<$BlogRSDUrl$>

2009/10/13

Aos assustados 

Manuel Brás

Os termos nacionalismo e nacionalista ainda hoje continuam a assustar.

São, indubitavelmente, termos ambíguos, no sentido de que os seus significados não são os mesmos para todos, podendo até ter significados contrários.

É um caso análogo aos termos liberalismo e liberal. Veja-se como liberal na América significa socialista/esquerdista. Na Europa também é quase assim. Porém, o termo conservador na América designa alguém que perfilha os princípios do liberalismo clássico.

É que, basta que um blogue contenha os vocábulos nacional ou nacionalista para que algumas pessoas, sem mais raciocínio e discernimento, se assustem de imediato, façam queixinhas e demonizem pelas costas, quando antes nunca tiveram a coragem de o fazer pela frente. Como se as Nações não existissem... E depois vêm falar de tolerância...

Mas, pela parte que me toca, não há razão para sustos, porque eu não tenho medo de explicar o que entendo por nacionalismo. Até porque a reflexão e a partilha de ideias políticas nunca fez mal a ninguém.

Assim como uma determinada visão do Homem pode gerar um humanismo, uma determinada visão da sociedade ou do Estado pode gerar o socialismo, a teorização da Nação designa-se nacionalismo. Porque as Nações existem e constituem um valor político, é possível teorizar sobre elas, ou melhor, é impossível deixar de teorizar sobre elas. Noutras palavras, o nacionalismo também pode ser entendido como uma ética para a qual a Nação é considerada o valor supremo na ordem política. E sublinho na ordem política, porque considero que a ordem política não é tudo, nem é fechada, e não abrange tudo, conforme pretendem as tendências totalitárias. Não é a ordem política que define a natureza do homem, nem dos grupos sociais e não está acima da ética: aceita-os e trabalha consequentemente em prol do comum e da unidade.

Por conseguinte, é possível conceber a Nação como valor supremo na ordem política, limitada em termos éticos ou morais pela natureza humana, que é dizer, pela lei natural.

Só isso.

manuelbras@portugalmail.pt

Etiquetas: , , , ,


2008/12/16

Dr. Eduardo Alves 

Manuel Brás

Recebi através do Engº Francisco Ferro a dolorosa notícia do falecimento do Dr. Eduardo Alves, no passado dia 8 de Dezembro.

Embora sabendo, como também ele sabe, que a vida não acaba, apenas se transforma, que a vida e a morte têm um sentido, convicção que, seguramente, o terá ajudado a aceitar a passagem, é sempre dolorosa a experiência de ver partir um amigo.

Conheci o Dr. Eduardo Alves há cerca de 10 anos. Entre outras iniciativas que o seu dinamismo inspirou, ressalto que foi um dos principais na preparação, organização e participação activa no I e II Congresso Nacionalista Português, respectivamente, em 2001 e 2003.

Conheci o Dr. Eduardo Alves como um homem de mente aberta, disposto a discutir ideias, a procurar a clareza dos conceitos, a ouvir os outros, a aprender sempre mais, a aprofundar a compreensão da realidade. Combatia por ideias. Não esperava que os outros fizessem aquilo que ele podia fazer: fazia ele. Foi assim que, juntando um grupo de colaboradores – ou de impulsionadores, como gostava de dizer o saudoso Rodrigo Emílio – se avançou para a realização dos Congressos Nacionalistas neste início do séc. XXI.

Que ficou desses Congressos?

Um conhecimento mais aprofundado das correntes do pensamento nacionalista que existem em Portugal. Ficámos a saber o que pensam os nacionalistas actuais sobre a Nação, a Pátria, a política…

Esclareceu-se, discutiu-se, trocaram-se ideias, definiram-se conceitos.

E convenhamos que não é pouco.

Seguramente que outras pessoas conheceram há mais tempo o Dr. Eduardo Alves e que estarão habilitadas a fazer-nos chegar alguns apontamentos biográficos que, de alguma forma, o possam homenagear. Serão bem vindos.

À Família, envio as minhas mais sentidas condolências.

manuelbras@portugalmail.pt


Nota: Todos aqui na AN, com igual pesar, tomamos a liberdade de subscrever este texto do Manuel Brás, enviando, nomeadamente, também as nossas mais sentidas condolências à Família.

AN

Etiquetas: , , ,


2008/11/14

Partido Nacionalista Português 

Chegou-nos o pedido do Sr. Rui Barandas para publicar o texto que se segue sobre a constituição do Partido Nacionalista Português.

Neste blogue discutem-se ideias políticas, a Nação e o nacionalismo, nos variados sentidos que estes conceitos assumem na política. E tudo quanto a estes conceitos diz respeito interessa-nos.

Publicamos, por isso, o texto, sendo que a finalidade do blogue não é apoiar um partido concreto (o blogue não é de nenhum partido, nem tem partido), mas sim ideias, que também podem, eventualmente, ser partilhadas por outras forças políticas (partidos ou não) para quem a Pátria, a Nação, o patriotismo e o nacionalismo são referências, o que quer que signifiquem para essas forças políticas.

A.N.

----------X----------


A fundação do Partido Nacionalista Português está a ir muito devagar, muito mais do que o desejável embora os estatutos estejam prontos e de momento em revisão por quem de direito e reconhecimento.

Também ainda não foi nomeado o presidente do mesmo, embora, haja vários candidatos que ainda não aceitaram devido a estar em reflexão.

O perfil do presidente enquadra-se nos seguintes moldes:

1- Idade máxima: 50 anos

2- Nacionalista convicto

3- Homem de família

4- Homem que tenha dado provas de sucesso na sua carreira académica assim como na sua carreira profissional.

5- Pessoa que seja nacionalista convicta, com carisma e que entre na vida política portuguesa transmitindo credibilidade, integridade e excelência e ao mesmo tempo saiba ir ao encontro das necessidades genuínas do povo português e de Portugal.

Não queremos protagonistas, nem servilismos, nem "tachos".

Os dirigentes do partido serão devidamente remunerados segundo as suas funções para que se dediquem a tempo inteiro ao partido e que possam viver vidas condignas das suas funções.


Entretanto, o PNP deseja receber currículos de cidadãos nacionais e que desejem servir o país e seguir uma carreira política pois desejamos nomear coordenadores para todas as cidades de Portugal. Qualquer coordenador de núcleo será devidamente remunerado e as despesas pagas e as suas funções serão:

a) Recolhimento do maior número de assinaturas na sua zona de trabalho

b) Uma vez que o partido esteja formado e estabelecido os coordenadores terão uma acção a tempo inteiro junto das populações pelo que terão o devido treinamento para esta tarefa.


Está prevista a abertura de quatro centros nas seguintes cidades:

LISBOA (Sede)

PORTO

COIMBRA

FARO

que terão os seguintes departamentos:

Administração, Lazer, Centro de convenções para palestras e outras actividades assim como uma biblioteca e espaço para convívio.

O PNP reconhece que a juventude de Portugal é o futuro da nação e como tal envidará todos os esforços para o desenvolvimento espiritual e físico da sua juventude pelo que estão para ser compradas duas grandes quintas, uma a sul do Tejo e outra na zona do Porto, para que os jovens possam usufruir ao máximo, tempo ao ar livre dedicando-se a desportos, actividades físicas (haverá cavalos para a prática de equitação) e a outras actividades. Todas as despesas de estadia nas mesmas e transportes serão por conta do partido.

O sucesso do partido basear-se-à não só do esforço e empenhamento de cada um, assim como o seu amor por Portugal, mas também, muito em especial, do financiamento garantido por portugueses que se preocupam com o nosso País e o seu futuro. (A ESTES UM GRANDE BEM HAJA)

Para quem desejar mandar o seu currículo poderá faze-lo para:


pnp@gmail.com ou

barandas.rui@gmail.com ou

contactar: 931787877

Etiquetas: , ,


2007/08/10

À Legião Patriótica (6)
Morte honrosa do PRD... Felix culpa!
Nascimento falhado do PNR... Mea culpa! 

(<--)

Não bastava ao grupo do VECTOR ter criado este; lançado a "Resistência"; combatido o PREC de esquerda e o PREC de direita; relançado o PDC-Partido da Democracia Cristã...; defendido pública e decididamente o prestígio de Salazar; criado o NEOS-Núcleo de Estudos Oliveira Salazar; ter concebido e posto a funcionar a Aliança Nacional; ter promovido edições muito estimáveis através da Editora Nova Arrancada; ocupado lugar significativo na blogosfera; etc., etc...

Havia ainda de ter promovido a transformação do PRD eanista no PNR nacionalista, salvando ao mesmo tempo a face do primeiro e dando uma grande oportunidade ao nacionalismo de cara lavada e apresentável, com rejeição inequívoca de quanto pode desacreditar e tornar o nacionalismo ultrapassado e inaceitável, restituído, pelo que nos respeita, à categoria de grande força política, se não a maior, promotora do desenvolvimento histórico da Humanidade.

Acredito que o nosso falhanço, relativamente ao nascimento do PNR, é temporário, mas que caberá a novas gerações resolver o terrível dilema que está em suspenso.

Quererão vocês, os da Legião Patriótica, com muitos outros, ajudar o País a sair deste impasse?

Não foi casual - soube-o logo, na altura - por que escolheram os do PRD a Aliança Nacional para tomar conta do partido que fora eanista.

E soube-o através do próprio Presidente infeliz que tenho referido, o qual na reunião em sua casa, na Amadora, largamente me interrogou sobre as origens, constituição, natureza ideológica e finalidades políticas da Aliança Nacional.

Percebi que as minhas respostas o satisfizeram e tranquilizaram completamente.

Concluiu, sem qualquer dúvida, que nós não seríamos eanistas, pela certa. Mas que não deixaríamos transformar o PRD num partido xenófobo, racista, racialista, uma deturpação completa do nacionalismo da AN.

Peço perdão à sua memória de o termos enganado sem querer.

A.C.R.

Etiquetas: , , , , , , ,


À Legião Patriótica (5)
Morte honrosa do PRD... Nascimento falhado do PNR. 

(<--)

Creio ter causado algumas surpresas, talvez mesmo um forte choque, a revelação que fiz no número anterior desta resposta em série à LP, sobre o modo como se "comprou" o PRD-Partido Renovador Democrático, logo mudado de nome para PNR-Partido Nacional Renovador, por proposta aliás do signatário.

Lembro-me bem da aflição em que vivia o então presidente eanista do PRD, como me confessou, sem fundos para conseguir pagar as dívidas fiscais do seu Partido!

Chego a pensar que ele foi o último, talvez o único, grande mártir do PRD.

Foi numa reunião em sua casa, na zona da Amadora, uma manhã de sábado ou de domingo, a sós um com o outro.

O que ele se me queixou dos que haviam sido os mais altos responsáveis do Partido, General Eanes incluído, além de muitos outros, e que desde havia muito tinham deixado de pagar as cotas, criando naturalmente a situação de insolvência a que se chegara!

Afinal, a Aliança Nacional salvou o PRD da "vergonha" de ser executado publicamente, ou os seus dirigentes máximos, por dívidas fiscais criadas pelos incumprimentos dos associados!

Realmente, no fim de contas, só têm que agradecer-nos a "salvação" que de bandeja lhes ofereci e oferecemos, cumprindo religiosamente o acordado com o seu infeliz Presidente da altura.

Claro que o PNR não nasceu talvez tão bem quanto seria desejável, mas o PRD, esse morreu de forma muito melhor - graças a nós! - do que aquela a que os seus fundadores fugidios (ou fugitivos?), sem excepção, o tinham condenado...

Na verdade, o PRD estava mesmo, segundo o seu Presidente, ameaçado de dissolução compulsiva pelas irregularidades do seu funcionamento...

Veja-se!

O partido de António Eanes!

Não posso gloriar-me, nem ninguém comigo, de termos criado o PNR, para afinal o deixarmos cair inutilmente e estupidamente nas mão dos skin heads e outros que tais.

Mas podemos pelo menos orgulhar-nos de ter dado morte honrada, mesmo honrosa, à relíquia respeitável que era o PRD!

Pelo menos comparando com o fim que os seus fundadores, consciente ou inconscientemente (o que politicamente ainda é pior) lhe estavam de facto a preparar.

Isto ainda é mais saboroso se soubermos porquê terá a Aliança Nacional sido escolhida para o "funeral" da respeitável relíquia.

