2012/07/16
Cuidado, Alerta !!!
É verdade que o sistema económico-social soviético ruiu, o muro de Berlim foi derrubado (não caiu) e as nações europeias a leste foram libertadas das ditaduras comunistas, dessas que o PC queria em 1975 impor em Portugal, mas não conseguiu.
Daí para cá, em Portugal, o PC perdeu garra, eleitores e deputados. Mas conseguiu aguentar-se numa posição ainda com poder e controla ainda muita coisas no Estado e nos sindicatos. O suficiente para fazer barulho e exigências utópicas, agarrados à cartilha marxista que ainda resta na Constituição de 1976. Se ao PC juntarmos os primos do Bloco e franjas mais radicais do PS, podemos sem grande dificuldade encontrar 20% do eleitorado, ou mais.
Mas é claro que com a derrocada do socialismo soviético, há pouco mais de 20 anos, a luta de classes, a sociedade sem classes e a reforma agrária foram por água abaixo, esta última com a prestimosa ajuda da PAC rebentou com a agricultura portuguesa.
Mas a verdade é que nem os comunistas nem o PC desapareceram em Portugal. Têm-se aguentado, o que significa que ainda estão longe de ser politicamente derrotados. Em grande medida porque é a "direita" (PSD e CDS) que não se quer dar ao trabalho de os derrotar. Mas também porque o socialismo nas duas últimas décadas deixou de lado a construção da economia socialista, limitando-se apenas, ora a pactuar com o capitalismo, que diz combater, ora a dizer mal do sistema capitalista, sem poder apresentar nada como alternativa, pois a verdade é que, pactuando mais ou menos com o capitalismo, o estado socialista depende do capitalismo e dos capitalistas para se alimentar (impostos, taxas, taxinhas...de pessoas singulares, famílias, empresas, sector privado).
Onde o socialismo apostou nas duas últimas décadas (PS, PC e Bloco) foi na engenharia social: promoção do aborto, do divórcio, da homossexualidade, da queda da natalidade, com todas as suas consequências destrutivas, sempre com a justificação da "igualdade". E foi aqui que muitas cabecinhas débeis da "direita" não lhes souberam sair a terreiro, permitindo que eles impusessem a sua agenda radical. Os efeitos negativos desta agenda serão muito piores que os da actual crise económica.
Mas, ainda assim, talvez a situação actual ou futura de alguns bancos dê ao Estado o pretexto para estatizar os bancos que operam em Portugal, passando-se daí para uma ainda maior estatização da economia e para um verdadeiro assalto à propriedade privada como sucedeu no PREC.
Como o Estado são aqueles que lá estão, e muitos são da esquerda totalitária, a caça à propriedade privada (dinheiro e bens) pode voltar. Ponham-se a pau.
Cuidado, alerta !!!
manuelbras@portugalmail.pt
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2008/01/16
Memórias das minhas Aldeias
Esquecimentos da História
EPÍLOGO
UM MISTERIOSO SENHOR… E MUITAS INCÓGNITAS
(<--)
Ambos receberam com interesse a sugestão dos seus subordinados – lembram-se? – para que se encontrassem e discutissem, quer Rufino, quer o presidente do Banco, tanto que se apressaram a combinar pelo telefone o dia e hora desse encontro.
A primeira coisa que, nessa altura, cada um deles confessou ao outro foi que já muito se consideravam e admiravam antes, por seguirem com grande interesse as trajectórias empresariais um do outro, ia para alguns anos, dois ou três um deles, três ou quatro o outro.
No que lhe respeitava, uma declaração como esta provocou logo no presidente do Banco a sua irreprimível inclinação para falar de si e da extraordinária conquista da mais alta percentagem do mercado bancário português pelo seu Banco, por sua iniciativa e sob a sua chefia, em muito menos de dez anos, talvez não mais de seis.
Rufino não hesitou para espetar fundo e pronto o seu “estoque”, perante tão pronta exibição de vaidade do genial banqueiro.
“Admirável! – disse Rufino – Mas agora o Senhor Presidente, o V/Banco, para crescer – perdoe-me a opinião de leigo… - para crescer como até agora, creio que só num extenso mercado estrangeiro, como o dalguns grandes países africanos, por exemplo…”
“África é um continente de gente muito pobre! – observou o presidente do Banco – Tudo lá cresce muito devagar, exigindo elevados investimentos, e sempre com altos riscos à vista de sofrer-se nacionalizações arbitrárias, feitas de cima para baixo, por iniciativas revolucionárias dos governos mais absurdamente reaccionários e cheios de gula pelo dinheiro dos outros…”
“É verdade, senhor Presidente… Até certo ponto. Porque aquilo que a nossa Universidade está a impulsionar em África pode vir a transformar-se em poucos anos num mercado único ao Sul de todo o Saará! A UL, como factor de congregação de todo aquele espaço, poderá talvez dar inestimável contributo para a sua ocupação por grandes e poderosas forças económicas… como o V/Banco… se recebermos os necessários incentivos e apoios para o fazermos…”
“É tentador… - retorquiu o presidente do Banco – Em todo o caso, há a política… uma Federação de que muito se fala… capaz de armar ratoeiras aos incautos em política… como somos em geral os empresários e empreendedores, e tudo perdermos num ápex!”
“Mas não será exactamente aí que nós, metidos como estamos na génese e desenvolvimento do projecto federador dos pólos da UL, melhor poderemos aconselhar e informar a tempo os vossos decisores e peritos?... Digamos mesmo que alertá-los e talvez ensiná-los a evitarem os alçapões políticos?...”
Rufino não quis dizer mais antes de ter a certeza de que o outro estava a seguir-lhe o pensamento.
Mas o outro estava de facto a esforçar-se por compreender melhor…
“Talvez… - retorquiu o Presidente do Banco calmamente – Mas explique-me em pormenor, para compreender o esquema com toda a precisão. Não quero falhas nem pontos obscuros. Quero compreender tudo muito bem, saber todo o alcance dos vossos planos, avaliar sem ilusões com que forças a nossa aliança poderá contar…”
Rufino respirou aliviado! Era a primeira vez que se falava de aliança, de aliança entre o Banco e a UL, subentenda-se, e fora justamente o grande banqueiro a fazê-lo, evidentemente que sem papas na língua nem dúvidas sobre a futura realidade da aliança, como coisa certa e segura que não oferecesse dúvidas algumas.
Teve então Rufino a certeza de que tudo acabaria a dar certo.
Com súbita decisão apontou o caminho ao Presidente do Banco…
“Posso roubar-lhe mais uma hora?”
“Porque não?” – dispôs-se o Presidente.
“Então venha comigo… quero mostrar-lhe, na nossa sede, algumas coisas que o convencerão em definitivo !”
…..
O Presidente do Banco foi completamente informado, e com documentos irrecusáveis, sobre os projectos de expansão da UL em África, informações que aliás confirmavam o que já sabia e pouco ou nada lhe acrescentavam.
Não fora, porém, tempo perdido para si, porque tudo aquilo que ficava a saber, como aquilo que julgava adivinhar, era um manancial completo para o seu Banco. Justificava sem dúvida que a aliança, de que fora o primeiro a falar, um pouco de “falar por falar”, devesse ser considerada inteiramente a sério e garantida.
Estranhamente ele, tão desconfiado sempre e muitas vezes à defesa, em situações do mesmo tipo, ficara certo e seguro, convencido pelos “segredos” que descobrira ou lhe haviam sido confiados essa tarde, que valia a pena acreditar naquela gente.
Mais exactamente e melhor ainda: que, em tudo que apurara a seu respeito e dos planos deles, só encontrara comportamentos correctos e inteligentes. Gentes de escol, no mais completo sentido.
O Presidente aceitara até, sem discutir, que os assuntos de África entre a UL e o seu Banco seriam tratados directamente entre a sucursal de Pretória do Banco e o pólo local da UL, na pessoa do Dr. Celestino Maria. O Presidente não o conhecia pessoalmente mas concordava em ouvi-lo em directo, sempre que a sucursal e Celestino não conseguissem chegar pronta e cabalmente a acordo, fosse como fosse e no que fosse.
Mas nada de questões sobre os princípios e alcance da projectada aliança. Essas ficavam para ser tratadas exclusivamente entre os dois líderes máximos, quando o entendessem. Embora, é certo, as linhas essenciais da aliança tivessem ficado já assentes na reunião na sede do Banco, logo continuada, essa mesma tarde, na sede central da UL, em Lisboa.
Uma grande simpatia logo nascera entre ambos, que poderia vir a evoluir para uma grande amizade, pressentia-se.
Era a simpatia fruto do fácil entendimento que existira entre eles desde as primeiras expansões, ou era o entendimento fácil fruto da simpatia mútua, perfeitamente manifesta desde que se haviam encontrado?
Poucos dias depois, Rufino recebeu outro telefonema do Presidente dizendo-lhe que pensara muito, mas muito mesmo, sobre tudo aquilo de que haviam falado no primeiro encontro; que fora providencial terem-se encontrado com a maior lealdade; que, julgava, a conversa de ambos lhe sugerira ideias novas, que trariam soluções para os piores problemas do Banco, que o preocupavam gravemente e preocupavam igualmente os outros grandes responsáveis do mesmo, quanto ao seu futuro próximo, mas até a médio e longo prazo.
Depois lhe contaria em pormenor…
É que, adiantou logo, quando ainda esse dia se encontraram, ele e o Banco careciam da forte ajuda e empenhamento da UL para, juntos, elaborarem novos estatutos da sociedade bancária, que a blindassem contra manobras ameaçadoras. Mas também para igualmente juntos encontrarem pessoas de muito gabarito que lhe resolvessem o grave imbróglio pessoal da sua própria sucessão à testa do Banco!
