentos da História
Parte VI - N.º 16 - O DESPERTAR DOUTRO PROVINCIANO
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Mestre Jean Ousset, como o tratavam os mais jovens apaniguados, gostou efectivamente muito, desde logo, do “aprendiz” Rufino.
Tinha Ousset conhecido nas Américas do Sul e Central meia dúzia ou mais de homens na casa dos vinte, quase trinta anos, que logo se lhe tinham afigurado verdadeiramente promissores e aos quais só faltava um caminho experimentado, que ele lhes dera a conhecer, por onde, a partir dos encontros consigo, podiam seguir o destino que os esperava e era a sua vocação para militantes excepcionais, acreditava o Mestre.
Mas Rufino quase o fizera esquecê-los.
Com Rufino, Ousset pensava, estava certo de ter encontrado tudo pronto para um grande lançamento. Na plenitude do ser adequado e das circunstâncias ideais, com os limites estritamente necessários para não falhar e ser tão bem sucedido quanto possível e Deus quereria; o homem de talento; o homem vocacionado; o homem inspirado; o homem com impulso e ideias próprias que não contradiziam o que o Office tinha para dar-lhe; o homem de fibra para avançar por todos os caminhos abertos, pelos grandes caminhos e os mais estreitos, sem se perder em nenhum e inteiramente entregue ao único Caminho onde desaguam todos os mais.
Era Rufino, esse homem!
Como bom francês, Ousset comparou-o no seu íntimo a Napoleão, o ideal francês do corso nascido para glória da França, como qualquer francês o sonha.
O mesmo béguin se criara e cresceria entre eles.
De facto, também Rufino fora atraído imediatamente pelo grande mestre doutrinador e grande homem, pura e simplesmente, com que o “Office” atraía excepcionais vultos aos seus métodos de trabalho e ao seu proselitismo incansável, brilhante e excelentemente exemplificado naquele homem cheio de talentos e da fé mais empenhada que poderia encontrar-se.
Um dia, mais de dez anos depois, já em plena Revolução, com o PREC a desenvolver-se imparavelmente, ao que parecia, Rufino teve a mais perfeita prova da amizade que os unia, a Ousset e a ele próprio.
Estava-se nas vésperas da Revolução, era já Abril, e uma numerosa e luzida delegação do “movimento”deslocou-se à Suiça, onde em Lausanne, no Palais des Congrès, ia ter lugar, como anualmente desde uns dez anos antes, ia ter lugar o Congresso Internacional do Office de 1974, durante três dias do princípio de Abril.
Sem ter-se chegado a saber como nem porquê ou a que propósito, os congressistas portugueses foram surpreendidos pelo aparecimento do Professor, em Lausanne e no Congresso, logo no primeiro dia da “festa”.
O Congresso era sempre uma manifestação impressionante, pela quantidade dos congressistas, mais de quatro mil sem atropelos num espaço fechado, com grandíssima percentagem de jovens, em geral universitários, entre os quais o entusiasmo e fúria participante das raparigas desafiava sem favor o grande entusiasmo, o empenhamento sem limites e a enorme dedicação dos rapazes. Depois havia a qualidade e vida dos stands de mais de cento e cinquenta países e organizações integradas no espírito e moldes de actuação cívica e cultural propostos e praticados pelo “Office”. As comunicações, sempre objecto do maior cuidado e da melhor atenção, eram sem excepções objecto do interesse que ao longo dos anos os congressistas se tinham habituado a dedicar aos seus autores. O entusiasmo dos ouvintes correspondia em geral ao grande interesse delas, mas atingia níveis de quase transe e paroxismo com o discurso de encerramento do Congresso, sempre obra de Jean Ousset, talvez o maior e mais empolgante orador que até hoje conheci.
Era, ao que todos diziam, o coroamento do maior acontecimento, o mais entusiasmante e com mais conteúdo e de mais substância que se vinha realizando todos os anos, regularmente, em todo o mundo, por tradicionalistas ou quaisquer direitas.
Não admira que o Professor tenha sido como que fulminado pela surpresa de espectáculo tão grandioso, tão bem organizado e tão cheio duma vitalidade que não podia deixar de corresponder a uma realidade e capacidade de realização verdadeiramente irradiante, que também não podiam deixar de estar sintonizadas com um poder efectivo e, “tout court”, realmente impressionante, admirável e respeitável como poucos.