A.C.R.

(-->)

Etiquetas: , , , ,


À Legião Patriótica (4)
O PNR, um partido nacionalista 

(<--)

Fundada por escritura pública, em 1995, a Aliança Nacional que, de facto visava, à distância, a sua eventual transformação em partido político, acabou por verificar-se, relativamente de pressa, que seria muito trabalhoso e caro conseguir as assinaturas necessárias para o efeito.

Por essa altura, fomos abordados por alguém do PRD- Partido Renovador Democrático que nos propôs o controlo do mesmo, desde que pagássemos as dívidas do partido às Finanças, que não eram grandes mas ainda assim umas centenas de contos.

A Aliança Nacional não tinha fundos para pagá-las, mas alguém à Aliança Nacional muito ligado, só de mim conhecido, deu a garantia de pagá-las logo que necessário.

Pude assim fechar a negociação com o então presidente do Partido, pouco depois falecido, o qual, com os seus últimos camaradas, procedeu à convocação do órgão partidário que podia decidir sobre a admissão dos sócios necessários, pela A.N. indicados, para tomarmos o controlo do PRD. Os seus estatutos, em nova reunião, também foram pouco depois alterados, mas apenas o estritamente necessário para não provocar ondas incontroláveis, e o próprio nome apenas mudado de PRD-Partido Renovador Democrático (o do General Eanes) para PNR-Partido Nacional Renovador (o nosso).

Com o "Nacional" apenas queríamos dar a entender que aquele era, finalmente, um partido anunciador do nacionalismo em Portugal.

Mas que nacionalismo?

O busílis era esse, porque nas eleições ao fim do primeiro mandato para que fui eleito presidente do partido, logo os ficheiros dos sócios apareceram enxameados de skin heads e outros que tais, admitidos ou inscritos sub-repticiamente, à margem dos órgãos partidários, de modo que tanto eu como o presidente da mesa do conselho geral de sócios fomos inteiramente apanhados de surpresa e formalmente derrotados sem remissão.

Os "vencedores" tinham nomes algo conhecidos, mas os beneficiários da "vitória", os skin heads e outros que tais, rapidamente, na primeira oportunidade, correram com eles, para inteiramente à solta elegerem outros dirigentes, nos seus lugares.

É evidente que o nacionalismo que o partido desde então vem proclamando nada tem a ver com o da Aliança Nacional.

Mas ainda mais: nada tem a ver também com o nacionalismo que conheci do actual presidente, que me dizem refém dos extremistas da citada origem, defensores orgulhosos dum nacionalismo inaceitável e irredentista.

O que nada tem de novo e não é exclusivo dos nacionalismos, porque também a chamada democracia do presidente Chávez da Venezuela, nada tem de democrática.

A.C.R.

(-->)

Etiquetas: , , , ,


2007/08/09

À Legião Patriótica (3) 

(<--)

Depois...

O "Vector" foi mesmo bom na resistência e combate ao chamado progressismo, naturalmente falso, de certos meios católicos e cristãos em geral. Isto antes do 25 de Abril, e, depois deste, também na resistência e combate ao PREC, até ao momento, já por 1976/77, em que vencido o PREC graças ao retorno e aprofundamento dos sentimentos nacionalistas portugueses, resolvemos entrar no combate cultural.

Criámos em 1977 a Universidade Livre.

Conhece ou conheceu?

Ainda bem.

É sem dúvida o acontecimento, impulsionado pelo VECTOR, de maior repercussão nacional.

Ignoram-nos?

Há mesmo historiadores de muito "respeito" que conseguem referir a fundação da UL, sem a mínima alusão ao papel decisivo do VECTOR e dos principais responsáveis pela UL e seus visionários.

Derrotados inapelavelmente na UL pelo ódio sem sentido(?) dum ministro da Educação, alguns de nós resolvemos voltar à acção cívica e criámos a Aliança Nacional, que teve origens imediatas nos convívios relacionados com o centenário do nascimento do Doutor António de Oliveira Salazar e com deslocações de romagem ao Vimieiro a partir daquele ano, 1989.

Vê como é fácil e natural hoje contar tudo isto e ser ouvido em respeito (respeitinho?) porque uma votação da RTP deu a AOS 41% dos "votos" expressos, como o "Maior Português de Sempre"?

Quem imaginaria?

Mas também isso é em parte fruto de muitos como nós, na AN, etc., que não deixamos cair nem apagar a chama que acabou por impor-se, por métodos não terroristas, nem puramente desfilatórios, como sejam a evocação histórica e teórica sistemáticas, as publicações persistentes, as revalorizações frontais, sem agressão, apenas pela verdade repetida sem medo, sem humilhar ninguém...

Tínhamos, em 1991, criado também o NEOS-Núcleo de Estudos Oliveira Salazar, igualmete nascido das comemorações do Centenário do nascimento e das primeiras peregrinações anuais ao Vimieiro, com um númewro de edições sobre Salazar e o Estado Novo já respeitável, através da Editora Nova Arrancada, que os nacionalistas do pós-Universidade Livre também fundámos...

E foi ainda movidos pelas mesmas motivações e impulsos, que há quatro anos se criou o presente blogue...

Não é, ao todo, tão pouco como isso, pois não?

Mas falta o essencial, nestas respostas, que é responder às últimas perguntas suas, a partir da criação da Aliança Nacional, as suas ligações, a sua natureza política, o PNR que dela saíu, etc...Fica para amanhã, mas sumariamente como tudo até aqui, ou ainda mais, por motivos óbvios que talvez saiba ou possa adivinhar e, em qualquer caso, lhe direi.

A.C.R.

(-->)

Etiquetas: , , , , , , ,


2007/08/08

À Legião Patriótica (2) 

(<--)

O "Vector" foi sempre considerado e sempre se considerou um movimento cívico de Direita, embora, para uns tantos, até mesmo de extrema-direita, sobretudo por uma certa esquerda que não sabe onde tem a sua mão esquerda, nem a direita.

Basta lembrar, para melhor sermos situados, que a maioria de todos nós vínhamos do Catolicismo Social; aceitávamos a Doutrina Social da Igreja formulada nos então cinquenta-sessenta últimos anos, desde Leão XIII, sobretudo; éramos, maioritariamente também, social-corporativistas, o que equivale a dizer que a nossa visão da política era tão social ou mais que a das esquerdas todas juntas,mesmo que acompanhadas de todas as direitas agnósticas ou ateias, socialmente mais avançadas e mais radicais que elas.

Mas éramos ao mesmo tempo de raízes profundamente portuguesas e nacionalistas.

Isto é, acreditávamos que a nação é a unidade sócio-política fundamental para alcançarmos o máximo de realização humana, individual e colectivamente, da nossa espécie, sem prejuízo dumas nações, em relação às outras,antes pelo contrário, e independentemente dos seus tamanhos e populações e das potencialidades de todas, para crescerem.

Entre parênteses: o que isto levanta de problemas, teóricos, filosóficos e históricos, Santo Deus!

Mas sem nunca, minimamente, passarmos pela possibilidade ou eventualidade de termos de renegar a entidade nação e a sua identidade, de que a Religião é a base e a raiz, como todos sabemos, mesmo os que o negam.

Por isso ou talvez por isso, o nacionalismo é uma área de pensamento tão rica, tão em constante renovação e diversificação, tão fecunda e tão aliciante para o que podemos considerar os teóricos do bom nacionalismo, como tentador para os construtores de teses perigosas do nacionalismo xenófobo, racista e da superioridade de certas nações e indivíduos sobre outras nações e indivíduos.

Assim vistas as coisas, espanta menos que o nacionalismo apareça evidente na génese das maiores catástrofes sociais e políticas do século XX.

A I e a II Guerras Mundiais (1914-18 e 1939-45) como o seu prolongamento, a Guerra-Fria (1947-1991), foram claramente gigantescos enfrentamentos nacionalistas, com Estados-Nações profundamente nacionalistas dum lado e doutro.

Visto nessa perspectiva, não admira também que alguns dos Estados-Nações mais explicitamente nacionalistas da Europa, por exemplo, se tenham mantido rigorosamente neutros na II Guerra Mundial, sobretudo, por dificuldade fundamentalmente de se alinharem dum lado ou doutro, tão difícil lhes seria definirem de que lado estava o melhor nacionalismo e por que lado seria o nacionalismo mais bem servido.

Creio bem que as dificuldades do nacionalismo como doutrina e projectos políticos ainda hoje provenham desse impasse, de que só Portugal e a Espanha tiveram a clara visão.

Não admira assim que muitos dos nossos nacionalistas, alinhados pessoalmente quer dum lado, quer do outro, tenham mantido até tarde problemas de consciência sobre o acerto do seu alinhamento, fosse qual fosse.

Caro Legião Patriótica, v. provocou-me, desafiou-me, e agora vaiter de continuar a aturar-me... Se assim quiser e puder, claro.

A.C.R.

Seia, 08.08.2007

(-->)

Etiquetas: , , , ,


À Legião Patriótica (1) 

Obrigados, os colaboradores deste blogue da Aliança Nacional, pelo e-mail de hoje, que nos dirigiu com parabéns pelos "bons textos" que temos aqui publicado.

Diz que nos conheceu "mesmo há pouco tempo", apesar de já termos feito quatro anos, o que para nós é mais uma prova de como a Internet pode ser espantosamente retrógrada e lenta em divulgar "bons textos".

Está visto que, na Internet, o silêncio se impõe melhor e é muito mais rápido nos seus efeitos!...

O seu desafio merece e justifica a minha auto-infidelidade, por respeito para consigo e para connosco, os da A.N..

Pergunta se somos (a Aliança Nacional) "alguma organização ou associação política"; se temos "ligação, filiação ou apoiamos algum partido político"; "qual a nossa (minha) opinião acerca do partido nacional renovador, e já agora do seu líder José Pinto Coelho e da maioria dos seus membros"...

Poderia, para fazê-lo, isto é, para explicar-nos cabalmente, escrever umas centenas de páginas, que, aliás, ao longo de quatro anos foram em grande parte ficando escritas neste blogue, provocadas por desafios como o seu; provocadas pela necessidade de explicar as nossas longínquas origens (exactamente quarenta anos já de actividade pública); e provocadas também, como não podia deixar de ser, por desafios polémicos de ignorantes atrevidos e de inimigos que tinham de ser desmascarados.

Isto tem-me obrigado a viver, sem contradições, várias vidas numa só.

As nossas origens estão no grupo "Vector", cujos primeiros fundadores começámos a trabalhar juntos em 1966/67 e cuja primeira realização mais significativa foi a revista "Resistência" de que - sabe-se lá! - talvez haja em sua casa ou de familiares seus os primeiros exemplares... Tenho tido tantas dessas agradáveis surpresas, Amigo!

Digo isto porque há frutos, como o seu interesse e simpatia de agora, que partem necessariamente de raízes antigas, resultado de sementeiras às vezes esquecidas, que não se perde nada em detectar, se possível revelar e valorizar...

Mas se quiser começar desde já, ganhe coragem para ler este blogue nos textos doutrinários ou historicistas, logo desde 03.07.2003.

Desculpe, mas amanhã continuo.

Concorda?

Outras ocupações de férias chamam agora por mim.

A.C.R.

Seia, 07.08.2007

(-->)

Etiquetas: , , , ,


2004/06/16

APÊNDICE Cultura e Lusofonia (III) 

(continuação)

Prof. J. Pinharanda Gomes

Em certa ocasião, foi-me dado ouvir uma conversa entre dois gestores e técnicos financeiros, sobre os programas de ajudas comunitárias à Lavoura portuguesa. Às tantas dizia um, lamentando-se: " – Bom, os nossos lavradores vão ficar a ver navios. Eles não sabem tratar dos processos..." Comentário incisivo do outro: "Não sabem? Ainda bem, pá. Nós, assim, tratamos-lhes dos processos e ganhamos umas lecas...". A ignorância é útil para quem sabe; a ileteracia só oferece vantagens a quem domina as nomenclaturas. É, nesse caso, a ileteracia uma fonte de poder para quem sabe? Parece não haver dúvidas. À custa do cego vive o ajudante.