Porque, explicava o Presidente, queria ter todos os cordelinhos seguros nas suas próprias mãos e em mãos de gente da maior confiança…
Porque estava em causa o futuro imediato do Banco e o seu controlo firme, como uma das três maiores organizações bancárias da Península…
Porque havia agora lá dentro algumas poderosas forças accionistas, recém-aparecidas mas já a movimentarem-se para se substituírem aos controlos tradicionais dos fundadores e dos accionistas de muito longa data do Banco…
Porque, uma vez instalados, esses novos poderes, accionistas ou não… destruiriam tudo o que fosse aliança entre o Banco e a UL, que também detestavam, apurara, mas não conseguira saber as razões…
Porque tudo o que haviam combinado ambos, ou viessem a combinar, na verdade estava já em curso ou em perspectiva, para a UL, o Banco e a Federação realizarem conjugadamente em África, mas seria completamente escamoteado, sabotado, anulado, destruído pelos novos poderes seus inimigos, se não fossem travados já…
Porque, em suma, essa gente odiava África e os negros, como odiava quaisquer projectos de promoção da África e africanos ao lugar digno dela e deles no Mundo!
E tudo fariam para sabotar de raiz todos os planos nesse sentido!
“Sobretudo se forem projectos nossos, vossos ou da Federação!” – concluiu o Presidente, os olhos a fuzilarem-lhe de ódio por esses perturbadores e de paixão por África, de “novo rico”, com as barbas a arder...
Rufino fez a sua leitura…
Estava a ser-lhe oferecida a rendição completa e sem condições do Banco!
Apercebeu-se também de que só uma preocupação grande, talvez enorme, naquele instante, os dominava aos três…
Estariam eles todos, isto é, o Banco, a UL e a Federação, à altura das responsabilidades?
“Em todo o caso… - reflectiu – Quem mais provas tem de dar, e imediatamente, é o Banco…”
Estava decidido.
Iriam apregoar, tão depressa quanto se impunha, vencendo possíveis e impossíveis, o anúncio para o arranque do plano das Faculdades de Medicina e dos hospitais universitários que lhes seriam acoplados…
O Banco e o Presidente do Banco teriam de ser convencidos presto, prestissimo a jogar forte no financiamento do colossal plano de fomento hospitalar e universitário privado, nem que tivessem de associar-se com outros financiadores gigantes.
Era a credibilidade indispensável a todos os comparsas, que a partir de agora o Banco e o seu Presidente teriam de compartilhar também, fossem quais fossem os esforços impostos e os riscos e sacrifícios que tivessem de aceitar para o efeito.
O preço para a edificação dum colosso cultural e político, como nunca se viu em África!
A.C.R.
Seia, Várzea de Meruge
Casa de São Salvador
Dia de Reis
06 de Janeiro de 2008, 20h00.
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2008/01/14
Memórias das minhas Aldeias
Esquecimentos da História
Parte VIII – N.º 20 – RUMOS NOVOS
(<--)
Um importante Banco português com sucursal em Pretória abordou os representantes da UL durante as diligências em curso para a criação do pólo da Universidade na África do Sul.
Porquê?
Porque alguém na sucursal soube da orientação ousada e original dada às diligências em questão e pôs o assunto à consideração da sede do Banco, em Lisboa.
Afigurara-se-lhes muito interessante terem a UL como cliente.
O interlocutor, na sede, logo aconselhou prudência, dado lhe terem parecido inéditos e inseguros os aspectos políticos implicados na criação duma “federação”, aspectos que se poderia considerar porem em causa a soberania nacional de cada um dos Países onde a UL já funcionava ou onde se preparava para vir a funcionar em breve.
Por uma estranha inspiração imediata, o homem cada vez mais forte da UL em Pretória, sabedor destas reticências, saiu-se logo com uma oportuna tirada para o agente bancário com quem tratava…
“Concordemos que há riscos – admitiu Jucelino. – Mas que há também perspectivas imensas! Quem primeiro correr esses riscos será também o primeiro a aproveitar as grandes chances oferecidas… Peça ao seu chefe da sede que ouça em Lisboa o Doutor Rufino, secretário-geral da UL e o grande motor dela… Tem ideias luminosas sobre o presente e o futuro da Universidade! Julgo que o presidente do vosso Banco e o nosso secretário-geral são os dois empresários mais sensacionais, com certeza os de mais visão que há nesta altura em Portugal, pode crer!”
O isco ficava lançado e o rastilho aceso, acreditava Jucelino, a quem a fama do Banco e o pensar detidamente no assunto, cada vez o abriam mais para o extraordinário potencial que adviria para a “federação” e a UL, tinha a certeza, uma vez associadas e com o apoio em exclusivo duma organização bancária dotada da enorme capacidade de irradiação, crescimento e penetração que o banco português demonstrava.
Jucelino já não tinha dúvidas sobre as possibilidades dessa nova aventura que era indispensável e urgente correr e explorar, como só na UL e nesse Banco se sabia fazer, em Portugal, tanto quanto constava correntemente sobre o Banco e o seu grande líder e fundador.
Quem era?
Um misterioso senhor, vindo mal se sabia de onde, que desatara a comprar pequenos bancos, logo reorganizados de alto a baixo, constituindo com eles, em poucos anos, um dos três maiores bancos da Península.
E era tudo, não sendo nada pouco.
Vivia, porém, com um fantasma dentro de si, o fantasma do seu sucessor pessoal que lhe era imperativo descobrir e não conseguia, por muitas voltas que desse pela gente à sua volta.
O lado político que o empreendimento bancário pudesse vir a assumir, por “contágio” da “federação”, também não lhe facilitava as coisas…
Mas chegavam coisas de Kinshasa, confirmando a dificuldade, se não impossibilidade, de fugir às implicações políticas do empreendimento.
O governo de lá havia descoberto a “federação”!
Com uma tal fúria de zelo e persistência que, de um momento para o outro, passara visivelmente a apostar em não se deixar ficar de fora.
Acima de tudo, o governo de Kinshasa dava ares de muitíssimo interessado no projecto político, mais do que nos apoios que directamente poderiam vir do Banco português, como poder financeiro de excepcional alcance e envergadura que geralmente constava ser.
Era, poderia vir a ser um notável reforço do esquema preparado. Não devia, apesar de tudo, minimizar-se a política, no seu papel de fermento da massa toda…
Em Lisboa, Rufino concordou, deu o seu aval.
E decidiu mesmo que Celestino Maria os representaria e à UL junto do Banco, para todos os efeitos do entendimento previsto e acordado, bem como para eventuais novas negociações.
Mas quem substituiria Celestino Maria nas suas tarefas actuais de animação, promoção e coordenação da UL, já de si tão absorventes?... Rapidamente Rufino e Jucelino puseram de parte as hesitações, para concluírem que, entretanto, o problema não se poria, tão evidente era que Celestino Maria, nas suas capacidades de gestor e animador das iniciativas da UL, jamais mostrara a mais pequena limitação executiva que prejudicasse as estratégias globais definidas entre os três.
Quando lhe disseram das suas novas responsabilidades, Celestino Maria observou, com evidente convicção, que os companheiros estariam a presumir perigosamente das suas capacidades. Avançou mesmo com uma pergunta que não permitia dúvidas…
“E se estabelecêssemos um sistema de rotação da função entre nós três?...”
Os outros dois sorriram como se ouvissem uma graça, mas encerraram a questão adiantando que ambos estariam disponíveis para ajudá-lo, caso sentisse necessidade ou conveniência, alguma vez, incluindo conversações com Kinshasa.
“E ponto final!” – exclamaram os três em uníssono.
A.C.R.
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2008/01/12
Memórias das minhas Aldeias
Esquecimentos da História
Parte VIII – N.º 19 – NAZISMO DE OPERETA
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Uma onda de nazismo inesperado, mas basto e aguerrido, foi o que alguns jovens de umas quantas escolas públicas, espalhadas por toda a Federação, encontraram no mais profundo das suas cabeças para oporem ao anti-nazismo “mais genuíno” dos “imperialistas” e “colonialistas” da UL…
Era assim que os novos nazis chamavam, de facto, aos promotores da UL, porque havia muito lhes atribuíam as piores intenções políticas a seu respeito, como únicos nacionalistas viáveis e coerentes que os nazis a si mesmos se consideravam.
“Presunção e água benta”…
Iam tendo os neo-nazis em questão muita sorte, politicamente falando, porque o seu arranque encontrou grande eco e foi muito seguido exactamente onde menos se esperaria, quer-se dizer entre os nazis negros de certas escolas africanas, públicas e privadas.
Explica-se, se observarmos com atenção…
Digamos que isso era consequência, em primeiro lugar, duma nova manifestação de grande criatividade e iniciativa dos futuros alunos negros de todos os pólos da UL em África.
Que haviam eles de ter descoberto?
Apenas isto… que graças aos estudos mais avançados dos movimentos da “negritude”, o nazismo, o nazismo como teoria de superioridade racial e escola de organização política das sociedades, seria efectivamente o melhor modelo de mobilização dos negros para a conquista, defesa e funcionamento do poder político, que deixaria então de ser monopólio dos caras pálidas.
Sobretudo porque, acreditavam, a comprovada decadência dos Estados brancos, por serem brancos, seria definitiva, imparável e irreversível.
Sem remédio!
A reacção dos jovens brancos mais politizados dos pólos da UL, os de orientação nazi, que havia alguns nazis por lá, não muitos, mas suficientes, foi uma reacção inesperada, embora inteligentemente oportunista.
O que interessava, antes de tudo, não era a conquista do poder, afinal? – perguntavam-se os jovens brancos que gostavam de intitular-se de neo-nazis.
Se assim era, porque não haveriam então de aliar-se, para esse efeito, jovens brancos e jovens negros, no fundo tão nazis uns como os outros?
A hipótese suscitou reacções indignadas duma minoria, muito minoritária, de jovens nazis brancos, mas a sua forte maioria entendeu que sim, que era de estender as mãos aos jovens nazis negros, na expectativa de que, mais tarde ou mais cedo, os brancos acabariam por enganar e “comer” os pretos…
O racismo militante ficaria para depois… se é que me faço entender.