Ainda hoje penso que o Professor não terá compreendido, no fundo, grande coisa daquilo tudo, porque o Office tinha pouco de convencional e o Professor tinha da política e da acção cívica todo o lastro dos métodos de acção e pensamento político da sua formação monárquica mais tradicional e mais anquilosada.
Embora muito inteligente e com notável capacidade de apreensão para as novidades.
Em todo o caso…
A.C.R.
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2007/07/12
Memórias das minhas Aldeias
Esquecimentos da História
Parte VI - N.º 15 - DOIS "DEVOTOS" DE SALAZAR
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Jean Ousset seduziu imediatamente Rufino, em duas conversas que tiveram pouco depois do seu regresso das Américas, do Sul e Central, pela sua eloquência, pela sua cultura e clareza de ideias e propósitos, pelo seu programa, ardente de convicções e idealismo inteligente, pelo seu encanto, em suma.
Mas também Rufino convenceu Ousset do seu talento para a doutrina e para a acção, mesmo descontando o factor de aproximação que tinham descoberto ao fim das primeiras três horas a conversarem, a sua admiração sem restrições por Salazar.
Mas, ao contrário, como Rufino também já compreendera nos encontros com os mais novos – e todos os dias foram aparecendo outros que nunca vira – nenhuma desculpa dos actos de De Gaulle ou qualquer pequeno ou grande elogio deles eram ali bem recebidos.
O mais que, nesses casos, podia esperar-se, como reacção de qualquer frequentador ou responsável do Office, era um silêncio educado.
Mas geralmente percebia-se o sentido da fúria, maior ou menor, de parte de todos aqueles franceses, relativamente ao presidente da República que na altura tinham, não por ser presidente da República, mas por ser De Gaulle, a quem não perdoavam querer a qualquer custo desfazer-se do Império ultramarino da França, nem, talvez ainda mais grave, que tão ligeiramente tivesse traído as convicções monárquicas da sua juventude, dizia-se, convicções que em geral eram as dos seus críticos, adversários, dissidentes, inimigos.
Comparando com isso, não há dúvida de que com Salazar eles eram tolerantes sem limites, tudo lhe perdoariam, inclusive não ter implantado a monarquia, ao passo que a De Gaulle nada perdoavam.
Para eles, Salazar era a sabedoria sem mácula nem limites, ao passo que em De Gaulle tudo eram truques políticos que, mesmo quando geniais ou de uma audácia extrema, não conseguiam eles nem queriam perdoar-lhos.
Mesmo Rufino, apesar de novato em especulações de política internacional, acabou por perceber que a chave de todas as explicações era Pétain, o marechal comandante do exército francês que tivera de render-se aos alemães e assumir a chefia do Estado.
Na realidade, a direita francesa, em grande parte, não tinha ainda digerido a derrota de 1941, mas considerava a rendição única saída para uma catástrofe de que só as esquerdas eram culpadas pelas suas políticas de desarmamento, de derrotismo, de cedências sucessivas a Hitler e de completa cegueira estratégica nos anos da guerra e anteriores à guerra.
O marechal não passaria de vítima dos erros acumulados pelos políticos e pelo sistema degenerado da III República, vítima que tentara salvar o que era possível salvar da França, sacrificando mesmo o seu imenso prestígio como militar e herói francês maior da I Guerra Mundial.
Aos olhos de muitos franceses, Pétain continuava pois a ser o verdadeiro herói e o grande visionário, enquanto De Gaulle fora realmente o traidor, ao dividir a França profunda efectivamente em duas, impedindo-a também de desempenhar o papel de fiel da balança da guerra que prosseguiu de facto sem ela.
A chamada “Resistência” que De Gaulle fomentou no interior da França, sendo assim, foi por isso também, antes de mais, profundamente anti-francesa.
Rufino não conseguiria nem queria discutir as razões dos que defendiam qualquer das teses, cada uma das quais, parecia-lhe, fundada em argumentos que se contradiziam entre si, sobretudo a tese dos anti-gaullistas.
Talvez até tivessem dado a esta uns ares de coisa acabadamente coerente, de pensamento perfeitamente coerente que, no fundo, não possuiria. Mas isso era com os franceses. Agora do que Rufino precisava era que o deixassem trabalhar e que também trabalhassem consigo na mobilização dos imigrantes portugueses em França, à volta de Paris sobretudo.
“Maître” Jean Ousset concordou com Rufino, sem hesitação alguma.
A.C.R.