O elitismo vale como grau de avaliação, mas nunca deve funcionar como obstáculo ao progresso geral. Há dias, lemos as lamentações dos organizadores do Congresso Internacional de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, porque, na falta de subsídios, o Congresso já não mais teria lugar... Quanto custa um Congresso Internacional? Que dinâmica imprime ele ao bem geral? Que lucro tira dele o povo falante? E quantas salas de aula se poderiam abrir nas plagas da Guiné, de Angola, de Timor, com os gastos congressistas? Afinal de contas, essas aulas não iriam aumentar o mercado potencial de leitores de língua portuguesa, beneficiando os congressistas escritores que, nesse caso, melhor fariam ficar em casa a escrever, a produzir?

A fonia requer grafia, havendo lusofonia e lusografia. A coerência é necessária e indispensável. Vivemos uma fase em que já mal conseguimos escrever a recta grafia, porque a fonia sofreu alterações de fundo. Há muita gente que já não entende que, no fonema se lê o verbo estar na forma está; e que no ditongo oi, se lê a interjeição olá; e que, no som lisboeta cãopequeno ressoa o topónimo Campo Pequeno. Que monossilábica língua aí vem, resultante da mistura de etnias, de culturas, de heranças, de um necessitarismo que não atende à ortodoxia filológica? O livro terá, nestas circunstâncias, um papel a cumprir; e também e sobretudo, os meios audiovisuais.

Importa ainda considerar a amplitude da lusofonia.

Do ponto de vista oficial, regulamentar e legal, até por múltiplas implicações jurídicas, políticas, contratuais e comunicacionais, a lusofonia não pode deixar de ser unitária, resumida a um código linguístico uno, constante e universal.

Agora, do ponto de vista da vivência cultural, a lusofonia deve ser pluralista, jamais pode funcionar como obstáculo ou travão aos patrimónios locais e regionais.

Ocorre memorar que a Língua portuguesa teve uma origem lusitano-românica, ou céltico-latina, indistinta de outras línguas faladas nas regiões do Ocidente europeu, não sendo, nos primórdios, bem distinta de outras línguas regionais, como o catalão, o galego, o castelhano, o aquitânico e o provençal, por exemplo. Fazendo par com a língua galega, a portuguesa rompeu o dique e abriu o seu próprio curso, atingindo a perfeição da modernidade e da singularidade, na cultura do séc. XVI (cujo vértice é o poema de Camões), embora já antes a singularidade lhe fosse peculiar, sobretudo na lírica medieval das cantigas de amigo. De tão consolidada, ela não teve dificuldade em abrir-se à incorporação de contributos alheios, como o arabismo, o hebraísmo, e, no ciclo dos Descobrimentos, os orientalismos, tudo isso fazendo, da Língua portuguesa, uma língua ecuménica, apostólica e missionária. Ainda hoje, tantos séculos passados sobre o fim da administração portuguesa no Oriente, há comunidades que guardam vestígios da Língua portuguesa e que, na prática religiosa cristã, continuam a rezar no português do século XVI, as orações comuns, como o Pai Nosso, a Avé Maria, a Confissão e a Salvé Rainha.

Enquanto isto, a língua galega retraíu-se. Barca de navegação Portugal, a Galiza quis ser arca, origem. Tinha de se fechar para se resguardar da influência cultural e sobretudo política da hegemonia castelhana. Deste modo, a Galiza conservou a sua língua arcaica, igual ao português da Idade Média, e produziu uma cultura autónoma e uma língua bem caracterizada, o que se acha provado nos seus escritores — Rosalia de Castro, Valle Inclan, Otero Pedrayo e tantos outros.

No caso português, e apesar de desprezado pelos poderes, a par da consolidação da língua portuguesa manteve-se um certo quadro dialectal, em que abunda o falar das Terras de Miranda, o mirandês, enquanto, na sua esteira, os naturais de Sendim, trabalham pelo esclarecimento do seu arcaico sendinês. E há agora, pelo menos um jornal, publicado em Trás-os-Montes, o Nordeste, que inclui uma página em língua mirandesa.

Mais do que escritas, as línguas são falas. Da junção das falas nasceram os dialectos luso-brasílicos, os crioulos africanos, os falares cristianos do Oriente, incluindo Timor, etc. Constituem eles um património comum, em que a língua se resume a palavras soltas. Nela se incluem os provérbios, as fábulas, os contos e os mitos de cada cultura local, e, por isso, o valor que a conservação dos crioulos e da línguas nativas deve merecer, tanto mais que, nalguns casos (o primeiro terá ocorrido em Cabo Verde, desde o ciclo da revista Claridade,) essas ínguas nativas deram origem a uma literatura bem caracterizada dos pontos de vista étnico, cultural e linguístico.

Em resultado das novas tecnologias e da globalização económica, as línguas dos países pobres correm perigos, mas só morrem se quisermos. A Grécia era um país pequeno e de algum modo pobre, mas o seu espírito manteve-se, determinou a arte e o pensamento filosófico, e foi capaz de, com modificações, voltar a ser uma língua viva. O mesmo se dirá do hebraico que, perdido na Diáspora judaica, voltou a reviver na forma actual da língua ivrit.

Estes fenómenos de perduração linguística não nascem a partir de cima, da autoridade, nem dos governos, nem dos poderes; nascem do povo. Se um povo persistir na sua língua, os poderes têm de seguir o povo. Darão a necessária ajuda à política da Língua, mas não decidirão do seu curso, contra o falar do povo.

Não obstante, no quadro institucional, há que reter a função determinante das Religiões e, no caso português, dos ramos cristãos, com realce para o da Igreja Católica. Em religião, os fiéis podem ser analfabetos e iletrados, mas têm o privilégio de ouvir e de escutar a Palavra. Daqui, a importância da unidade textual nas versões da Bíblia e, sobretudo, na unidade dos textos de culto ou da Liturgia, sobretudo da liturgia dos Sacramentos. É devido o reconhecimento do facto de os povos lusófonos terem a Igreja em língua portuguesa, de onde a unidade da língua litúrgica. Cientes do fenómeno, as hierarquias constituíram a Conferência Episcopal dos Povos Lusófonos, destinada a manter a unidade de culto e da língua na prática religiosa. Este sentido de comunhão das Igrejas lusófonas acha equivalentes noutros ramos de igreja particulares, de raiz cristã, embora minoritárias, sobretudo as de origem brasileira, ou afro-brasileira, que são muitas, e diversíssimas. Hoje, como ontem, a Religião continua sendo veículo privilegiado da manutenção e difusão de qualquer língua, porque a Religião está no meio do povo. É povo, quer dizer, ecclesia. E, todavia, ela não obsta à persistência das línguas nativas, como provam as celebrações e os catecismos existentes nesses nativismos.

Para gozar a sua língua, o povo não deve pôr-se na dependência dos poderes, deve, bem pelo contrário, seguir o seu curso, como o rio, que atravessa montes e vales e que, se necessário, arrastará os obstáculos que se lhe deparem. Contudo, a lusofonia tem de ser aberta, não oclusa. Neste sentido é nossa tese que: aceite a Língua Portuguesa como bandeira perante as nações, como fala do geral das greis, como palavra da lei e da comunicação dos povos, devem estes proteger, pelo ensino e pela tradição, as respectivas línguas nativas. A lição do amor universal e do amor do particular está ensinada, desde há muito, nas artes de amar as pátrias, artes essas devidas, no nosso tempo, a Teixeira de Pascoaes, a Fernando Pessoa, a Álvaro Ribeiro, a Jaime Cortesão e a Agostinho da Silva, entre outros. Para singrar, basta que a lusofonia avance no mar da vida como barca em demanda do oculto. (3)

J. Pinharanda Gomes

____________________________________
(3) Acerca da cultura e da língua nesta e noutras perspectivas, cf. o nosso Meditações Lusíadas, Lisboa, Fundação Lusíada, 2003, 300 pp.

Etiquetas: , , ,


2004/06/15

APÊNDICE Cultura e Lusofonia (II) 

(continuação)

Prof. J. Pinharanda Gomes

Cumpre evitar o dogmatismo na exegese cultural, importando compreender que ela é um corpo vivo e, portanto, mutável. Cultura requer prévia Filosofia. Na ordem matricial entende-se que não há uma cultura , mas culturas, e que, mesmo na unidade de culto, há diversidade de culturas, pluralismo. Uma só é a cabeça, diversos os órgãos de expressão e de acção. E
o corpo da acção requer uma alma de contemplação. Chave: a cultura está para a filosofia como a liturgia para a religião. Se a Pátria assenta numa cultura, licita é a forma de patriosofia, modelada por António Quadros, como procura do saber da Pátria.

A alma sensível de uma comunidade é a língua. Factores da economia ou da política são meras circunstâncias da vida da comunidade, cuja alma é a língua. O dito de Fernando Pessoa — "a minha pátria é a língua portuguesa" — até pode apassivar-se numa interpretação diferente da usual, a saber: Pessoa ganhou a vida, dispôs de uma economia pessoal suficiente, embora modesta, para fazer o que fez sem depender, nem de mecenatos, nem de subsídios estaduais, traduzindo da língua portuguesa para a inglesa, na actividade comercial. Se Portugal falasse inglês, Pessoa não teria vida baseada na língua portuguesa, pois o seu trabalho como tradutor seria desnecessário.

Claro que a economia condiciona a vida das línguas e das culturas, havendo até casos históricos consideráveis como anomalias. Sempre foi costume que os vendedores falassem a língua dos clientes, ainda hoje assim é — pobre do comerciante que não fala com o cliente na língua do cliente. O cliente não tem de falar a língua do comerciante... Ora, no ciclo da revolução industrial, a Inglaterra e os Estados Unidos deram tais largos passos em inovação de equipamentos industriais, não disponíveis em outras fontes de abastecimento, que os clientes tiveram de aprender a língua dos fornecedores, enquanto estes nada houveram de saber da língua dos clientes. E muito do mais importante comércio com os países da língua anglo-saxónica passou pelas mãos dos tradutores.

Idêntico fenómeno está vivo por causa das tecnologias de ponta e das informáticas, cujos programas são de matriz anglo-saxónica. Eis um testemunho pessoal: antes da II. Grande Guerra, uma pessoa que procurasse emprego num escritório comercial, era solicitado a saber ler, contar e escrever, em língua portuguesa. Após a II. Grande Guerra, os anúncios das empresas em busca de funcionários, já pediam conhecimentos de inglês e, por vezes, domínio da máquina de escrever, como Fernando Pessoa. Hoje em dia, as empresas requerem, não apenas a língua inglesa mas prática dos computadores, no mínimo do ponto de vista do utilizador. É óbvio que vale mais quem domine duas línguas do que quem domine apenas uma; e os factores económicos, que são condicionantes, podem levar as pessoas a dar mais valor à língua de trabalho do que à língua da cultura mátria. Todavia, importa manter as águas separadas tendo em vista que a comunidade de vivência dispõe de uma língua, e que é nessa língua que se faz comunidade.

Comunidade é universal de união, de comum união, de comunhão, e esta só na comunicação se realiza: a língua, elemento de comunicação é o traço da comum união. É falando que a gente se entende; e, por vezes, se desentende. Não precisamos de contraír o vírus da xenofobia, basta termos consciência da nossa língua original. Talvez nas relações económicas e políticas internacionais, algumas vezes tenhamos de abdicar do direito de falarmos como falamos, mas é sempre de elogiar quem assuma a sua língua. Elogio é devido, por exemplo, ao Presidente brasileiro Lula da Silva que, há meses atrás, em palavras algo rudimentares e porventura bruscas, afirmou: "quero é falar a língua dos 150 milhões dos meus compatriotas brasileiros, para eles me entenderem." Lula falava na ONU, em português...

Voltando às palavras de vida, recordamos o registo poético constante da Bíblia para levar os judeus à compreensão da origem dos nomes das coisas: "Então, o Senhor Deus, após ter formado da terra todos os animais dos campos e todos as aves dos céus, conduziu-os até junto do homem, a fim de verificar como ele os chamaria, para que todos os seres vivos fossem conhecidos pelos nomes que o homem lhes desse" (Gn., 2, 19).

Este registo poético é também noético, ou hermenêutico. Dele, os intérpretes extraíram as duas fundamentais ideias ou noções do saber acerca do existente: a ideia de obra da criação e a ideia de obra do carro. Em termos ontofenomenológicos quer dizer que um fenómeno é o acto de criar as coisas e os seres, e outro é o acto de os transportar, de os comunicar, a obra do carro. A obra do carro inere à humanidade. Se a criação inere à potência divina, o carro inere à potência humana: Deus criou, o homem nominou, e continua a nominar.