Será verdade que ideologias há propensas a nivelar por muito baixo as inteligências dos seus aderentes, de qualquer raça e proveniência que sejam?
Talvez seja secundário tirar conclusões…
Mas não deixa de ser agradável verificar que, mesmo entre nazis, começa a encontrar-se gente desempoeirada e sem antolhos, brancos e negros. Todos nazis de vistas largas e capazes de mutuamente se respeitarem…
Sabendo naturalmente os riscos que correm e corriam.
O primeiro dos quais era terem de ignorar e passar por cima ou ao lado de líderes e inspiradores encartados, hábeis em ministrar o seu veneno sem pudor nem respeito pelas mentes dos “mais pequeninos”, que se lhes entregavam e entregam confiadamente, incapazes de cálculos especiosos ou de estratégia alguma menos respeitável.
Esses líderes, ou pelo menos alguns deles, deitavam-lhe de contas… Isto é…
Pois se eles próprios já haviam sido iludidos e desencaminhados por outros líderes, mais antigos, que mal haveria em que eles próprios também, por sua vez, desencaminhassem os inocentes mais novos?
“É preciso que cada geração reviva as experiências todas de todas as gerações anteriores; só assim a Humanidade poderá dar o seu melhor no roteiro do progresso e da renovação.”
- Uma extraordinária máxima! – descobriu Jucelino – Uma máxima tipicamente nazi, pois que, bem interiorizada, permitirá controlar rigorosamente a liberdade e os progressos de todos e cada um dos cidadãos, sem necessidade de serviços secretos nem de polícias de defesa do Estado!
Ora aí estava mais outra vantagem do nazismo… sem violação de consciências.
A.C.R.
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2008/01/09
Memórias das minhas Aldeias
Esquecimentos da História
Parte VIII – N.º 18 – QUE LOUCURA!
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Na reunião seguinte voltaram a estar presentes os mesmos quinhentos ou seiscentos candidatos da antevéspera, mas os questionários respondidos pelos próprios e seus conhecidos, colegas e amigos foram em número superior a três mil, todos assinados e com os nomes e endereços dos respectivos pais devidamente expressos, em letras suficientemente gordas.
Os endereços indicados eram duma boa parte de quase toda a África do Sul!
Perante tal sucesso Jucelino, varado de espanto, exclamou apenas...
“Mas que loucura! Que loucura!”
Os três outros membros da direcção do pólo, ali presentes com Jucelino, concordaram com mais espanto ainda…
“Mas que loucura! Que diabo de loucura! Como vamos resolver os problemas desta avalanche, é que não sabemos!”
“Qual não sabemos!” – atalhou prontamente, o filho do soba, para logo continuar…
“Nós não saberíamos resolver o problema era se as respostas fossem poucas ou pouquíssimas, ou ainda mesmo que assim… assim…
“Como são muitas, muitíssimas… o problema, por enquanto, é meramente estatístico. Entregamos as três mil e tal respostas aos cuidados do nosso gabinete de estudo dos dados obtidos e amanhã à noite apreciamos em conjunto a análise do gabinete. Concordam?...”
Pois que haviam de fazer, senão concordar?
Cada um deles reviu mentalmente os compromissos já tomados, que teria de alterar. Mas o hábito era grande de isso acontecer. Claro que as mulheres, amigas ou namoradas iam ter as suas fúrias, que ele como sempre endossaria para as costas largas de Jucelino. Mesmo para as costas ainda mais largas de Celestino Maria, embora ausente desde havia dois ou três dias, na Europa, aonde fora dar conta da situação em Pretória e pôr problemas, receber instruções, sintonizar enfim o “Chefe” e “Mestre” para as novas orientações que as grandes mudanças ou desenvolvimentos recentes de todo o panorama africano acabariam por impor na estratégia da UL… A UL de dois ou três Continentes, tantos continentes quantos os da “Federação” de Estados por ela inspirada e, na verdade, promovida… Uma e outra, nem saberia dizer porquê, surgiam de súbito aos olhos de Jucelino como já possivelmente tentadas a singrar em direcção a um centralismo que viria a ser nefasto, achava ele que inevitavelmente nefasto, a concretizar-se.
“Temos antes de mais de provar que não somos nazis… como alguns de nós gostariam de ser e como outros gostariam de fazer-nos parecer…”
Era uma decisão sua, havia um certo tempo, mas que Jucelino não sabia ainda exactamente como pôr em prática, para grande arrelia dele e do “Chefe” e “Mestre”, por mais voltas que dessem ao problema, cada vez com mais frequência e sempre que podiam fazê-lo a sós, sem sequer a quase certeza de escutas perfeccionistas ali por perto.
Constando embora que eram omnipresentes à sua volta…
“E nem ao menos os judeus estão mortos!” – lembrou-se ele de lamentar, sentindo aumentar o peso do insucesso na consciência, como se insucesso e consciência fossem exclusivos seus ou obras sua.
Como resolver o fundo da questão, se nem mesmo Rufino, o engenhoso, o genial, o grande Rufino, até essa altura, tinha encontrado uma solução segura!
“Todos os suspeitos têm direito a um julgamento imparcial – dizia Rufino da última vez. - Mas a nós não no-lo garantem, nem agora nem talvez em nenhuma ocasião, no futuro. Não concordas?...”
Sim concordava. Mas não aceitava, custava-lhe a aceitar que não houvesse remédio, fosse ele qual fosse, de preferência um que mostrasse as coisas à transparência, tal qual elas eram, e não como os adversários e os desconfiados mostravam querer que elas fossem, porque lhes interessava e agradava.
Era certo que os nazis tinham podido ganhar a guerra e que isso os tornava simpáticos e interessantes aos olhos de muitos que, por essa aparente simpatia ou interesse suposto, podiam eventualmente passar por nazis ou simpatizantes nazis, mesmo por cúmplices de nazis e fascistas ou outros totalitários de ainda pior espécie.
Como não?...
Teve de súbito consciência de haver achado, pois, uma solução infalível e impossível de iludir ou ignorar, fosse quem fosse o espertalhão que o tentasse.
O combate constante e incansável ao centralismo, sob todas as suas formas, inclusive e sobretudo as formas ditas “democráticas”, devia de facto – concluía cada vez mais seguro de si – tornar-se a marca de excelência e inconfundível do anti-nazismo mais genuíno.
O eterno combate ao “centralismo democrático”…
A.C.R.
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2008/01/08
Memórias das minhas Aldeias
Esquecimentos da História
Parte VIII – N.º 17
ENSINO INOVADOR E… ENRIQUECEDOR
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Veio do conjunto dos governos nacionais ali representados talvez a mais espectacular das reacções à ideia duma federação, informal embora, de Estados Lusíadas da Europa e da África, surgida no conclave onde só o Estado brasileiro e o seu governo não estavam de facto representados.
Mesmo do governo da África do Sul, naturalmente não lusófono, chegou uma reacção que poderá chamar-se de certa conivência. Lembrou esse governo, em comunicado especial publicado por todos os M.C. Social, que sendo a “federação” lusófona, excluía logicamente Estados que o não fossem. Mas também que isso não impedia a associação às suas finalidades de grupos de cidadãos sul-africanos de língua portuguesa e com origem portuguesa.
Assim o conclave o entendera já, mas a concordância do governo sul-africano vinha dar a esse entendimento um peso enorme, muito benvindo, numa altura problemática.
Quanto aos Estados lusófonos da “federação”, a reacção “espectacular” deles consistiu na sua pública adesão às finalidades e meios propostos, mas exigindo que se formalizasse por escrito, imediatamente, o acordo sobre a sua criação, natureza e regras de funcionamento, “dado o carácter inédito e absolutamente original daquilo que todos esses Estados tinham afinal em vista”.
O que pareciam dificuldades susceptíveis de fazer encalhar o “barco”, posto a navegar com tão grandes esperanças, revelaram-se afinal estímulos para a rapidez e eficácia das acções requeridas, mesmo tratando-se das mais complexas e delicadas acções de concepção e marketing.
Tudo cresceu de tal modo e tão depressa que a partir de certa altura tinha jeitos de verdadeira explosão, uma explosão contínua, sob a pressão dos futuros alunos que faziam por empurrar na sua máxima força, porque ansiavam por ver tudo a andar e definido sem demora tudo o que ainda o não tivesse sido.
Quanto pagariam de propinas?...
Haveria multas para os que se atrasassem nos pagamentos?...
Em casos desses, as notas de frequência e de exames ou simples testes não seriam publicadas enquanto os pagamentos não fossem postos em dia?...
A assistência às aulas seria obrigatória?...
O ensino seria realmente inovador, ao contrário do que efectivamente se passava nas Universidades públicas?...
Etc., etc., etc.
Mas sobretudo a pergunta que acabaria por provocar mais intervenções e mais interessadas, muito interessadas mesmo, da parte de todos…
A Universidade Livre, o pólo de Pretória, iria ficar-se por cursos de “papel e lápis”, isto é, papel, esferográfica e biblioteca, como lhes parecia estar a acontecer nos pólos europeus mais antigos, em geral ou predominantemente?
Haveria lugar para as engenharias, as artes, as medicinas, a enfermagem, a investigação, a arquitectura, a gestão operacional, a biotecnologia, a semiótica interlinguística, as origens e futuro das raças?...
Jucelino levantou-se num repente, para responder sem uma hesitação…
“Não! Não, não será como na Europa.
“Queremos ir desde já muito mais longe!
“Teremos todos os cursos para os quais seja possível conseguir professores e investigadores competentes…
“E vamos querer em todos os cursos os mais competentes!
“Vereis, garanto-vos!
“Para podermos um dia ter os licenciados mais distintos de todas as Universidades sul-africanas… E em Angola, como em Moçambique, no Zaire, em Cabo Verde…
“Vocês deram-me excelentes ideias!