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2007/07/09
Memórias das minhas Aldeias
Esquecimentos da História
Parte VI - N.º 14 - APOIOS IMPREVISTOS
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O “Office”, rue des Renaudes, ao Arco do Triunfo, foi descoberto por Rufino através duma revista, “Permanences”, que regularmente, uma vez por mês, chegava à embaixada, não longe dali e onde ele a devorava de ponta a ponta.
Uma tarde, sem ter agendada nenhuma reunião de “mobilização” de imigrantes, decidiu-se por dar um salto ao “Office”, que já conhecia por fora, de lá ter passado recentemente para ter uma ideia de como era e onde era exactamente.
Foi recebido por dois rapazes na casa dos vinte anos, a que logo veio juntar-se uma rapariga da mesma idade, estudantes universitários os três, já licenciados mas a prepararem mestrados, coisa de que pouco ou nada se falava ainda em Lisboa ou Braga, Évora, Coimbra e Porto, que eram então os únicos centros universitários portugueses, se não contarmos Luanda e Lourenço Marques, em vésperas de entrarem a funcionar.
Rufino contou-lhes, no seu bom francês, onde trabalhava, “com os imigrantes portugueses na embaixada de Portugal”, para a “organização” dos interesses deles, sem carácter sindicalista mas na base da “doutrina social da Igreja”, que “inspira o regime político português”, sintetizou, porque sabia, da leitura da revista, que isso os faria interessarem-se pelo seu trabalho.
Mas, na verdade, os seus interlocutores mostraram-se muito interessados nas informações do português, que no entanto se limitaram a registar cuidadosamente, como percebeu pelas perguntas muito acertadas que lhe fizeram.
Uma novidade para Rufino deveria ser, a certo ponto, a insistência na importância dos métodos de trabalho do doutrinação, que, explicaram, era a grande novidade de Jean Ousset. Só como insistência, porque isso na revista não surgia tão evidente, como nos livros que esse dia levaria dali.
E quem era Jean Ousset?
Rufino não disse que o lia sempre na revista, antes de ler os demais colaboradores, mas pediu-lhes que lho explicassem e que gostaria de conhecê-lo em pessoa. Percebera que mostrar tal interesse deveria abrir-lhe definitivamente todas as portas, ainda que, nas bocas e entusiasmos dos seus interlocutores, tudo lhe parecesse um tanto teórico, se não mesmo em excesso…
Eles aconselharam-no a que lesse o livro “L`Action”, que acabava de sair, antes de encontrar-se com Ousset, o autor, o qual só voltaria a Paris daí a duas ou três semanas, porque andava numa importante digressão pela América do Sul. Estava, aliás, a começar muito auspiciosamente a avaliar por notícias já chegadas, que falavam do grande entusiasmo de Jean Ousset por várias personalidades muito jovens, com que já se encontrara longamente e lhe pareciam muito prometedores talentos para os objectivos do “Office”. Que essa era a grande obsessão e o grande esforço de Ousset, descobrir talentos e pô-los a trabalhar segundo os métodos de que era o grande sistematizador e o grande impulsionador, como “L´Action” demonstrava.
E eles a insistirem!
Rufino não precisava de tanta insistência e para o demonstrar, mas não só, pediu que lhe vendessem três exemplares, queria um para si e os outros para oferecer ao embaixador e ao cônsul.
“Não precisa de comprar para o vosso Ministro dos Negócios Estrangeiros, nem para o Presidente Salazar, que, antes de partir, já Jean Ousset deixou dois exemplares dedicados (“dédicassés”) que já devem ter recebido, pois logo lhos mandámos” – disseram-lhe.
A olhá-lo, com um sorriso que Rufino não foi capaz de classificar logo, o mais jovem dos seus interlocutores franceses deixou levantar e afastarem-se os seus dois camaradas, para dizer-lhe em voz baixa já completamente sério…
“Se Monsieur convencer Jean Ousset de que Monsieur também é uma talentosíssima esperança, vai ver que tem dele tudo o que precisar. Mas não caia em lisonjeá-lo, que isso ele não perdoa, porque acha a lisonja a maior prova da falta de talento e incapacidade de quem à lisonja se entrega…”
Rufino saiu dali, era quase noite, carregando um grande embrulho de livros, porque acabou por não se limitar ao “L´Action” e comprou todos os restantes de que Jean Ousset era autor e não eram muito poucos, nem de poucas páginas.
A.C.R.
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