É o nome que serve de carro à coisa, ou ao ser, ou ao ente. A Linguística tem clara noção destas categorias, ao propor os conceitos de significante e de significado. Todavia, há lugar para a trilogia da realidade. Em primeiro lugar temos a coisa enquanto coisa, por ex., cadeira, esta coisa que palpamos e onde nos assentamos; em segundo lugar, a palavra cadeira, que exprime a cadeira, mesmo que ela, cadeira, não esteja aí, visível, todavia nós, a vendo na palavra, que a transporta, e no-la apresenta sob a forma de palavra; em terceiro lugar, a subjectividade da ideia ou imagem de cadeira, que cada um faz. Cadeira de palha, ou cadeira de ferro, ou cadeira palaciana. As imagens são infinitas. E até haverá quem não seja capaz de aceder à visão subjectiva da coisa, nem mesmo lendo ou ouvindo o carro que a transporta, a palavra.

Por aqui se situa a chamada ileteracia.

Distinguimos: analfabetismo é a ignorância das letras do alfabeto; ileteracia é a ignorância do significado das palavras, ou de algumas palavras, por desconhecimento das cousas, ou por falta de iniciação na disciplina.

Há ileteracia quando alguém não denomina a nomenclatura de uma disciplina, mas hoje em dia essa carência parece ter-se alargado, havendo estudos que provam que imensa multidão de pessoas, e aludimos ao caso português, não consegue interpretar nem explicar o que está a ler: lê, mas não entende. (2) Todavia, não tem dúvidas quando lê o jornal desportivo, porque imergiu nas nomenclaturas. Aliás, temos milhares de pessoas cuja única leitura é o jornal desportivo, com exclusão de qualquer outra, o que minimiza o horizonte cultural e comunicacional. O jornal A Bola foi decisivo na alfabetização de muita gente, e até nos Seminários, os alunos chamavam à A Bola, "suplemento bíblico". Só liam, por dever, a Bíblia e os manuais escolares e, claro, A Bola...

A ileteracia torna-se indesculpável quando estamos face ao vocabulário comum e corrente, mas torna-se desculpável quando somos postos face a um Vocabulário ou a sintagmas, ou a siglas, como que expressamente criadas para confundir, para formular uma nomenclatura esotérica e ocultista, só por alguns poucos dominável. Aludimos ao mundo das siglas, que tanto abundam no mundo, inacessíveis ao comum dos mortais: ONU, NATO, CEE, CE, UN, PALOP'S, etc., etc. Com a agravante de algumas dessas siglas serem literalmente transportas do inglês, sem respeito pela forma portuguesa (V. g: Nato vs Otan, UN vs NU, etc.). O comum das gentes, espaço vital da língua, não se entende com isso. Surge então a análise dita científica da ileteracia, clamando que os mortais não cedem aos conteúdos.

Importa dizer com toda a justa brusquidão: essa ileteracia é causada pelos agentes do poder, para terem mais poder.

O povo fica inerme.

(continua)
___________________________________
(2) OCDE, Education at a glance 2003, cit. in Correio da Manhã, n.º 8884, Lisboa, 17.09.03, p. 15.

Etiquetas: , ,


2004/06/14

APÊNDICE Cultura e Lusofonia(I) 

Prof. J. Pinharanda Gomes

O vocábulo Cultura é de matriz latina, sendo gramaticalmente nome equívoco ou homónimo, porque apresenta diversidade de acepções: cultus, tanto se predica do culto religioso, como do culto da terra, agricultura. Os mais antigos e autorizados dicionários houveram noção da equivocidade, e desde os primeiros registos que o nome cultura é antes de mais definido como arte de cultivar os campos (V.P.L., II., p. 636) e, em especifíssima acepção, como rosto de paideia, pelo que então se considera a metáfora em vez da literal definição: cultura do engenho, cultus animi ( V.P.L., id. id.) sendo de registar a definição que um Alcobacense dela nos deixou, ao apreender a palavra como sendo uma espécie de epistemologia, "cultura das ciências" (Monarquia Lusitana, Tomo 5, fl. 133).

Os gregos não possuíam uma palavra que cifrasse a ideia sem equívoco, mas, em contraste, dispunham de três acepções nominais: arêté como culto do espírito, paideia como orientação do espírito, e sofia como saber puro do espírito. A Ocidente, a palavra, excepcionalmente trabalhada, nas ordens nominal e conceptual pela filosofia germânica, em que a luta cultural, Kultarkampf, levou a ideia às raias das militâncias ideológicas, a pontos de haver quem sustente que o valor moderno da ideia de Cultura é de origem alemã, radicada nas iluministas "ciências do Espírito", Schleiermacher e Hegel. O nome é utilizado em dispares acepções, algumas de conveniência, para significar erudição, informação, movimento, comunidade de ideias e de crença, domínio de saberes e de técnicas de fazer; e tanto se diz, por extensão, de uma comunidade, como de um simples indivíduo. Na época seiscentista, chegou a dizer-se da poesia nova (cultista), porque ao "estrépito de vozes (poéticas) novas" se usou chamar cultura. No século XVIII, o primado da sagesse sobre a filosofia, elevando a Santa Sabedoria a predicado dos sábios (na língua francesa os termos sçavant e sagesse têm um eco bem diverso do ocorrente em Português) considerava cultura como o domínio da sabedoria, numa leitura quase monopolista e não relacional: a teoria do homem culto, de que António Sérgio nos legou definição: "Um dos caracteres do homem culto é o de saber viver numa alvorada eterna, mantendo, à força de curiosidade e estudo, o dom da admiração e o candor da infância". O adjectivo culto inere, não a quem sabe muito, ou sabe pouco, mas a quem vive e convive segundo ditames axiológicos: um erudito pode viver e conviver como inculto, e um inculto pode viver e conviver como culto, pelo que este adjectivo se predica de pessoas que, mesmo dispondo de fraca erudição, dispõe, no entanto, de boa educação. O saber convém à cultura, mas não lhe é absolutamente necessário, pois há relatividade de saber: um jurista sabe o significado das leis, mas pode ignorar os nomes das coisas e dos utensílios de uma actividade (agricultura, ou indústria).

O filosofo saberá o que significa silogismo, mas pode ignorar o que é um almude, ou um arrátel, ou uma ovelha. As crianças das escolas das grandes urbes sabem muito bem o que é um automóvel, ou um frigorifico; mas há muitas que nunca viram, nem sabem, o que seja um burro, ou de que planta se tiram os melões, mesmo que conheçam a palavra meloeiro mas, na presença deste, não o identificam, precisando de que lhe digam "isto é o meloeiro". Na cultura há tantos vectores culturais como as actividades, sendo lícito usar termos como cultura ecológica, económica, técnica, industrial, jurídica, religiosa, etc.

A diversidade e o pluralismo são ritmicamente e pragmaticamente unificados no paradigma que, em geral acepção, se denomina Cultura, síntese critico-epistemológica, por vezes empírica, das culturas e dos saberes.

Neste cenário, para aquém das ideias, temos um horizonte imediato, mais sensível ao empirismo comum, horizonte esse onde a língua vive: o espaço das palavras e das coisas, acerca do qual talvez seja útil reflectir um pouco.

Em português melhor se diria os "nomes das coisas", mas o termo copulativo entrou no país a partir do início do séc. XX, provindo da linguística alemã e da revista Worter und Sachen (Heidelberga) dirigida por R. Meringer, que fez escola, ainda que o método já fosse anterior, a D. Luís Salvador, Arquiduque de Áustria, se devendo uma obra sobre os costumes do povo maiorquino (1980) e haja quem situe a origem do método no Orbis Pictus (1657) de Coménio. Tudo isto anterior ao exercício estruturalista de Michel Foucault (As Palavras e as Coisas, trad. port., 1968). O início da prática portuguesa do método de história das coisas ou dos objectos remonta aos fins do séc. XIX quando, em 1898, Adolfo Coelho editou o estudo intitulado "O Arado e a Charrua". A escola interessa à Linguística, à Etnografia, à Ergologia, à Antropologia e, sem dúvida à Filosofia, pese embora o peculiar de esta ser uma prática de ideias e não de coisas mediante as palavras. Não obstante, sendo vocacionada para o saber total, a Filosofia, pelo menos no âmbito de várias disciplinas utensiliares, (Antropologia, Estética, Filologia, Religião, Cultura situada, Sociologia), há vantagem, já em dispor de um mínimo de iniciação na disciplina, já em levar a efeito exercícios práticos, de campo ou de laboratório (bestiários, erbários, lapidários).

As mutações sócio-culturais, se produzem novas coisas e novas palavras para essas novas coisas, também causam o olvido ou a morte de outras. As nomenclaturas antigas das artes de avaliar, medir e pesar; as designações dos símbolos monetários; os nomes de profissões que se perderam, tanto ao nível do trabalho como das dignidades institucionais, etc., etc. são património a conhecer, pelo investigador (mesmo empírico) sob pena de não aceder na perfeição à leitura de antigos textos, por isso a importância dos Dicionários de termos antigos, ou caídos em desuso. Além disso, nem sempre o conhecimento de uma palavra supõe o conhecimento da coisa que ele denomina; há, nas aldeias do interior, pessoas que nunca de lá saíram e nunca viram, digamos, um combóio; e nas cidades há gente que conhece a palavra javali, mas nunca viu tal; ou que já leu a palavra centeio, mas não faz ideia do que seja. Análogo valor têm as listagens de vocabulário exógeno a uma língua, mas nela fixado pelo uso, ainda fazendo escola os inventários hebraizante (Cardeal Saraiva, Moisés do Espírito Santo), arabizante (Fr. João de Sousa, J. Pedro Machado) e orientalizante ou africanizante, em que dispomos de múltiplas fontes. Embora o método da objectologia seja moderno, há-de ter-se em consideração que a Literatura Portuguesa é francamente precursora da literatura de viagens, apresentando à Europa, em primeira mão, notícias das coisas da China, da Índia, do Japão (tanto da descrição de viagens como em cartas de missionários) e do Brasil e dos Andes. É certo que os escritores dessas notícias não visam a análise palavra/coisa, mas encheram as línguas europeias de coisas (palavras) novas, com facilidade identificáveis em Dicionários e Elucidários, incluindo Onomásticos e Toponímicos. A leitura relacional da coisa à palavra com suporte científico achou inúmeros cultores, entre eles avultando o assombroso José Leite de Vasconcelos com a Etnografia Portuguesa, Rocha Peixoto, (os ensaios de Etnografia Portuguesa foram organizados para edição, 1990, por Flávio Gonçalves), Adolfo Coelho (a Obra Etnográfica, em 2 vols. Foi editada, 1993, por João Leal), Carolina M. de Vasconcelos, Conde de Ficalho, e muitos outros. Instituições como a Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia (Porto), como que se constituiu em "escola portuense de antropologia", na sua herança se considerando A. Santos Graça (O Poveiro, 1932, reed. 1992, com pref. de L. Coimbra) ou a Sociedade Martins Sarmento (Guimarães). No plano interno, em 1940, por instruções da Comissão dos Centenários da Fundação e da Restauração, com vista ao Congresso do Mundo Português, as Juntas Distritais levaram a efeito um Inquérito Etnográfico, aldeia por aldeia, de todo se ignorando onde param os frutos desse Império (pertencente a um particular, pudemos salvar o relativo a Quadrazais, um texto de grande amplitude e precisão elaborada com o povo pelos então professores primários da freguesia, e que publicámos em Memórias de Riba Côa e da Beira Serra, Vol. I, 1977, pp. 94-107). A escola objectológica achou bom acolhimento em Coimbra, sobretudo na obra inevitável de Manuel de Paiva Boléo, e de J. G. Herculano de Carvalho, e teve sequência, a principal das quais nas obras de J. G. Herculano de Carvalho e de Jorge Dias, iniciada com Os Arados Portugueses (1948). Este artigo pretende apenas sugerir caminhos de pesquisa e, por isso, indicamos breves e digitas pistas, que podem ser aplicadas a outros sectores da vida e da cultura, no campo e na cidade, omitindo o elenco da literatura de viagens, muito extensa. O Tratado das Significações das Plantas, Flores e Frutos que se referem na Sagrada Escritura (1622) de Fr. Isidro Barreira, vem sempre a preceito, e, muito mais tardio, A Botânica na Aldeia (1963) de Raul O. Feijão lê-se como novela. As técnicas foram objecto preferencial dos etnógrafos, sendo imitáveis os contributos de Sebastião Pessanha (Arrufadas de Coimbra, 1915; O Ferrado, O Picheiro e a Ferrada. Vasilhas por Ordenhar nas Aldeias do Alentejo e das Beiras, 1955; Pás de Moleiro, 1959); de Azinhal Abelho (A Aventura da Cortiça, Cancioneiro do Vinho Português, 1978; Elogio da Província, 1969), de Maria Helena N. de Morais (A Dobadoira, de 1958), de José Pedro Machado (Terminologia Naval, 1963), de Fausto Briosa (Glossário Ilustrado de Mecanização Agrícola, 1984, trilingue, que marca a mudança da antiga para a moderna técnica agrícola). Também o jogo e o prazer (Brincadeiras da Minha Meninice, Jogos de Infância nas Beiras, por vários Autores, 1999, ou, de Francisco Manso (Framar), Caçadas aos Javalis, com os termos cinegéticos. Na área da cultura religiosa é típico o Roteiro Lexical do Culto e Festas do Espírito Santo nos Açores, (1987) de M. Breda Simões. Associando a festa e a gastronomia, é cativante a obra da Maria de Lurdes Modesto, que, além de cozinheira, é uma alta sensibilidade cultural, Festas do Povo Português (1999) de colaboração com Afonso Praça e Nuno Calvet. É possível elaborar tantos estudos quantas as actividades humanas, incluindo a tipografia (Dicionário do Livro, de Maria Isabel Faria e Maria da Graça Pericão, 198), e as situações económicas locais, sociais e religiosas, neste último aspecto sendo de anotar que muitos fiéis ignoram os nomes das alfaias e dos paramentos de culto. Parece que, ou pela origem social dos autores, ou por qualquer outro motivo, tem sido dada preferência a temas rurais, embora as cidades precisem de análogos exercícios. De resto, quanto a nomenclaturas do mundo rural, a nossa literatura é vastíssima, obras de Camilo, de Aquilino, de Thomaz de Figueiredo, de Leal Freire, de Paulo Leitão Batista, abundando em regionalismos e tópicos lexicográficos. É, de resto, possível criar obra literária só com nomes de coisas, vidé a quadra popular ribacudana — "É rico quem tem carvalhos/ Pois dá por ano quatro frutos/ bugalhas e bugalhos/ bolotas e maçacucos". Ou no poema relativo à cultura saloia, de que registamos uma quadra: "O alqueive, o cabedudo/ o rego d'água, o coalho/ O indez e o cuiço/ a cilha e o chocalho" (Celestino Costa, Filosofia Saloia, p. 31).(1)