“O ensino da medicina e da enfermagem é uma ideia fantástica!
“Teremos faculdades de medicina em todos os pólos da UL, antes de serem criadas nos pólos europeus da UL!
“Vamos antecipar-nos à Europa!
“Criaremos os melhores hospitais de África junto a cada uma das nossas futuras faculdades de medicina…
“Daqui a vinte anos a África terá serviços de saúde de tão alto nível como a Europa!
“E os médicos que licenciaremos aqui não terão de ir a correr arranjar emprego na Europa ou na América, porque a nossa Federação nova há-de criar empregos para todos…
“Porque a saúde generalizada das nossas populações será o primeiro grande desígnio dos nossos governos.
“Queremos que os pólos da UL sejam inspiração e motores de progresso e justiça para toda a nossa África.
“Vamos salvar a África de uma vez para sempre.
“Estamos embarcados no maior sonho que já alguma vez empolgou os africanos.
“Não falharemos, amigos e camaradas!
“Não falharemos nunca!”
Temendo os aplausos ameaçadores que seguramente não serviriam senão para distrair a assembleia do mais importante, Jucelino fez fortes sinais para todos compreenderem que tinha ainda coisas a dizer, naquele momento, imediatamente, que mereciam ser ouvidas, que teriam de ouvir, quisessem ou não.
“Ide pensar no que vos disse.
“Ainda não tínhamos falado dos cursos para que abriremos matrículas.
“Mas a questão está lançada e teremos de saber as vossas respostas. Vai ser-vos distribuído um questionário, com todas as instruções necessárias. Preenchei-o com clareza. Estaremos todos aqui depois de amanhã outra vez, à mesma hora, para os recolher. A partir das vossas respostas, vamos pôr a Universidade a andar, em grande velocidade! Até depois de amanhã, se Deus quiser.”
A.C.R.
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2008/01/05
Memórias das minhas Aldeias
Esquecimentos da História
Parte VIII – N.º 16
UMA FEDERAÇÃO INFORMAL DE ESTADOS LUSÍADAS
(<--)
Foi tal o entusiasmo que chegou a ser necessário “deitar água na fervura”, por mais de uma vez...
Pareceu a uns tantos que, habilmente, quem mais insistira por retirar qualquer aparência de carácter político à orientação do conclave fora exactamente quem mais contribuíra para orientar nesse sentido a rede de pólos da UL, isto é, o próprio filho do soba da Lunda, Jucelino Silva.
Mas, para os Meios de Comunicação Social, o que aconteceu logo no primeiro dia do conclave – reunião à porta fechada, “com chave”, cum clave, do latim – o que aconteceu foi a proclamação efectiva dum novo Estado, mas também dum tipo novo de Estado, cuja primeira formulação podia chegar a revolucionar a política mundial, mas simultaneamente a própria ciência da política e a arte de fazer política.
Com esta grande e tranquilizadora novidade, contudo: é que o novo Estado não ameaçava nada nem ninguém, nem tinha outras armas que inteligência acutilante, militância juvenil e decisão pronta, inspirada e altamente mobilizadora.
“Os tempos são novos em absoluto. Exigem-nos métodos e objectivos radicalmente novos também!”
Passagens dos MCS, citando textualmente o grande Jucelino.
E tendo começado assim, impunha-se a Jucelino justificar o arrojo do pressuposto.
“É a primeira vez que uma grande realização política nasce directamente dum grande projecto cultural, queridos camaradas!
“Estamos aqui a convite e por inspiração da UL – que não é uma Universidade branca qualquer! – para centrarmos o futuro desenvolvimento dos nossos povos no seu exemplo de irradiação e crescimento.
“Se em poucos, pouquíssimos anos, fomos capazes de conceber e instalar um tipo de Universidade com uma dúzia já de grandes pólos, em seis ou sete Países e a caminharem rapidamente para mais de cem mil alunos, o mesmo arrojo e a mesma força criadora têm de inspirar-nos para, fortemente unidos e igualmente decididos, multiplicarmos outras grandes iniciativas capazes de, sem fronteiras, tornarmos depressa os nossos povos dos mais ricos e avançados do Mundo inteiro!
“Os governos que aqui representamos também são todos de esquerda e da mesma esquerda, sem nada que nos divida e oponha e nos tornasse impossível avançarmos juntos para os mesmos objectivos e com os mesmos projectos…
“Quero eu dizer que nos podemos entender tão bem que vamos surgir aos olhos de todo o Mundo como se fossemos uma federação de Estados, tão unidos e eficazes como o Brasil ou os Estados Unidos da América, camaradas!
“Atenção! – exclamou para que não houvesse dúvidas – AUL inspira-nos, é o nosso exemplo, mas não nos governa nem governará jamais. Quem nos governa, e governará sempre, são os governos aqui representados e por nós eleitos. Entendido?...”
“Tudo governos de esquerda e só de esquerda, mas da esquerda mais lúcida, avançada e progressiva!
“Entendido, camaradas?
“Então! Entendidos ou não?...”
Os aplausos que lhe responderam excitaram-no para gritar tão alto quanto lhe foi possível…
- Viva a Federação Livre dos nossos povos de África, da Europa e das Américas, que hoje aqui declaramos unidos para sempre!
- Juramos nunca deixar de trabalhar unidos como um só corpo e uma só alma!
- Juramos levar a nossa fé a todos os nossos povos de boa vontade!
- Viva a UL, Universidade negra e branca que nos inspirará sempre!
- Viva a UL! Viva!
…
Em resposta, aplausos que ameaçavam não parar, tal o entusiasmo suscitado pela eloquência apaixonada do orador…
Estava selado o pacto cujo eco retumbaria nos dias e tempos seguintes de Lisboa e Porto a cabo Verde e a Kinshasa, Luanda, Lumumba, Maputo, Tshombé, Cabora Bassa e Pretória.
Sem deixar indiferente nem sequer o Brasil, mas apenas os brasileiros mais fechados nos limites geográficos gigantescos que lhes foram e são próprios. Que de facto pareciam ensurdecê-los para realidades novas no espaço Lusíada, que sempre se lhes afiguravam ameaçadoras ou estranhas à sua indiscutível e indiscutida grandeza. E não se diga superioridade, desde agora; é só de grandeza que pode e deve falar-se. Só irresponsáveis não compreenderiam ou fugiriam a compreender.
A.C.R.
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2008/01/02
Memórias das minhas Aldeias
Esquecimentos da História
Parte VIII – N.º 15
ENTENDERAM QUE PODIAM GOVERNAR UMA POTÊNCIA…
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Uma nova potência mundial…
Os partidos políticos supostamente beneficiários mal podiam acreditar.
Alguns deles – da zona de influência, sobretudo, do PC e do PS – pensaram que era altura de tirarem tudo a limpo, principalmente para definição das suas estratégias próprias.
Também gostariam de saber ao certo quem andava a reboque de quem.
Tanta coisa que se afigurava estar a escapar-lhes, confessavam entre si, sem complexos nem reservas!
Rufino, que se apercebeu da relativa desorientação, sugeriu que os partidos de esquerda dos vários governos mandassem os seus representantes a uma reunião limitada, em que participariam igualmente os três elementos fulcrais da UL, na Europa e em África.
E sugeriu Kinshasa para ponto de encontro.
“Ordem de trabalhos?” – perguntaram a Rufino dois ministros comunistas do governo em exercício em Lisboa, que o seu partido tinha designado para o representarem na conclave de Kinshasa.
Rufino passou-lhes um papel para as mãos, com que eles se apressaram a refugiar-se a um canto para discuti-lo, convencidos de que não arrancariam nenhuma explicação ao secretário-geral da UL, tal o desinteresse e displicência com que lho entregara.
Mas funcionava, sobretudo, na reacção deles, a disciplina do partido, para a qual não se perguntava nada a quem soubesse mais que nós de qualquer assunto, sobretudo a um potencial inimigo, que ia com certeza enganar-nos.
Dialéctica marxista, da mais pura e ousada…
Ou manha georgiana rústica, à maneira de Staline, o genial georgiano rústico.
Rufino olhou serenamente para dentro de si próprio e pensou que estava a deixar-se arrastar por todos os seus velhos reflexos anti-marxistas, quase de miúdo, e prometeu controlar-se.
Afinal, aquela era gente decente com que não podia deixar de aliar-se, sem preconceitos excessivos, apenas os absolutamente necessários.
O que mais importava era o projecto essencialmente lusíada que tinham em comum e que não resultaria sem a participação empenhada e criativa deles, comunistas e socialistas, mas principalmente comunistas.
Nessa altura julgou Rufino que estava a tomar-se por mais esperto que todos os demais e tornou a rir da sua presunção de superioridade, mas sorriu, de tal maneira que os outros sorriram também, seguros de que a situação era mesmo para rir.
Rufino achou que estavam a começar bem porque era bom sinal, para começar, repetiu, não se levarem demasiado a sério, o que criava uma excelente predisposição para todas as audácias no desconhecido e sem precedentes, que tudo aquilo era e iria continuar a ser.
Quando se encontraram na República Democrática do Congo, em Kinshasa, vindos de todos os pontos do horizonte, eram mais de cem e a primeira tarefa ingente, sem exagero, foi conseguir que cada um se apresentasse com simplicidade e clareza, todos em português. Excelente prenúncio, esta primeira grande vitória de Rufino, cuja proposta a favor da língua portuguesa foi aclamada de pé, pela unanimidade dos participantes e sem necessidade de outro argumento que tratar-se da língua da Universidade que ali os juntara.
Sensivelmente mais fácil e mais rápido do que Rufino ousara esperar, de modo que muitos, para não dizer a generalidade, tomaram os aplausos à sua proposta como uma verdadeira aclamação da sua pessoa, para dirigir os trabalhos do encontro, do que o próprio também aliás não duvidou…
Diga-se, porém, que os comunistas não gostaram mas não reguilaram, enquanto os socialistas apoiaram entusiasticamente, porque não queriam nenhum comunista a presidir àquilo a que já muitos chamavam “a Cimeira”.