Por aqui se ergue a díade cultura formal e cultura material, ao modo de como se considera o binário escola material/escola formal: o quanto e o como. Há uma acultura (sem cultura), uma cultura (com) e uma incultura (contra), sendo estas posições expressas nos contextos sócio-evolutivo e ambientais. Antinomias são possíveis: a cultura contra a natura, e vice-versa. A leitura materialista prefere que a cultura não é um modo de ser, nem de pensar, mas apenas um modo de estar, como se, na despersonalização da alma humana, o estar não solicitasse o pensar. É curioso o facto de a expressão "cultura portuguesa" ser repetidamente utilizada como forma de protesto contra a "filosofia" e contra a "filosofia portuguesa", escamoteando a realeza de que a cultura é um pensamento pensado, estabelecido, funcional, que deriva da admiração e da pesquisa, predicados próprios do espírito filosófico, por ser impossível haver cultura sem prévia filosofia, salvo se a comunidade nacional se houver demitido do pensar por conta própria, e optar por viver apenas em função do pensar dos outros, alógenos ou exógenos, numa vivência mentecapta. Com efeito, constituída em estrutura existencial, dinâmica e operativa, a cultura é um acto vital, um acto de inteligência, o fruto do conhecimento intelectivo e empírico, o de como se conhece, e para que se conhece: o universo dos princípios, dos meios dos fins do saber e do viver. Ela processa-se num quadro de valores sujeitos a modificações, a flutuações e a transcensões. É tão interior à comunidade que esta parece não dispor de poder sobre a cultura, sendo ela o caminho, e o actor da interpretação das funções de uma Cultura face a outra, sobretudo nos casos de transmissão. Exemplo continua sendo, pese embora a quem discorda, a dinâmica de aculturação e de incultação decorrente dos Descobrimentos. Houve lugar para a portugalização e, na recíproca, ligar para a orientalização, e para outras mais reciprocidades transaccionais, sobretudo na sectorial relativa ao diálogo Cultura/Religião. Não há cultura sem culto, seja este ordenado à transcendência, ou à imanência, porque há sempre Deus, ainda que este nos seja dado sob o nome de um qualquer ídolo, idealismo, ideologia ou finalismo.

(continua)
______________________________________
(1) Bib: Os títulos citados são meras sugestões, na experiência pessoal do quotidiano, mesmo sem recurso a livros, cada pessoa podendo elaborar um exercício. Todavia, indicam-se algumas fontes: Durval P. de Lima, Bibliografia Corográfica Portuguesa, Lxª, 7 vols., 1962-1975; Benjamim Enes Pereira, Bibliografia Analítica de Etnografia Portuguesa, Lxª, 1965: P. Gomes, Práticas de Etnografia, Guarda, 1968; M. de Paiva Boléo, Lista das Teses de Licenciatura em Linguística Portuguesa desde 1942 até 1971, Coimbra, 1971. [São fontes recursivas, publicações como o Mensário das Casas do Povo(1946-1971), a Revista de Portugal (de Álvaro Pinto), as publicações culturais de diversas autarquias, e as monografias de localidades].

Etiquetas: , , ,


II Congresso Nacionalista Português 

Como "Apêndice" à comunicação "O Pensamento Nacionalista do Séc. XX", fez o Prof. J, Pinharanda Gomes o favor de enviar-nos o seu trabalho "Cultura e Lusofonia" que nos sentimos muito honrados em publicar também.





A.C.R.

Etiquetas: , ,


2004/06/12

O PENSAMENTO NACIONALISTA NO SÉCULO XX (V) 

(continuação)

J. Pinharanda Gomes
O Nacionalismo não é um pecado. É um ponto de partida no real da vida. A Conferência Episcopal Portuguesa, no documento intitulado "Responsabilidade solidária pelo Bem Comum" (2003), a par dos sete pecados sociais, endereça aos fiéis e ao Povo, a tabuada dos "sete sinais de Esperança". O segundo sinal indica ser necessária a tomada de consciência da sociedade como comunidade cultural; o sexto sinal aconselha à busca da nova identidade portuguesa, aberta a outros valores e culturas.

Amar o outro como a mim mesmo. Amo o que sou, logo amarei o outro como se fosse eu. Auto estima, filáucia, amor da grei, consciência da Nação de que sou membro. Ser um próprio em diálogo com o outro. Numa Europa que procede à dissolução das Nações, no mundo há sinais de surgência de neo-nacionalismo, o das pequenas nações que querem conviver umas com as outras, mas recusam ser dissolvidas.

O modelo nacionalista português deu provas de que, no decurso das épocas e dos lugares, nunca se mostrou fechado, nem exclusivista, nem monolitista. Pelo contrário, foi de abertura ao mundo e às gentes, pluralista e, ainda mais, braço do Ecumenismo.

Importa que o neo-nacionalismo não devenha uma seita, mas se afirme como porta aberta. É neste suposto que, a nosso ver, o Nacionalismo vencerá se, em vez de se encerrar em si mesmo, formar gente que actue como fermento em todos os Partidos, sejam eles quais forem, até com direito de tendência. Ou seja: o Nacionalismo deve recusar ser Partido; deve educar para fermento suprapartidário.

-Fim-


J. Pinharanda Gomes

Etiquetas: , ,


2004/06/11

O PENSAMENTO NACIONALISTA NO SÉCULO XX (IV) 

(continuação)

J. Pinharanda Gomes
O entendimento do Nacionalismo em geral beneficia da consideração do caso português.

A tensão Tradição/Revolução, que levou aos rigores tradicionalistas do Romantismo com vista a equilibrar os radicalismos inovacionistas, tem transmitido o falso preconceito de que ela só ocorre no âmbito da Política. Embora essa tensão seja muito mais abrangente, é um facto que a Revolução Francesa operou inusitados graus de ruptura, desde logo pela quase violenta absorção das nações que constituíram o estado francês e pela inacreditável perseguição democrática às línguas e culturas das "pequenas pátrias" (Provença, Aquitânia, e Languedoque) — o status societário alterou-se e contaminou toda a Europa e o Novo Mundo, nas ordens políticas, religiosa, cultural e social. Os emblemas antigos motivantes da acção comunitária (cifras, brasões, legendas, dilemas e signos) deram lugar a outros, em que sobressaiu a trilogia Liberdade / Igualdade / Fraternidade, ou, mais tarde, a unidade do proletariado internacional, ou a reorganização positivista da sociedade no signo da Ordem e Progresso. No caso português a tensão, a princípio frágil, sobe de tom após as reformas de 1820 e de 1834, sobretudo a partir da Nobreza e do Clero, surgindo uma ideologia radicalmente tradicionalista de carácter contra-revolucionário, anti-liberal, decidida a manter a aliança do Trono e do Altar e as estruturas tradicionais das instituições históricas. Nos fins do século XIX, o nome Nacionalismo chegou a ser usado como expressão de Tradicionalismo, entendendo-se Nacionalismo como heterónimo de Tradição.

No que ao mais nítido enquadramento ideológico concerne, e definindo um quadro temporal situado entre 1890 e 1970, verifica-se que houve uma forte emergência nacionalista provocada pela causa impulsiva que foi o Ultimatum inglês de 1890, origem de uma reacção patriótica e nacionalista, que se exprimiu em simbologias literárias, artísticas, musicais (nessa reacção se situa a origem de A Portuguesa, o hino nacional desde logo adoptado) e políticas. A energia da reacção ajudou ao movimento que se exprimiu na pronúncia militar portuense, em 31 de Janeiro de 1891. A leitura dos escritos de Sampaio (Bruno) e de outros autores que reflectiram sobre o fenómeno, até de um ponto de vista jacobino, leva-nos a inferir que havia o sentimento popular (e decerto populista, o que desagradaria aos políticos de carreira...) (9) de o Estado não permitir à Nação que respirasse, que o Estado actuasse afogando a Nação; e a inferir ainda a ideia de que o Estado não podia ceder um milésimo da integridade nacional, que abrangia as Províncias do Ultramar, ainda que Bruno admitisse, por uma questão utilitarista, que talvez se pudesse abandonar o Oriente para nos fortalecermos em África. A República, sonhada como " Ilha Incógnita" não foi causa inicial; foi apenas um corolário do motim que o Ultimatum gerara no nacionalismo português. Queria-se uma renascença da Pátria. É neste contexto que Nacionalismo veio a ser termo escolhido para identificar a união católica-legitimista, qual a peculiar ao Partido Nacionalista de Jacinto Cândido, de Conde de Bertiandos, e de tanta gente ilustre dos fins do século XIX, que se viu algemada e silenciada após Outubro de 1910. A assunção do Nacionalismo republicano era inevitável, através de graves deficiências culturais e doutrinais, uma vez que não houvera uma revolução popular, mas apenas um motim militar, a que os meios urbanos aderiram, face à maioria do povo, que de todo ignorava o que a República pudesse ser.

O movimento intitulado "Renascença Portuguesa", que juntou intelectuais de vários quadrantes, teve como propósito recuperar a natureza e os valores da Pátria, elaborando uma espécie de neo-Romantismo, destinado a educar o Povo para a vida comum dentro do projecto da Nação. A revista A Águia (1912) e as doutrinas de Teixeira de Pascoaes, sobretudo as relativas ao Saudosismo, foram primaveras de iniciação pátria, ainda quando o Saudosismo veio a ser alvo das acusações de nostalgismo e de passadismo. Na teoria de Pascoaes, o Saudosismo é uma dinâmica futurante. Houve duas "Renascença" — a do Porto, poética e activa, e a de Lisboa, política, dominada pela partidocracia, que pouco ou nada produziu, embora reconhecesse que o movimento sito no Porto era mais actuante e vivo. As fissuras já patentes na origem vieram a materializar-se em correntes de pensamento, em geral dependentes de personalidades: Pascoaes, António Sérgio, Raul Proença... Sérgio enunciou uma sistemática unitiva, e compreendeu que, para além da intencionalidade partidária, melhor seria formular uma plataforma de convergência, com os integralistas. De facto, radicada no movimento renascentista, surgiu a revista Seara Nova (1921) que se distanciava de A Águia, e punha a tónica no primado da Política, de onde o dizer-se que também o seareirismo foi ferido de maurrasismo. Por outro lado, os monárquicos, elucidados por outra personalidade do tempo histórico, António Sardinha, corporizaram, depois de outras eventuais tentativas, o movimento do Integralismo Lusitano. A Sérgio e a Sardinha se ficou a dever o conceito de união cívica (outro modo de dizer união nacional, termo criado por Salazar) doutrinada nas páginas da revista Homens Livres, de curta duração: Sardinha e Sérgio eram prudentes quanto ao primado da Revolução, todavia, enquanto Sardinha admitia o progresso na tradição, Sérgio punha a tónica na renovação, e não conseguiram entender-se, por causa da questão do Regime: para Sérgio, importava prosseguir com o Regime que aí estava; para Sardinha, só a reimplantação da Monarquia era satisfatória.

Com excepção dos movimentos inspirados no Marxismo (melhor dito: do Sovietismo, sobretudo de Álvaro Cunhal, consagrado militante soviético) todas as iniciativas políticas atenderam ao critério nacionalista, a começar pela União Nacional. A instauração desta no poder levou a outras aparições, entre elas a da "Renovação Democrática" (Álvaro Ribeiro, Pedro Veiga, José Marinho, Delfim Santos, Domingos Monteiro) que se propunha ressuscitar o ideário da "Renascença Portuguesa" e a disciplina da educação pátria, colocando a reforma educativa antes acção política. Mal vista pelo sector do poder e pelos seareiros, a "Renovação Democrática" visava mais o serviço do que o poder, o que bem a distanciava da Seara Nova que, no âmbito da II Guerra Mundial, fez uma grande deriva, fugindo das mãos de Sérgio e funcionando, na prática, como promotora do Socialismo. Foi ainda na sequência que, desorganizado o Integralismo, uma nova geração (Carlos Amado, H. Barrilaro Ruas e outros) fundou a Cidade Nova, destinada a promover a reflexão da Filosofia Política no quadro de convergência do Cristianismo, do Monarquismo e do Personalismo.

O mais reflexivo momento acerca da Pátria e da Nação surgiu, contudo, e ainda na sequência da linha de pensamento regenerador "Renascença Portuguesa". — "Renovação Democrática", no movimento conhecido por "Filosofia Portuguesa". Assente no primado da Filosofia, como necessário fundamento da Política, o movimento tomou como próximo ponto de referência o magistério de Álvaro Ribeiro e, através dele, as doutrinas renascentistas de Leonardo Coimbra e de Pascoaes, não excluindo os contributos monarquistas e outros, dado que o movimento se não considerava arauto de qualquer organização político-ideológica. A presença magistral de Álvaro Ribeiro influenciou toda uma geração de estudantes que, em 1957, se revelaram ao público, mediante publicações de reflexão filosófica, em que avultou o jornal 57 — Movimento de Cultura Portuguesa, dirigido por António Quadros, e escrito por um rol de pensadores que lograram fixar seu nome na história do pensamento filosófico português contemporâneo.(10)

Assumindo a Nação como sítio existencial de um pensamento situado, a ideia de Nação/Pátria tornou-se um teorema demonstrável, requerendo ser pensado e analisado segundo as categorias e os categoremas da razão, de onde se haver formulada a escada ascendente (Filosofia para a Educação e Educação para a Política) cônscia da singularidade do Povo português na sua expressão cultural, histórica e espiritual.

Nem todos os pensadores do movimento exprimiram uma ostensiva preocupação com a Política (considerada, não ciência, mas arte), mas a consciência nacional aparece no cerne das obras de todos eles. Dos mais atentos à problemática política, citamos Alexandre Coelho, dominado já por alguma perspectiva decadentista; Fernando Sylvan, timorense, sacerdote da missão de uma Comunidade Lusíada; António Quadros, porventura o mais actualista de todos, sempre atento aos fenómenos em presença. No contexto releva a obra de Orlando Vitorino, cuja filosofia da História Pátria o compeliu à redacção de um singularíssimo documento jurídico estruturante, a "Constituição para Portugal", anexa ao ensaio intitulado Exaltação da Filosofia Derrotada (1983), constituição essa suportada pelos conceitos fundamentais de Justiça/Liberdade/Verdade.

O movimento entendeu demarcar-se desde logo dos poderes instituídos, tendo actuado no plano da marginalidade cultural, ainda que a sua influência viesse a registar-se nas novas gerações, mais atentas à ideia de amor da Pátria, ou Patriosofia, (um nome criado por António Quadros). São herdeiros desta corrente de pensamento os escritores organizados em publicações como as revistas Leonardo (1988), Teoremas de Filosofia (2000) e Lusophia, por exemplo, atentas aos valores da espiritualidade, da cultura, da tradição e da evolução perfectiva. O grau de influência nos grupos que tomaram o poder após 1970 foi nulo. Um positivista metafísico como Amorim de Carvalho, de todo desafecto à nova ordem, não acedeu a partilhar do optimismo lusíada próprio do movimento, exprimindo a sua visão catastrófica num livro de grande sentimento. O Fim Histórico de Portugal (1977), que foi o seu grito de revolta, perante a instauração da Partidocracia contra a Pátria. É imoral não reconhecer que se instalou no País a onda da opinião, do discurso demagógico, incapaz de assumir uma tese, um discurso de falácia, em que os oradores, não sendo pensadores, se tornam imerecedores de crédito.

Ao nível da mais alta magistratura nacional, após a prudência militar, auxiliada por fraca iniciação especulativa, sucederam-se as magistraturas civis do tipo coloquial, em textos disformes e por vezes dementes, não cuidando de pensar o que se diz, e juntando lenha para autofogueira.

Vem a eito mencionar a repetida preocupação de um Presidente da República com a honestidade dos políticos. Mencionemos tal preocupação, no suposto de que os políticos eleitos, fiquem no Governo ou na Oposição, constituem o melhor do Estado, a aristocracia em que o povo delega o poder . Ora, em tempo, esse Presidente achou necessário declarar que não se pode pensar que os políticos são todos uns malandros que têm de fazer prova de serem gente de bem; mas que devemos pensar que são todos gente de bem, e, caso sejam malandros, se prove. Mais tarde, veio a declarar que "a Política não é uma ovelha negra."(11) Ora, ninguém, ao que conste, diz que a Política é uma ovelha negra (com o devido respeito pela ovelha, que é doce, útil e honesta), pelo que, no dito presidencial, intuímos que ele queria dizer não Política, mas "os políticos". A sucessão declaratória leva a inferir que no pensamento presidencial há veios de dúvida acerca da seriedade e da bondade dos políticos? Nesse caso, seria melhor eleger os políticos partindo do princípio de que são uns "malandros", desafiando-os à prova de que são gente de bem?

(continua)
______________________________

(9) Os políticos de carreira, através dos oficiosos comentadores políticos, usam o nome populismo e o adjectivo populista em acepção insultuosa. Quando um cidadão escreve a um jornal (Correio da Manhã, 22.11.03, p. 18) a solicitar que as emissoras de televisão convidem para debates "gente do povo para deixarem os políticos a gaguejar", os comentadores oficiosos chamam a este pedido, populismo. O mesmo quando alguém critica os projectos de aumento da classe política, criando um Senado, quer dizer, mais gente para "comedor do povo". Entendemos que, para os políticos de carreira, é populismo toda a palavra que sugira o desejo de lhes "abanar o tacho". Todo o cão rosna...
(10) Cf. P. Gomes, Dicionário de Filosofia Portuguesa, Lisboa, D. Quixote, 1987.
(11) Correio da Manhã, 25.1.04, p. 22, transcrevendo do Jornal Público. Em outro coloquial arrazoado, e contra as opiniões que consideram os políticos uns "bandalhos", afirmou que tal opinião tinha "perpassado do salazarismo". Claro que, em 1872, quando Eça escrevia que "a política é uma ocupação de ociosos, a ciência dos ignorantes e a riqueza dos pobres" já o Salazarismo estaria em vigor?

Etiquetas: , , , ,


2004/06/10

O PENSAMENTO NACIONALISTA NO SÉCULO XX (III) 

(continuação)

J. Pinharanda Gomes
A mítica aparece aqui dinâmica. O desafio à acção. Dos pensadores proferimos um confesso heterodoxo:

Há muito que Vítor Manuel Adrião é merecedor de um olhar considerativo da sua profissão ascética na arte de pensar Portugal. Ai do País que não acha quem o pense, sobretudo quando muitos não o pensam mas vivem dele, às suas custas, sem lhe pagarem em géneros, ou compensarem em moeda. Está dito que os portugueses não gostam de Portugal, mas tal dito nem dispõe de universalidade, nem de carácter absoluto. Envolve apenas parciais premissas: alguns portugueses não gostam de Portugal, mas vivem às suas custas.

Parece ter havido quem, falando pelos sentidos, no tórrido cenário dos incêndios que empobreceram o País, chorasse baba e ranho; mas, quando se chegou ao momento de tirar do bolso uns patacos para ajuda dos povos e das vítimas, não se constou fosse o que fosse. Como no prólogo da peça de Camus: "Nada, Nada.".

Sem antepormos tese, e limitando a assunção ao domínio da hipótese, é licita a dúvida questionante: se, após a destruição da integridade territorial (preceito de fundo em todos os movimentos de cariz patriótico) esta onda dos incêndios não poderá constituir uma outra fase da destruição: destruído o continente, destrói-se agora o conteúdo.

A anódina expressão "este País", usada por alguns sectores políticos, serve para desidentificar Portugal. "Este País" serve a todos, e, como tal, não serve a nenhum. Diz-se de todos, de modo que, destruindo Portugal, sempre poderão formular: Portugal, não; este País.

Enquanto uns destroem, outros, na modéstia do silêncio, na discrição do labor, na isolada meditação, procuram construir. Não são, nem deputados, nem comedores do povo, nem proclamados combatentes da liberdade. São pessoas, que, para além da jurídica cidadania, se estruturam em ordem ao amor da Pátria. E nem estamos aí perante nacionalismos ou xenofobias. O patriotismo é o acto de consciência do que é próprio: se eu não gostar do que me é próprio, quem gostará?

Portugalidade é o nome de categoria universal que identifica o próprio Portugal. Hoje em dia o termo não é unívoco, antes parece equívoco, mas quando esse termo foi moldado por António Sardinha, face à hegemonia da hispanidade, era bem unívoco: designava o peculiar à acção portuguesa na história do mundo. O que foi, e é, seu carácter singular, comparado com o que foi, ou é, carácter geral de todos os povos.

A equivocidade do termo dá margem à existência de vários conceitos de portugalidade, incluindo o conceito negativo, o de não-portugalidade, expresso de modo ostensivo na linha dos internacionalismos alienantes, mais preocupados em cuidar do que têm a receber, do que com o que têm a dar. O modelo está aí presente: Europa tem vindo a significar mais o que alguns desejam e esperam receber, do que quanto desejam e esperam dar. O egoísmo concentracionário raro fere o patriotismo, mas fere de morte a pureza do internacionalismo.

Portugalidade tem vários caminhos de expressão: a poesia lírica e épica, a hermenêutica da nossa antropologia cultural, a pesquisa do pensamento que a si mesmo se pensa, de modo que, antes de passar à acção, saiba porquê e para quê, e seja capaz de viajar da filosofia para a educação e, só depois, para a política.

Portugalidade tem sido mais atendida na historiografia, por vezes sujeita ao risco da apologética inconsistente, adequada aos discursos para meninos e oradores dos comícios partidários. Não é o caso da corrente especulativa e teorética que, nas suas variantes, podemos situar no pensamento que decorre da Renascença Portuguesa e, por vezes em dialéctica de antíteses, no Integralismo Lusitano, na Seara Nova (1ª fase), na Filosofia Portuguesa, e nos autores de fundo magistral: Pascoaes, Sardinha, Cortesão, Álvaro Ribeiro, Pessoa e, sem dúvida Agostinho da Silva. Alguns deles, mais atentos à cadeia dos actos históricos do que dos símbolos paradigmáticos, para os quais António Telmo tem concitado a nossa atenção, que precisa de ser muito atenta, porque o símbolo mais esconde (ao que se julga) do que revela.