E, para não haver dúvidas de que ali se trabalharia em cheio pelo futuro, de muitas dezenas, mesmo umas centenas de milhões de brancos e negros da Europa, África e Américas, logo alguns acrescentaram e tornou-se regra para muitos…
“A Cimeira do Futuro”!
Ou, com mais clareza e ambição, como acabou por ser aceite por todos…
“A Cimeira do Futuro dos Três Continentes”!
Mais uma vez, quem explicou cabalmente o que os reunia ali foi o incontornável Jucelino, com firmeza, convicção e clareza de quem fora o primeiro a perceber o que se preparava e aquele que mais terá feito para que o impossível viesse a acontecer.
Foi nas palavras de Jucelino que as esquerdas presentes melhor se reviram, acreditando nele, logo ali, como o maior profeta e o maior visionário da mais formidável realização em perspectiva daqueles tempos, para três Continentes”!
A.C.R.
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2007/12/28
Memórias das minhas Aldeias
Esquecimentos da História
Parte VIII – N.º 14
ASSIM SE CONSTRÓI UMA POTÊNCIA MUNDIAL
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Não está tudo dito só porque ninguém sabia, na altura, no que podia ir dar esta embrulhada…
Quando descobriram e se deram conta do que haviam feito, aquela gente organizou-se como se fossem senhores do Mundo.
Não lhes bastava serem dos melhores no ranking mundial do futebol por nações, como portugueses…
Entenderam de súbito que podiam também governar uma grande potência política…
Nem tinham de conquistá-la, ela oferecera-se-lhes sem resistências, antes pelo contrário. Só tinham que não desperdiçar a oportunidade.
Mesmo a tentativa precipitada de que a sede da UL deixasse Lisboa, para se instalar em África ou no meio do Atlântico, em Cabo Verde, não passou disso mesmo, a tentativa dum impulso precipitado, sem ponderação de forças e recursos, materiais e humanos, a logisticazinha.
Rufino resistiu, com êxito, à primeira tentativa, mas só enquanto pôde e valendo-se principalmente dos argumentos jurídicos da prioridade da iniciativa e do voto de maiorias arduamente construídas nos órgãos sociais desde a primeira hora, mas também sem poupar os ardis indispensáveis. Mesmo os dispensáveis, que os tinha para todos os gostos e anseios…
A minoria negra pensava que retirar a sede da UL de Lisboa, para África, a faria perder as conotações “colonialistas” – chamavam-lhes eles – da Universidade quase tricontinental…
Rufino quase os convenceu de que isso era mera etiqueta para tentar desacreditar uma iniciativa sem pontos fracos, mas que alguns entendiam ter de ser desacreditada fosse como fosse.
E então ele próprio caiu na armadilha da sua argumentação. Quanto mais negava, e demonstrava o não-colonialismo da iniciativa, mais aos olhos de muitos avultava esse suposto carácter dela. Não teve outra solução, senão deixar de falar disso e propibir que se falasse. O seu grande prestígio ficou demonstrado também pelo acatamento absoluto que a proibição efectivamente encontrou da parte de todos.
Como que em compensação, Rufino teve de se deixar “levar” ainda mais completamente pelo lado “político” da rede de pólos da UL, quase aparecendo a muitos como o verdadeiro inspirador do projecto “federador” da rede universitária e principal responsável pelo rumo que as coisas tomaram, por bem ou por mal.
Na verdade… ele próprio, Rufino, teve a surpresa de encontrar-se, em certo momento, completamente envolvido e condicionado por uma opção que estava longe de ser apenas sua ou da sua iniciativa.
Foi Jucelino, o negro filho do soba, por seu lado grande beneficiário do colonialismo, quem melhor e mais rapidamente fez compreender a todos que, quanto menos se falasse de colonialismo, melhor. Para nada se perder do alcance previsto do projecto, colocando-lhe etiquetas equívocas.
Mas como os partidos governantes de Lisboa a Pretória, passando pelo Porto, Braga, Cabo Verde, Luanda, Maputo e tudo o mais, eram todos afins uns dos outros e de esquerda, de facto insuspeitos no seu esquerdismo comprovado… Foi inevitável, e consolador para os egos respectivos, que se generalizasse a ideia de que uma verdadeira governação de esquerdas, por assim dizer federadas, passara a pôr e dispor no novo Império Lusófono.
Eureka! – clamaram ao telefone os três chefes lusitanos, deslumbrados pela descoberta e simultaneamente ansiosos de revelar ao Ocidente adormecido a grandeza do seu génio inventivo, para a farsa política, que acreditavam ter recuperado do atoleiro e renovado como há muito se não via.
Nem os “gatos mal cheirosos”.
Gente, afinal, de inesperada ingenuidade!
A.C.R.
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2007/12/26
Memórias das minhas Aldeias
Esquecimentos da História
Parte VIII – N.º 13
BONS FADOS?... MAUS FADOS?...
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O primeiro alarme veio de Rufino, para Celestino Maria, que imediatamente o transmitiu a Jucelino.
“Que coisa é essa?” – gritava Rufino, exaltado, ao seu homem de confiança em África, do outro lado da linha.
“Sim, que é isso que andais a tramar tu e o teu amigo salazarista filho do soba da Lunda, metidos, ao que por aí se espalha, em projectos tolos de alta política estúpida!...
“Quem quereis vós enganar?... Quem julgais vós enganar?... Somos todos uns pataratas… E só vós gente de Olhão!
“ De Olhão, hem!
“Só vós mesmo, hem!
“Mas explica lá! Sempre quero conhecer da vossa boca, de fonte perfeitamente autêntica, que enterro andais a forjar-nos!”
Rufino tinha razões de sobra para a sua fúria.
Ele sabia como a política mata, num sopro, o mínimo laivo de humor que se pretenda insinuar em qualquer situação da vida real ou imaginária.
“Se cheira a política, lá se vai a graça toda, amigo!” – berrava Rufino, tão alto que parecia ter perdido por completo a confiança na invenção de Alexandre Bell, o diabólico inventor.
Aquilo despertou os brios de Celestino Maria.
Afinal ele era também um dos responsáveis pelo colossal logro.
Colossal?...
Não seria exagero?...
Pois se era exagero, havia que aguentar até ao fim e todos juntos!
Não hesitou, por isso, em atacar o exagero com um exagero maior.
“Pois não compreendes, Rufino?... Do que se trata é nada menos que de um plano de génio!...”
“Sim, de génio!” – insistiu Celestino Maria, como se adivinhasse o espanto do outro, pousado com todo o conforto no seu belíssimo gabinete da sede da UL, em Lisboa, no fim da linha…
“Pois não percebeis, aí em Lisboa! E nós a pensarmos que éramos nisto apenas as vossas marionetas! E afinal, vocês é que são as marionetas dos cordelinhos que daqui manejamos!... Sem sabermos! Sim, sem sabermos mas com uma arte consumada para a manipulação!”
Para surpresa sua ainda maior, Rufino respondeu-lhe com inesperada serenidade…
“Pois então… explica lá isso, muito bem explicado. Não me escondas ardil algum. Visto que não sei nada dos vossos ardis, nem vou pôr-me a adivinhar, quero tudo aqui perfeitamente contado, tim-tim por tim-tim. Não escondas nada, nem as coisas mais estranhas… faço-me entender?...”
“Fazes, claro! – garantiu Celestino Maria – Mas de facto não há nada de estranho. Só génio! – repito. Só génio puro! Génio da cepa pura. Meu também, mas sobretudo daquela cabeça incrível do nosso Jucelino…”
E prolongou por alguns segundos o silêncio, certo de levar ainda mais ao rubro a ansiedade do “Chefe”, lá de Lisboa, como em geral, entre si, todos lhe chamavam familiarmente, algumas vezes “Mestre”, embora sempre sem a mínima falta ao respeito que todos também invariavelmente lhe tinham.
Mas, em vez de deixar a conversa prosseguir, Rufino mudou de tom para corrigir…
“Não! Não digas nada. Eu não preciso. Vamos ver só de que modo a coisa acaba por estoirar!”
E sem acrescentar mais nada, desligou de pronto, como era seu hábito.
A.C.R.
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2007/12/21
Memórias das minhas Aldeias
Esquecimentos da História
Parte VIII – N.º 12
NOS BRAÇOS DA DIREITA, SOBE O PC AO GOVERNO (Cont.ªº)
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Ao passo que a UL crescia e os pólos se multiplicavam, a unidade dela consolidava e fortalecia-se, em lugar de enfraquecer.
Tudo porque, quanto maior, mais a Universidade sentia reforçados os laços que uniam as partes diversas que a integravam, sendo crescentemente evidente, para atentos e desatentos, as razões e o interesse de uma união cada vez mais sólida e segura entre todas as componentes da UL.
Estabelecera-se uma espécie de entendimento tácito, segundo o qual tudo se afigurava simples e natural a todos.
E todos tinham o sentimento da força que constituíam, ao mesmo tempo poderosa, irresistível e indestrutível.
Uma ilusão?
Para os do PC, não, porque entre os Países de língua portuguesa participantes, ou Países de fortes minorias de língua portuguesa, como a África do Sul, governados todos por governos de esquerda da mesma linha, se consumava assim, quase insensivelmente, uma unidade política informal, mas para efeitos práticos e objectivos uma realidade efectiva e concreta, apesar de não-escrita nem expressamente subscrita.
Os comunistas gostavam de acreditar ou imaginar que, por caminhos inéditos, se formara assim uma espécie de federação ou confederação política de Países da mesma língua e das mesmas raças, mais sólida e de maior alcance que outras mais formais e mais barulhentas mas, de facto, menos efectivas.
Todas as direitas envolvidas no esquema tinham também a mesma convicção e viviam igualmente satisfeitas da concretização dum projecto político indefinível, não obstante misteriosamente bem sucedido.
Com o aval e militância activa de forças bem determinadas de direita, embora sem expressão formal nessa área, o quadro político do conjunto parecia dotado de grande solidez, bastante para resistir à instabilidade política dos países abrangidos e de, com a sua cumplicidade, inspirar e animar forças de esquerda menos seguras de si e habitualmente pouco inclinadas, e mal, para grandes e firmes propostas de futuro claro e construtivo.
Aos olhos de alguns, não dos menos lúcidos, a construção não era tão artificial como podia parecer, porque, se o instrumento operacional, os instrumentos operacionais, eram efectivamente de esquerda, a batuta de facto era de direita.
Enquanto o arranjo durasse como tal, o seu futuro estava garantido! – achavam.
Estaria?
Pode um projecto desta envergadura chegar alguma vez a sê-lo, se os agentes e participantes dele não tiverem consciência plena daquilo em que embarcaram juntos, ou seja, donde vêm e para onde vão?
A.C.R.
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2007/12/19
Memórias das minhas Aldeias
Esquecimentos da História
Parte VIII – N.º 11 – NOS BRAÇOS DA DIREITA, SOBE O PC AO GOVERNO
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Assim mesmo.
Sem reticências, nem pontos de exclamação!...
Aquelas juventudes achavam-se de súbito senhoras de um… como que Império!
Vejam lá! Um Império!
Lisboa, Luanda, Maputo, Pretória, Braga, Porto, Faro, Cabo Verde… tão diversos pontos, em quase três continentes, tão dispersos fisicamente, mas unidos no mesmo projecto grandioso da mesma Universidade – do mesmo universalismo, portanto… – quase sem saberem como e quase sem se darem por isso, mas a partir do mesmo impulso, da mesma única capital de sempre…
Lisboa!
Sim, a Lisboa da sua mesma eterna vocação de outras vezes… de sempre, afinal.
Estranho?...
Nem tanto!
Estranho talvez só o facto de ser uma vocação compartilhada com um PC moribundo que tentava salvar-se, à boleia duma vocação doutros tempos, de que porventura esperava a sua regeneração e o esforçado prolongamento duma sobrevivência que nada tinha a ver com as supostas luzes dum marxismo sem raízes já e sem futuro. Ou com menos futuro ainda, nem outra salvação que a duma transfusão dum sangue que não era seu, mas, quem sabe, talvez se desse bem com os sonhos daquelas juventudes novas e pluri-raciais. Porque sem as responsabilidades de passado algum, nem nas quimeras dum futuro que nunca fora imaginado ou desejado, nem assentava noutra coisa que a fé sonhadora e tresloucada delas todas, essas juventudes novas e de várias raças.
Quando se deram conta, tinham os “tentáculos” imaginários fixados, bem fixos, naqueles pontos geográficos todos e de cada um destes já elas irradiavam à volta, nos respectivos Países, tão longe quanto lhes era possível e o bom senso e o sentido expansionista recomendavam.
Porque não havia o pólo da UL em Luanda de crescer para o Lobito ou Benguela; para o Interior angolano do sudeste ou do nordeste; mesmo até Kinshasa, na República Democrática do Congo, ou para o Catanga, onde também as colónias de portugueses ou descendentes de portugueses eram numerosas, mas sobretudo pujantes?
E porque não haveria o pólo da UL do Maputo de estender-se à cidade da Beira ou até ao Chinde, mais de mil quilómetros a norte e aproximando-se da grande área do futuro de Moçambique, entre o grande porto moçambicano da Beira e ao longo do Vale do Zambeze, até àquilo que já então estava em perspectiva e viria a ser a formidável barragem e principal fonte de energia eléctrica da Colónia, Cabora Bassa, criada por Salazar?
E porque não uma UL em Cabo Verde, não como simples pólo doutro pólo da UL, mas como uma UL de corpo e alma inteiros que, na capital ou no Tarrafal, na Ilha de São Tiago, viesse a formar a juventude do País para o destino que a História, desde muitas décadas lhe designara, isto é, de ser a melhor fonte de quadros da administração ultramarina do Império Português, a par dos próprios quadros fornecidos pela população branca do Continente?
Sim, Cabo Verde…
Como me lembro, Cabo Verde o Arquipélago da gente mais gentil e civilizada!...
Cabo Verde que honra a nossa colonização quase tanto como a construção do Brasil nos honra, para sempre. Mesmo que o seu fundamento mais sólido tenham sido a escravatura e o comércio excelentemente organizado de escravos negros, durante mais de dois séculos, através do Atlântico, para as Américas e a Europa, até à Escandinávia e à Rússia, sabe-se lá mais para onde.
Que espantoso entreposto, Cabo Verde!
Claro que a Universidade vinha mesmo a calhar bem ali.
Dificilmente calharia melhor noutro lado qualquer!
Mas… Tentemos retomar o fio à meada, que já não é sem tempo.
A.C.R.
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2007/12/13
Memórias das minhas Aldeias
Esquecimentos da História
Parte VIII – N.º 10 – JOVENS PRETOS E BRANCOS… MARCAM PONTOS
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A rapaziada – mas não poucas raparigas no meio dela – é que tomou o freio nos dentes, como comentavam os professores mais timoratos, mas bastantes também dos mais avançados, que de pressa perceberam como a desenvoltura dos jovens trabalhava efectivamente também a favor dos interesses da Universidade, como dos interesses dos futuros alunos e dos futuros professores, talvez os destes acima de quaisquer outros.
Mesmo antes de criada a Universidade, lançaram os jovens mais empenhados no arranque dela a ideia de constituírem de imediato a associação dos futuros alunos, isto é, dos decididos a virem a ser seus alunos.
Notável originalidade… talvez a primeira e melhor prova do espírito inovador… e disposto a tudo… daquela gente.
Tal ousadia deu à rapaziada um ar e estatuto de pioneiros de que viriam a servir-se abundantemente no futuro para não poucas vezes se arrogarem direitos de precedência, como “fundadores”, que poderiam ter questionado os direitos da empresa proprietária da UL e do seu nome, não fora a mão de ferro de Jucelino e de Celestino Maria, sempre alertados e postos em guarda, a partir de Lisboa, por Rufino. Que esse não perdia pitada do que se passasse na UL, fosse lá em que pólo dela fosse, cada vez mais convencido de que o essencial, naquela desmedida iniciativa, eram as questões de poder e, ao serviço do poder, as questões da qualidade do ensino e dos serviços prestados. Tal se tornou, na verdade, uma espécie de escola ou de princípio escolástico, para todos os que participavam activamente na iniciativa, fosse em Pretória, Luanda, Maputo, Porto, Faro, Braga, etc. ou em… Cabo Verde e na Baía, como também já se anunciava, apesar da manifesta oposição de Jucelino e de Celestino Maria, vá lá saber-se porquê, a que a UL pusesse para já o pé no Brasil.
Insinuavam, sem explicar, que era prematuro, apenas isso e mais nada, que a melhor forma de aprender, diziam, era que cada um aprendesse à própria custa todos os porquês.
Havia ocasiões em que a Rufino se afigurava que era megalómano, capaz de suscitar invejas e as maiores raivas e temores, frágil, portanto, aquilo que estavam a construir, para mais a um ritmo cada vez mais alucinante, talvez atingindo interesses mal definidos, mas sobretudo, até então, interesses por organizar, se não mesmo incapazes de se organizarem e de mobilizarem os meios de fazer frente ao colosso em que a UL estava a tornar-se.
Se alguma vez esses interesses se organizassem, e reunissem meios bastantes, como poderiam eles, os da UL, fazer-lhes frente e destrui-los, em tempo útil?
Rufino acreditava fundamentalmente em duas razões que lhe pareciam mais que suficientes para que a UL vencesse todas as forças adversas ou concorrentes que pudessem revelar-se:
Primeiro… continuar a avançar cada vez mais de pressa, antecipando-se a todos os que pudessem ter talento para organizar-se também, contra a UL.
Segundo…
Bem, segundo… era desenvolver a arte de chamar à iniciativa, para colaborarem no seu desenvolvimento, os melhores, os mais espertos e com mais visão de novas oportunidades, desinteressando-os de actuarem de conta própria.
Mas talvez houvesse ainda uma terceira razão para não recear pelo futuro…
Era, porém, cedo ainda para descobrir esse outro jogo, que por enquanto existia só nas cabeças de dois ou três, que mal ousavam confessá-lo entre si.
Ora esses três sabiam que, sem arriscar esse passo, nada estaria seguro em definitivo.
Mas era um passo de carácter político, bem podia dizer-se, e a política era a coisa em que os homens de acção portugueses menos se sentiam à vontade e descomplexados.
O empurrão a que não puderam resistir veio-lhes directamente dos partidos políticos, sobretudo de um deles, que na altura parecia especialmente vocacionado para assumir papel muito auspicioso na cena política nacional.
O PCP!
Talvez ninguém apostasse no que veio a acontecer, mas aconteceu.
O PCP esteve na altura, à beira de ganhar as então mais recentes eleições legislativas, a ponto de, sem a sua participação ou compromisso, não ser possível organizar-se governo viável em Lisboa, para mais que uns meses apenas.
Os partidos burgueses ficaram desorientados pelos resultados inesperados e um deles, o PS, não tardou a pôr-se em bicos de pés descaradamente, oferecendo-se para o “sacrifício” duma espécie de coligação com os comunistas, mesmo com o risco de surpreender os seus congéneres europeus.
De facto – e isto é seguro, não é conjectura ou especulação – de facto os comunistas passaram de súbito a deixar de ser diabolizáveis, ou passaram a muito menos diabolizáveis depois das derrotas dos congéneres além Cortina, na Hungria, na Checoslováquia e na Polónia, aparecendo quase como gente tratável e sem peçonha, com quem era possível, praticamente sem riscos, acertar planos de acção a médio e a longo prazo.