O que parece um prólogo ao livro Introdução à Portugalidade de Vítor Adrião, é, não um prólogo, mas uma leitura que deste seu livro fazemos. Ele propõe-nos outro modo de iniciação: — põe-se a história político-social no seu justo lugar; remete-se a economia para a dispensa, que é também o seu justo lugar, e caminha-se no bosque sagrado dos arquétipos, dos mitos, das alegorias e dos símbolos. De onde irrompe uma ideia de portugalidade sacra, antevista por um refractor prismático de natureza teúrgica. Vítor Adrião, autor de uma obra bem digna de leitura (prova dessa dignidade é a ocultação a que tem sido sujeita, porque os poderosos não têm literacia) já nos interpela com a polémica História Oculta de Portugal (S. Paulo, Brasil, 2000) destinada a demonstrar o oculto. De facto, o óbvio não carece de ser demonstrado.

Introdução à Portugalidade há-de ser uma leitura incómoda. Uma leitura de retorsio, assim no género de Tertuliano: o que julgamos certo é inexacto; o que temos por verdade é mentira; e, enfim, o que dizemos mentira pode ser a verdade. É-nos preciso invocar agora essa extraordinária filosofia da nossa história, A Coerência das Incertezas, de Paulo Mercadante, mas o contexto de Adrião tem outro grau de perturbante desafio. Tudo é oculto para quem ignora e, no relativo a Portugal, ele parece não se apresentar, antes se ocultando, porque o não sabemos ler. Retomando uma linha ontopneumatológica, que passa pelo Templarismo, pelos Espirituais, pelo Henriquismo, numa axialidade referida a Pessoa, Adrião prova que os deuses não morreram; o que morreu foi a nossa visão deles. Eles subsistem para além da nossa cegueira e da nossa ignorância. Únicas causas de, por isso, a Portugal ser possível entregar-se nas mãos de quem lhe chama, apenas "este País". Uma introdução que suscita polémica e gera antíteses. Portanto: dinâmica e renovadora, até onde pareça febril.(8)

(continua)
______________________________
(8) V. M. Adrião, Introdução à Portugalidade. Cascais, 2002. Rec. crit. In O Diabo, n.º 1396, Lisboa, 30.09.03, p. 21.

Etiquetas: , ,


2004/06/08

O PENSAMENTO NACIONALISTA NO SÉCULO XX (II) 

(continuação)

J. Pinharanda Gomes
Mantendo a inicial e iniciática definição, Nacionalismo é escola, muito mais do que elenco de opiniões. Os prolegómenos já enunciados e explicados atestam um sistema de ideias e de valores, muito mais do que um simples projecto programático de cariz eventual. Assume a realidade das ideias lei e grei (pola ley e pola grey), requer um pensamento organizante e organizado, um quadro universal de valores, e um ideal de vida, a causa final, isso para que uma Nação existe e/ou tem de existir: o para quê de ser ela mesma. Nacionalismo, nesta luz de critério, transcende a assistematidade afectiva do primado da vontade, ou de mero esboço de ideal, como desejo, sem acto dinâmico e realizador. A sistematidade nacional tanto se cumpre na plenitude de um Estado que compreenda rigorosamente uma Nação, como na deficiência de algum elemento. Com efeito, ou sem ele, à Nação pode faltar território, como ocorreu durante séculos com os Judeus, ou como ocorre ainda com a Nação cigana.

Pode faltar um Estado próprio. Temos aí os casos das nações hispânicas (Galiza, Catalunha, por exemplo), que são reais nações com todas as componentes, embora hajam de se abrigar noutra realidade jurídica, o Estado da Monarquia Espanhola, que alberga várias nações, enquanto, no caso português, que durante séculos enquadrou múltiplas raças, línguas e nações, ela foi obrigada, a partir de dentro, a uma implosão, resumindo-se à uníade da monadologia europeia. Há, na Europa, todavia, nações que não têm estado próprio, sendo típicas as nações das Gálias, unificadas e como que suprimidas, pelos centralismos parisienses, tanto pelo democratismo da Revolução Francesa como pelo Imperialismo napoleónico, que chegaram ao ponto de proscrever as línguas nacionais, entre elas o clássico langue d'oc, mátria da Literatura neo-românica, em favor da língua parisiense.(4)

Convém introduzir algumas distinções. Uma delas relativa a um conceito moderno, produto híbrido de nacionalismo+totalitarismo, na forma nacionalitarismo, que, sem que o diga, constituí, na realidade, a hegemonia do Estado sobre as nações que nele se abriguem. Outro conceito é o de internacionalismo. Muitas e repetidas vezes se assume internacionalismo como contrário de nacionalismo e, até, de anti-Nação. Ora, no rigor dos conceitos, internacionalismo é o sistema ou estado de relacionamento entre nações. Só há internacionalismo se houver nações que o constituam. Sabemos todos, como é obvio, o prejuízo causado à ideia pelo internacionalismo ideológico das seitas socialistas, e de modo especial pelo sovietismo, ao preconizar uma nação transnacional, a do Proletariado, obediente a outra finalidade já desvinculada de cada uma das tradições nacionais. No fundo da questão, este internacionalismo não é tal, uma vez que aposta na dissolução das nações, para constituir uma única. Confunde-se com globalismo que, sendo dominável por potências poderosas, afectará a onticidade existencial e jurídica das nações menos poderosas, obrigadas à alienação dos seus valores, sujeitando-se às que lhes são alheias.

Nacionalismo constitui uma forma, um continente, passível de conteúdo. Ele admite todas e quaisquer tipologias políticas, porque se estas propõem regras económicas e sociais, o Nacionalismo não contém em si mesmo qualquer forma de governo. Fundamento e firmamento, ele pode ser assumido em variados contextos. O Nacionalismo pode conter a Monarquia, ou a Aristocracia, ou a Democracia, e, até, os socialismos totalitários, como se verificou na União Soviética e na Alemanha, ou em Cuba, por exemplo. Sistema de referência axiológica, não é um sistema político. Potencia sistemas políticos enquanto forma, mas deles não se constitui matéria, nem programa.

Em boa verdade, o Nacionalismo é superpartidário. É uma escola abrangente, um movimento de ideias paradigmáticas, capaz de, na obediência ao essencial, permitir a realização de patamares organizativos, desde que estes garantam os fundamentais privilégios da liberdade de consciência e da equipolência de alternativas. Jamais se isola. É uma porta aberta, mas ciosa da sua propriedade, ou do que é próprio de seu.

+++


Cabe agora reflectir, nem que de modo breve, sobre o caso do próprio português, dito Portugalidade. António Sardinha cunhou o vocábulo, para o contrastar com a mais potenciada ideia de Hispanidade, que tende, não a manter a portugalidade, mas a dissolvê-la no centralismo castelhano. Porém, se no pensamento de Sardinha a ideia se reveste de maior significação antropológico-cultural(5), é no discurso mítico de Fernando Pessoa que a ideia de Nação ganha o relevo de mistério: "As nações todas são mistérios./ Cada uma é todo o mundo a sós" (6). Dizendo em molde poético-profético, Pessoa aproxima-se, ainda que o ignorasse, da tese tomista segundo a qual as pátrias são causas específicas, no providencialismo da história, para ajuda do trânsito humano no tempo e no mundo, o que tudo ainda remete para a historiologia agostiniana.

Os paradigmas de Mundo Novo, Quinto Império, de retorno ao absoluto, de reintegração ôntica, são característicos da nossa espiritualidade, considerados mitos febris pelos positivistas e estrangeiros, todavia sempre em ressurreição, em cada uma das novas gerações, em poetas e em pensadores. Damos aqui, por necessidade didáctica, dois exemplos, aliás motivados por alguma heterodoxia. Dos poetas, que poderíamos citar muitos mais (F. Palma Dias, S. Franclim, Rodrigo Emílio, José Valle de Figueiredo...) escolhemos Eduardo Aroso, no poemário "A Quinta Nau".

A quinta nau pode ser a nau perdida da frota de Vasco da Gama na viagem para a Índia? A História ensina que eram só três naus, mas a poesia tem liberdade para ampliar do facto para o mito e pressupor cinco.

É ainda certo que, descoberta a Índia física, após a qual, segundo alguns, os portugueses ficaram desempregados, outros assumiram que, achada a Índia real dos mapas, ainda falta achar a Índia ideal.

Este nome, Índia ideal , é muito dinâmico, supõe o projecto de para além da História, de subir da contingência para a essência, e do estado de imperfeição para a vida perfeita. Sonho embora, ai de nós se perdermos o dom do sonho, se esquecermos a ideia da Índia ideal, que pode traduzir-se por V Império, reino de Justiça e de Paz, depois do qual não haverá outro!

Se a História é a inteligência dos factos, se a Filosofia é a inteligência das ideias, a Poesia é a inteligência das imagens visíveis e invisíveis, de onde o seu necessário carácter profético, e de onde, na ordem da inteligência criativa, a Poesia ser superior à História.

Porque transcende da opacidade dos factos mortos para a transparência das imagens vivas. Raro se tem prestado o devido apreço à realidade de o melhor da História Portuguesa ser mostrado, não pelas interpretações, muitas vezes ideológicas e fraccionárias, da Historiografia, mas pela visão da Poesia.

O signo da inteligência poética da História, porventura modelada no poema épico de Luís de Camões, não ficou por aqui.

Ampliou-se e continuou-se, numa árvore de saber e de tradição, em que se constituem marcos as obras de Bandarra, de Garrett, de Teixeira de Pascoaes, de Corrêa d'Oliveira, de Mário Beirão, de Dalila P. da Costa, e, sem dúvida, do Fernando Pessoa da Mensagem.

Uma família espiritual, em que a ideia de Portugalidade substancia o discurso poético-histórico, com privilégio ao poético, na pesquisa ou na hermenêutica da pureza e do essencial.

Colocar esta família sobre a chancela de "Nacional-Saudosismo" é pouco, é nada. Ela embebe-se da ideia de Portugalidade, já não como simples sentimento do amor pátrio, mas como complexo entendimento das origens e dos fins últimos a que a História nos propõe, através dos erros e das falhas da humana capacidade para vencer as objecções do caminho pelo mundo.

Estas reflexões nascem da leitura de um poemário que ousamos situar na directa sequência de Bandarra e de Pessoa, outra arte de trovar e outra arte de transmitir mensagem: "A Quinta Nau", poemas de Eduardo Aroso (Gresfoz, Figueira da Foz, 2003), que se afirma voz da Pátria no retrato de um seu antepassado, o sapateiro Gonçalo de Trancoso (Bandarra):


Na mão
Tinha a sovela;
No coração
A trova mais bela.

Via ele o futuro incerto,
No labor a proteger os pés;
E o pensamento liberto,
Escrevendo de lés-a-lés.

Além de ser sapateiro,
Foi ele a voz de Deus,
Sentir de um povo inteiro:
Cristão, Árabe e Judeu.

Eis a verdade singela:
O único que nasceu
Para ir além da chinela.


Músico e Poeta, tem Aroso uma vantagem acrescida a Bandarra e a Pessoa , porque, dominando a técnica das pautas, não comete ele falhas de elocução e de modo de dizer. De onde resulta um conjunto de poemas de límpida forma, de oficinal estilo, de música ambiente. Cada poema é um filosofema, ou uma admonição, ou uma imagem audível. Elenco de poemas, no estilo, no jogo das formas e no ludismo das imagens, o recurso aos símbolos, a recuperação de tópicos clássicos, ele actualiza o melhor entendimento da teoria da Portugalidade à luz da intencionalidade profética. O destino comum veiculado através da imagem, cuja missão é mostrar e não demonstrar.

Para além de Pessoa, e do retrato que ele traçou do Rei Lavrador, plantador de naus e haver? Eduardo Aroso reconverte: Diniz já tinha a nau. Pelo menos a que surgiu nas brumas do sonho da sua consciência futurante. Eis a "Toada do Pinhal de Leiria", com a qual, e sem mais, assinalamos o secreto signo deste feixe de poemas de Eduardo Aroso, poeta em Coimbra para todas as partes do mundo a haver:

Antes do Pinhal de Leiria
Já o mar, o mar bramia.
Ninguém sabia aclamá-lo,
Só el-rei, el-rei sabia.