Na verdade, o novo governo português resultou duma coligação de esquerda e de direita, aquela representada por comunistas e socialistas e esta incarnada por uma troca de favores mantida havia tempos entre comunistas, em Lisboa, Luanda, Maputo e Pretória, e gente da UL, toda ela claramente de direita e muito poderosa, constava à boca cheia. E não era difícil de acreditar, tantos e tais eram os indícios.
A.C.R.
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2007/12/08
Memórias das minhas Aldeias
Esquecimentos da História
Parte VIII – N.º 09 – ANTI-RACISMO UNIVERSITÁRIO
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Em Pretória, África do sul, a receptividade para o projecto da UL foi superior a tudo quanto razoavelmente podia esperar-se.
O seu governo teoricamente de esquerda estava completamente aberto à iniciativa privada, mesmo em matéria de ensino, até universitário.
Nos meios da colónia de portugueses ou deles descendentes, então, verdadeiramente surpresa só foi o facto de, pela primeira vez em dezenas de anos, aparecerem portugueses continentais, bem preparados, vindos directamente da Metrópole, verdadeiramente competentes e a proporem-se investir à grande e arriscar, mais à grande ainda, em projectos inéditos, de facto inovadores e de grande alcance, ao que tudo indicava.
O êxito foi absoluto!
Não eram, em todo o caso, completamente saudáveis todas as reacções.
Também se manifestaram velhos ressentimentos de colonos que haviam sofrido os complexos de superioridade dos brancos anglo-saxões, no tempo deles, e que agora sofriam, adivinhava-se, os complexos de identidade dos negros ainda não suficientemente convencidos da força do seu papel na nova sociedade e no novo Estado de direito.
Estes eram os deslumbrados que não se convenciam da normalidade da situação, portanto pouco seguros de si e dos restantes negros em geral, temerosos no fundo de que um dia destes talvez tudo voltasse ao antigo, tão incrível tudo lhes parecia. Também é verdade que as coisas não tinham mudado tanto como lhes fora prometido…
É certo que, na sua maioria, esses resíduos da população eram de gente negra socialmente muito modesta a quem eram oferecidas prerrogativas que mal compreendiam e que, aliás, pouco proveito conseguiam tirar delas.
Que esquerdismo podia ser o do governo?
O partido dos brancos, de facto, tinha um poder real muito superior ao dos votos que recebia, pois que representava as grandes forças dirigentes da sociedade, na economia, na cultura, na ciência, na investigação, no capital, na banca, na iniciativa empresarial e associativa, mesmo nas principais religiões.
De facto, não era num partido político só que os brancos sul-africanos andavam arregimentados, mas em três: um conhecido, ou dito, do centro, outro de direita e o terceiro de extrema-direita.
O “de extrema-direita”, não se levava a sério.
O “de direita”, ninguém o levava a sério.
E o do centro tinha-se por investido da missão de representar os brancos, um partido missionário, portanto, fosse isso o que fosse, dizia-se anti-racista mas era, logicamente, o único verdadeiramente racista, por acreditar piamente na superioridade dos brancos, sem nunca o dizer, mas praticando-o sempre, incansavelmente.
Era o partido, portanto, dos grandes interesses, sem o esconder, pois que isso ninguém lho levava ou levaria a mal.
Ah! E também muito exaltadamente democrático.
Pedindo nisso meças a todos os mais partidos, mesmo os dos negros, que nunca defendiam com o mesmo empenhamento o valor absoluto do sufrágio universal, nem o dogma do valor absoluto de cada voto.
Só por isso o maior partido de negros era cada vez mais mal visto entre os estratos de negros privilegiados que iam ascendendo socialmente em número rapidamente crescente.
Receava-se, mesmo, que esses negros dominassem em breve os bunkers partidários mais tradicionalmente brancos, isto é, de origem branca mais pura.
Foi entre esses negros que a “Universidade branca” mais rapidamente conquistou adeptos e os militantes mais entusiastas.
Sem se saber como, foi assim que ela passou a ser mais conhecida.
Não por UL, mas por Universidade branca, que ser “branca” tinha para as elites negras mais sentido que ser “livre”.
Mais exactamente: ser “branca” era verdadeiramente ser livre, ou ainda mais e melhor que ser livre, aos olhos – repita-se – dessas elites negras.
Que, verdade seja dita, eram especialmente bem olhadas pelos brancos de vistas mais largas.
Aliados, brancos, em maioria, e negros, em minoria mas poderosos, conduziram rapidamente a UL sul-africana a um espantoso sucesso.
Como uns e outros estavam arreigados aos seus interesses profundos, e eram todos gente profundamente lúcida, a Universidade “branca” não demorou nada a aparecer como a menos racista das Universidades, se não mesmo a mais anti-racista do mundo inteiro…
Era pelo menos assim que Jucelino e Celestino Maria gostavam de apresentar a situação que lhes dava um gozo profundo.
A ponto de Jucelino Carvalho da Silva, o filho do soba da Lunda, já não duvidar de que o seu plano político global dera, com tudo isto, um enorme passo em frente, que talvez o tornasse já irreversível.
Ele assim o cria…
Mas não contava a ninguém, por enquanto.
A.C.R.
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2007/12/03
Memórias das minhas Aldeias
Esquecimentos da História
Parte VIII – N.º 08 – UM GRANDE ACERTO DA PROVIDÊNCIA
Por um grande acerto da Providência, a Portugal calhara, nesse segundo semestre do ano, ocupar a presidência da UE-União Europeia…
Mesmo sem a ajuda dos “gatos fedorentos”, houve situações de mais que suficiente humor.
Infelizmente, seria a última vez que a oportunidade de presidirmos nos seria dada, porque entretanto as regras para a eleição e rotatividade da presidência, no futuro, tinham sido já mudadas…
Nunca mais um Primeiro-Ministro nosso poderia voltar a gabar-se de, numa presidência de apenas seis meses, ter sido obrigado a dar quatro ou cinco vezes e tal a volta ao mundo, de avião. Para quê?... Para se mostrar aos presidentes de imensos países de toda a terra, ansiosos todos por conhecerem presidente tão efémero em tudo, menos na arte de engolir quilómetros e acertar o relógio mais de duas centenas de vezes, naqueles poucos dias de Presidente e não apenas na Europa, mas no Mundo inteiro.
Se o Camões tivesse podido prever tais feitos, como os Lusíadas teríamos saído ainda mito mais engrandecidos em glória e presunção, na Obra dele!
O “embaixador” da UL em Luanda, Celestino Maria (dos Anjos), e o agente “discreto” do governo de Luanda na UL, Jucelino Carvalho da Silva, não pensando de maneira alguma concorrer com os records quilométricos e para acertos de horas do Primeiro-Ministro, puseram-se juntos a caminho de Pretória, sem vestígios de infundadas suspeições do segundo e muito menos do primeiro.
Longe de imaginarem quem os esperaria no aeroporto, à partida para Pretória.
O próprio Primeiro-Ministro do governo de Luanda, acompanhado apenas pelo seu chefe de gabinete, que foi quem primeiro se lhes dirigiu para os conduzir à sala dos super-VIP, onde o PM os aguardava com visível nervosismo!
Queria ele – em poucas palavras – dissuadi-los da viagem a Pretória e das diligências para lançamento da UL – expressão textual do PM – “na capital do segregacionismo racista”, por antever que isso poria em risco a sua criação em Luanda, isto é, em Angola, como também no Maputo ou na Beira, porque já falara com o PM moçambicano.
Bem tentaram os dois companheiros convencê-lo do contrário… “Senhor Primeiro-Ministro, antes pelo contrário…” respondiam ambos à vez a cada um dos novos argumentos do PM, mas em vão.
A certa altura, o chefe de gabinete propôs-se, por prudência, ir mandar atrasar a partida do avião.
Dir-se-ia que o PM tinha com essa exibição do seu poder recebido um novo fôlego, logo se tornando a sua agitação ainda mais desenfreada.
Mas os dois companheiros não desistiam.
Acabavam por tornar-se evidentes a estratégia e obsessões do PM de Luanda.
O que aquilo era, a África do Sul, a seu ver, era o racismo feito figura de Estado, antes com os brancos por cima e os negros por baixo, mas agora com os brancos por baixo e os negros por cima.
Venha o Diabo e escolha! – gritavam os olhos do PM.
Racismo, fosse branco, fosse preto, não era solução para Angola! – berravam-lhe as mãos e a agitação incontida do seu corpo todo.
Mas mais…
“Aquilo não passava duma enorme ameaça imperialista! – sussurrava o homem para quem quisesse ouvi-lo – Imperialismo é tão mau o dos brancos como dos negros, meus Senhores! Não quereremos nunca ser governados pelo imperialismo negro de Pretória. Não rejeitámos imperialismo português para nos alapardarmos debaixo do imperialismo dos vátuas de Pretória!...”
“É isso mesmo, Senhor Primeiro-Ministro, é isso mesmo! Juramos-lhe que é isso que nos move! Com muitos negros e brancos a falarem português, os próprios vátuas terão de falar português também. O português será a língua comercial, cultural e do dia-a-dia de toda a África a sul do Equador! Não teremos um império negro, nem branco… Teremos só o império da língua lusitana, organizado e instalado por uma colossal rede de universidades portuguesas. É esse o sonho que vamos radicar também em Pretória, para completar a expansão maravilhosa da nossa língua!”
O PM explodiu numa grande gargalhada, mas não resistiu a desejar-lhes “Boa sorte, então!” E ele próprio os empurrou porta fora, porque os altifalantes tinham acabado de anunciar a partida imediata, dando aos passageiros apenas dez minutos para se apresentarem a bordo.
Mas foi dali que o PM angolano saiu com a teima de forçar os PM dos países lusófonos todos a referendarem o acordo ortográfico, pronto havia tanto tempo, mas ainda não assinado por alguns, por questões de lana caprina…
Iria abrir-lhes os olhos para perceberem que, também em matéria de línguas, o essencial era a política!
A.C.R.