Antes do pinhal de Leiria
Já o amor, amor havia,
Quem sabia assim cantá-lo,
Só el-rei, el-rei sabia.

Nasceu o pinhal de Leiria,
Já uma nau, uma nau havia.
O que iria descobrir,
Só el-rei, el-rei sabia.

Cresceu o pinhal de Leiria,
Mas o vento já havia.
Dos moinhos do poema
Só el-rei, el-rei sabia.

Depois do pinhal de Leiria
De el-rei nome teria.
Lavrou bem nosso futuro.
O porquê ele sabia! (7)

(continua)
_________________________________
(4)Lemos num jornal que a R.D.P. se propõe um programa de formação linguística, para unificar pronúncias, de modo a evitar que o locutores do Norte digam o v por b, etc. Não é novo. O poeta e encenador António Pedro, quando, lá por volta de 1960, ensaiou a peça de F. Durrenmat, A Visita da Velha Senhora, interpretada por Amélia Rey Colaço, não permitiu a estreia enquanto os actores lisboetas não corrigissem a pronúncia do ditongo io (rio), pois é lisboeta a pronúncia iu (riu ...). Cf. Correio da Manhã, 2.2.2004, p.2, o artigo de Ferreira Fernandes.
(5)Demorada abordagem ao tema hispanidade/portugalidade pode ser aferida no nosso Meditações Lusíadas, Lisboa, 2001, pp. 9-74.
(5)F. Pessoa, Mensagem, I, quarto. Cf. André Coyné, Portugal é um ente..., Lisboa, Fund. Lusíada, 1999, notável interpretação da entidade nacional à luz de Fernando Pessoa.
(7)Eduardo Aroso. A Quinta Nau, Figueira da Foz, ed. Gresfoz, 2003. Rec. crítica in o Diabo, n.º 1480, Lisboa, 23.12.2003, p. 19

Etiquetas: , , , ,


O PENSAMENTO NACIONALISTA NO SÉCULO XX* (I) 

J. Pinharanda Gomes
Subir uma escada tem por efeito transitar de baixo para cima. De modo análogo, a exposição de uma ideia solicita que seja efectuada de baixo para cima, o que, na gramática lógica, quer dizer: do nome para a ideia, do mais evidente para o menos aparente. Nesta perspectiva, e considerando que o vocábulo (e por conseguinte a ideia) tem sofrido muitas contraversões no decurso da cultura europeia novecentista, a pontos de quase ter degenerado em tropo a evitar, importa começar do mais evidente para o mais essente, ou seja, convém viajar desde o significante para o(s) significado(s).

Enquanto significante, Nacionalismo deriva-se de Nação, definindo-se como o amor, o culto e a exaltação da Nação, múltiplas vezes esse amor e esse culto sendo apenas assumidos num critério afectivo, de sentimento, que raro evita o carisma da irracionalidade, prófuga do critério da ideia, que não supõe a razão como fundamento e como alicerce argumentativo da ideia. A noção afectiva ou sentimental de Nacionalismo é lícita, sendo componente essencial do senso comum, que, no quotidiano, não tem de se investir na dialéctica argumentativa, mas tem de viver em coerência com os valores, ou as figuras que se acham no cerne da sua alma. Não obstante, o senso critico requer o domínio das categorias lógicas, por forma a que uma tese seja deveras uma tese, e nunca mera opinião, ou seja, por forma a que Nacionalismo seja uma doutrina e não mera opinião ou sentimento de ternura.

Distinguimos três ideias de fundamento significativo: Nação, Pátria e Frátria.

Nação tem-se definido como um valor colectivo, ou comum, gente que vive sob o mesmo senhorio, temporal ou espiritual. Não dispondo de poder temporal, aos judeus da Diáspora se atribuía o termo "nação judaica", ainda que fosse apenas estante, junto de outra nação (a muçulmana, ou a cristã) constituída em Estado. Na Filosofia Política clássica Nação lia-se como natio, gens, (termos aduzidos por Cícero) significando uma pertença comum, uma gentilidade, vinculada às origens ou nascença, de onde, na mitologia da cidade romana, nação se vincular a Nasci, nascor, o nome que presidia aos nascimentos das crianças: "Qui partus matronarum tueatur/à nascentibus notio nominata est"(1). Esta cadeia relacional leva à inferência de que Nação também aceita dizer-se na palavra Mátria: a Mãe.

Pátria melhor cabe à ideia referencial de valores, isso que, na tradição bíblica se define como a herança dos pais. É a ideia e o ideal, a casa paterna continuada fora dela. No estar fora dela se gera o sentimento de nostalgia, ou de lembrança da casa paterna, havendo muitos passos escritos em que, por contiguidade, Pátria é dada como sinónimo de Nação, Cícero ensinando que, no exílio, alguém sofrendo a nostalgia e volvendo à casa paterna, é como se, no dia da chegada, se desse outro nascimento, um nascer de novo, um novo dies natalis. Parece que, dada a patriarcalidade do nome, Pátria deveria constituir um nome masculino, todavia, já em Hierácles do Egipto lemos a justificação de que o vocábulo se pronuncia com determinação feminina, porque também Pátria é mãe, Mátria.

A regra supõe excepções. Há quem ache a Pátria em qualquer parte, de onde o atributo apátrida ser de complexa aplicabilidade, porque todos temos Pátria, seja ela qual for, quer a de natureza, quer a de adopção. Já na Grécia e na Cidade Romana havia o dito "omnium solum forti, Patria est", e na língua portuguesa temos um dito análogo: "Ao bom varão, terras alheia pátrias são"(2).

Frátria é a fraternidade, a comunidade de filiação, ou de Nação. Deste modo, no conjunto tripartido, há uma trilogia conceptual: Pátria como arquétipo ou paradigma de uma comunidade; Nação como comunidade vivente, que existe à luz desse paradigma; e Frátria, o vínculo de fraternidade que une, na diversidade, todos os que participam da Nação. Os elementos da trilogia apresentam-se de tal modo inerentes uns aos outros, que o nome Nação enquanto Pátria em acto, contém todos os outros componentes da tríade, por não haver Nação sem Pátria, e Frátria sem Nação. Guardadas as necessárias subtilezas entitativas, assim como o simples nome Deus inclui todas as hipóstases divinas, também o nome Nação inclui os valores que na palavra existem, coexistem, e se intervalidam: a Pátria como antecedente, a Nação como consequente. Aqui nos aparece a ideia de Estado, que não é necessariamente o estatuto de Nação, embora o ideal seja que o Estado corresponda à Nação.

O ideal de Nação é que ela disponha de todos os pontos de partida e de todas as estâncias de ser: um povo, um lugar, um espírito ou uma alma, uma língua e uma Cultura(3) ou Tradição mental, e que se constitui um bem de quantos assumirem a sua Nação onde quiserem, como quiserem, por saberem qual é a sua Nação em liberdade de pensamento. De qualquer modo, a Nação só incarna quando dispuser de lugar (território, seja próprio, seja alheio), de gente (povo e sociedade), de espírito (língua e tradição cultural) e projecto ( de felicidade, ou de finalidade na história). A Tradição releva no contexto como fonte pátria, ou como paradigma de Mátria.

Tradição, em sentido geral, é a escola primária em que cada humano se inicia para a vida, pela aprendizagem, desde logo no âmbito doméstico dos modos vitais de estar, de se exprimir e de comunicar. Em sentido específico, é também outra escola, escolhida como via particular de ser, de estar e de saber, uma via singular no contexto da via geral ou do consensus omnium. Todos os seres humanos nascem dentro de uma Tradição, um conjunto ou sistema de saber sabido, que não carece de prévia experiência para ser aceite, mas é seguido fora de qualquer interpelação imediata. Pensamento pensado, nela se criam as vocações para o pensamento pensante, esse que, sobre o já pensado e sabido, inventa o novo pensar e o novo saber. A razão criativa singular gera-se na razão geral, fora da qual — e não obstante os chamados "regimes solitários", — pensar e saber do novo é impossível, cumprindo entender que o pensamento e o saber adquirido nos "regimes solitários" dependem de um dado médio prévio, a anamnese ou reminiscência. No caso da Tradição há herança imediata de pensamento e de saber, testemunhados nos outros, próximos ou distantes. Ninguém parte para nova conquista sem arrancar da base que lhe é dada, por isso que toda a hermenêutica filosófica, toda a Filosofia, resulta de uma situação, e, mesmo quando se institui, é Filosofia situada, por difluir de um saber feito, que se não anula de todo no saber a fazer, mediante as categorias lógicas e verbais e as motivações iniciáticas, miméticas e poéticas.

Permita-se a imagem metafórica: a Tradição é a história de cada ser humano antes de tal ser humano devir existente, de onde a licitude de se afirmar que a Tradição, para além de dado objectivo, é também o subjectivo, o próprio ser do ser humano em existência, considerada pelos olhos de cada um em particular, e pelos de todos em geral, envolvendo as categorias do próprio, da diferença, do essencial e do acidental. Ela transcende a noção de "circunstância" admitida por Ortega y Gasset, pois, sendo embora circunstância (condicional e condicionante) é também principio e movente, actuante no pensamento como algo que, de fora, actua dentro. Neste processo se entrosam os modos ou tempos de acção, o passado, o presente e o futuro, em que os três se interligam de modo inconsútil, como num trabalho de renda, sob pena de a renda ficar rota. O presente apresenta o passado e antecipa o futuro, a Tradição sendo aberta e futurível, sem correr o risco, nem de fixismo, nem de historicismo. Renovação sem prévia Tradição é como silogismo a que falte a premissa primeira. E também Tradição sem Renovação é como silogismo a que falte a premissa final, destinando-se a tudo manter intocado, mesmo se esse intocado já não serve ao itinerário da mente segundo o rigor ontológico e etológico. É um corpo vivo em metamorfose, o sabido que serve para novo saber, que todavia, mantém o vínculo entre o antecedente e o consequente.

Em Antropologia, Tradição como que é sinónimo de Cultura, na qual, pelo nascimento nos inculturamos em enculturamos, aderindo a sistemas comportamentais colectivos e só depois questionáveis, como que não distinguindo saber de razão e imersão ideológica. Neste contexto, a comunidade tem uma Tradição, ache-se mais longe ou mais perto de uma cultura mais avançada do ponto de vista científico e tecnológico, embora estes aspectos contribuam em definitivo para a alteração das premissas do modo de viver tradicional. Com efeito, a emigração, o processo tecnológico, os meios de comunicação, as pressões sociológicas, podem conduzir à metamorfose da Tradição antiga, sobre ela, e mesmo contra ela, gerando uma via nova, sem radicação local. Neste sentido se admite que a cada instante um costume morre e outro nasce, a Língua sendo a principal componente em que as mutações se revelam. As evoluções fonológicas e semânticas, caso não se verifique o abandono da língua pátria por outra estranha, constituem elos de mutação e de transgressão que levam à renovação. Nas Literaturas, as novidades são em geral suportadas por anterioridades (F. Crespo, A Tradição de uma Lírica Popular Portuguesa antes e depois dos Trovadores, Lisboa, 1966). Quanto à guarda da Tradição, todos os grupos tendem ao tradicionalismo, havendo de enfrentar o surgimento das inovações e dos inovadores.

O fenómeno que se designa por Cultura Popular é, por excelência, o repositório custodiante da Tradição da comunidade.

(continua)

_____________________________________
* Comunicação ao II. Congresso Nacionalista Português, Lisboa, 15.11.2003, em sessão presidiada pelo Eng.º Figueiroa Rêgo. Em Apêndice incluímos uma palestra, "Cultura e Lusofonia", proferida na Pousada da Juventude (Almada, 16.10.2003) para os participantes do Fórum Internacional das Juventudes Lusófonas, e que complementa a tese do Nacionalismo.

(1) Cícero, De Natura Deorum, 3.
(2)R. Bluteau, Vocabulário, Vol. VI, pp 320 - 321.
(3)P. Gomes, Liberdade de Pensamento e Autonomia de Portugal, Lxª, Espiral, 1971, p. 7

Etiquetas: , ,


This page is powered by Blogger. Isn't yours?

  • Página inicial





  • Google
    Web Aliança Nacional