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2007/11/30
Memórias das minhas Aldeias
Esquecimentos da História
Parte VIII – N.º 07 – APROPRIAÇÃO DUM SONHO
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Não faltavam motores voluntariosos à iniciativa.
Ele próprio, Carvalho da Silva; Celestino Maria ali mesmo em Luanda, que aquele tinha já por um camarada e no qual começava a confiar sem limites; em Lisboa, no centro geométrico do conjunto, Rufino, que nitidamente dominava e impulsionava tudo naquela máquina afinada, graças aos talentos providenciais do grupo.
Os três, como um só, sintonizados sem uma falha, uma visão em “trindade santíssima”.
Precisavam, porém, de apressar o andamento.
E ir desde já tão longe quanto fossem capazes de imaginar e empreender.
A ele tinha-lhe ocorrido uma ideia maluca… inesperadamente e sem saber como.
Maluca… mas de génio, acreditava Jucelino Carvalho da Silva.
“Temos de meter a África do Sul nisto também!”
Celestino Maria não arregalou os olhos porque não se apercebera ainda do alcance todo do projecto, na versão muito pessoal de Jucelino. Se soubesse tê-los-ia arregalado ainda muito mais e teria talvez começado a preparar-se para cortar algumas penas nas asas de Jucelino…
De facto, Celestino Maria possuía abertura bastante para todos os sonhos, mas, como Rufino, sempre afastara a África do Sul de todos os esquemas de ambos… porque com esse, ainda havia pouco, grande domínio britânico, e já futura potência africana de primeira oredem, ambos entendiam que não devia “brincar-se”, nem mesmo a “brincar”. Pelo menos enquanto não revelasse até que ponto fora ou não fora contagiada pelo modelo imperialista, monopolizador e absorvente dos anglo-saxões europeus.
Amigos sim, e respeitando-se mutuamente, mas negócios, negócios… e colaboração íntima, só com todas as cautelas e as maiores precauções.
Foi isso que Celestino Maria se apressou a tentar meter na cabeça do filho do soba da Lunda, sem explicar mais do que o estritamente necessário.
E o filho do soba, como, da sua parte, também não queria ainda explicar tudo que lhe ia na mente, por não achar oportuno, ficou-se igualmente por ali, por cálculo e não por falta de confiança.
Eram amigos, cada dia mais amigos e, por o serem, respeitavam religiosamente as sensibilidades uns dos outros.
Às vezes poderiam enganar-se no que seriam as sensibilidades uns dos outros, e aqui é que poderiam cometer erros com algumas consequências negativas mas, como diria Rufino, antes demais que de menos.
Porém, três dias depois, Rufino mandava um longo e-mail a Celestino Maria, informando-o de que pusera a questão no Conselho de Administração da UL, “com todos os prós e os contras”, mas que o Conselho decidira que se avançasse já para Pretória, dada a enorme colónia de origem portuguesa em idade de estudos universitários ali existente. “ Por muitas razões que agora seria deslocado referir em pormenor, temos de associar aos nossos projectos uma reserva assim importante de valores humanos, mas sem perder tempo”. E terminava acrescentando que, para contactos locais, deveriam pedir-se “instruções”, sim, instruções, a Carvalho da Silva!
Nada menos.
Celestino Maria não conseguiu afastar uma suspeita.
Porquê, que elementos possuía para isso ou que interesse tinha nisso o Conselho, para pôr nas mãos do filho do soba, e não nas suas, os primeiros passos do encaminhamento da UL para a África do Sul?... E logo a África do Sul!
Já Rufino e o Conselho não confiavam em si, Celestino Maria?
Como havia de descobri-lo?
E se não ligasse, se continuasse a comportar-se como se não se tivesse apercebido de mudança alguma?
Até porque… E se fosse apenas impressão sua?... Mas, nesse caso…
Nesse caso, persistiria sempre a dúvida, do seu lado. E com a dúvida a “chagá-lo”, conhecia-se bem, mais tarde ou mais cedo denunciar-se-ia. E, denunciando-se, podia, viria a instalar-se para sempre um clima de suspeição, entre todos…
Não! Não! Não!
Não podia deixar-se chegar as coisas a tal ponto!
Ou algo estava a funcionar mal consigo e dentro de si…
Pela natureza da questão…
Pensou que estaria a caminho da cura!
A.C.R.
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2007/11/28
Memórias das minhas Aldeias
Esquecimentos da História
Parte VIII – N.º 06 – CAMINHANDO PARA O FRACASSO?
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Carvalho da Silva, o negro devoto de Salazar, nunca soube como, apesar das cautelas referidas, a notícia do seu almoço com o Mestre, seguido de comício em absoluto inusitado, chegou ao conhecimento dos seus colegas da faculdade de Medicina de Coimbra.
Nos dias a seguir foi constantemente assaltado para lhes dizer como acontecera aquilo?... que “lança em África” fora aquela?... como era ele assim “à solta”?... que ingredientes lhe ministrara para assim o “virar do avesso”?... se teria acontecido por ser preto?... se filho de pai rico e poderoso?... se era boa a comida em casa dele ou uma desgraça de forreta incorrigível?… que vinhos tinham bebido?... se o ditador também ditava a vontade dele aos vinhos das miseráveis courelas que ia comprando à volta de casa, como um sôfrego avarento?... passavam eles, os vinhos, de suportáveis zurrapas?... se a D. Maria também almoçara com eles?... se ela e “o António” tinham esboçado ou deixado escapar algum gesto de ternura ou de intimidade?... se… se… se… enfim.
Aquelas línguas soltas não chegavam a irritá-lo, muito menos a surpreendê-lo, porque Carvalho da Silva desde cedo fizera o seu diagnóstico dos filhos dalgumas supostas elites sociais portuguesas e nunca mais procurara corrigi-lo, porque acreditava cegamente nas suas primeiras impressões.
Exactamente como gostava de enfrentar as primeiras impressões dos outros.
“Os portugas finalmente acordam!”
Essa era uma das mais recentes que descobrira, disfarçada de primeira impressão de tantos que naturalmente se acham no direito de julgar-nos.
O que queriam dizer era simples e até dava ideia de ser verdade.
Todos os europeus tinham abandonado as suas colónias em África sem a mínima resistência, fazendo a vontade aos negros de irem embora e abandonando tudo, menos os cordelinhos da vida económica e da arte de continuar a enriquecer explorando os recursos dos países abandonados, com a justificação moral de os terem criado.
Salvo os portugueses, tão displicentes os governos e cidadãos portugueses pareciam quanto a isso.
Mesmo as empresas que os portugueses haviam criado e, muitas vezes, grandemente desenvolvido, mesmo nessas, ou na maioria dessas, o espírito de abandono cego era quase igual.
Era por esse ângulo que Carvalho da Silva queria ver e justificar a chegada da Universidade privada dos portugueses a Luanda.
Como que era uma espécie de renúncia deles à fuga sem necessidade e um regresso às realidades e exigências de África.
Como uma reconquista!
Uma reconquista sem armas e pela força da inteligência e da simples capacidade de organização, enriquecendo os brancos e enriquecendo os negros seus colaboradores e apoios, com benefícios iguais para todos, portanto.
Carvalho da Silva pensava que a URSS já não tinha força nem alma para contrariar isso que lhe surgia, a ele, como apenas mais uma manifestação irresistível dos novos sentimentos da História.
Sem a força de apoio decidido da URSS, os comunistas locais estavam condenados a ter de mudar também.
Seria talvez fácil explorar-lhes a mudança ou, se não, dar um sentido à sua mudança, que sozinhos talvez não encontrassem…
Porque Carvalho da Silva pensava que, arrumadas nas gavetas da História as aspirações dos comunistas a salvadores da humanidade… Alguma coisa havia neles, talvez, que merecia ser salva, capaz de dar até uma espécie de justificação, tardia embora, a uma trajectória cheia de crimes mas também das esperanças de uma boa parte dos homens e mulheres deste mundo.
Para que não se perdesse tudo de tantas esperanças loucas e de tantos sacrifícios, tão inegáveis como incontáveis?
Não pôde deixar de sorrir, chegado aqui, como tantas vezes já.
Lembrava-lhe o comentário que o doutor Salazar fez, medindo as palavras para não o magoar, acreditava.
“Não pense que os comunistas… A verdade é que só nós, sobretudo como católicos, somos capazes desses balanços do positivo e do negativo da História. Para eles é tudo a preto e branco. Só entendem vitórias a cem por cento, suas ou dos outros, com as correspondentes derrotas a cem por cento também, dos outros ou suas.”
Mas ele próprio, Jucelino, não analisara nem concebera todas as potencialidades da situação, para poder ter então respondido ao Doutor Salazar, nos termos em que agora o faria e ele com certeza compreenderia e aplaudiria.
Não teve dúvidas até de que, por esses caminhos, se reabriam perspectivas de concretização segura dos sonhos maiores do estadista.
O comunismo já não era um obstáculo; havia que transformá-lo, e à sua já evidente derrota, numa ajuda inestimável…
Claro como a água mais límpida.
A.C.R.
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2007/11/22
Memórias das minhas Aldeias
Esquecimentos da História
Parte VIII – N.º 05 – UM COMÍCIO NO VIMIEIRO
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Não se sabe o que se passou lá dentro, porque nenhum dos dois contou nada, absolutamente nada. A não ser que almoçaram juntos, “o Presidente” e o filho dilecto do soba da Lunda, o qual não resistiu a revelar a surpresa do convite que nada lhe fazia prever.
Apareceram a certa altura os dois à porta de casa, onde ainda os esperavam duas dezenas de curiosos.
Houve algumas fotografias inesperadas, cujos flashes – aparentemente desnecessários, sob o sol quase radiante - mesmo assim obrigaram os visados a pôr as mãos em pala sobre os olhos, muito sorridentes.
Um dos fotógrafos era o conhecido agente Rosa Casaco da Guarda do Presidente e coleccionador zeloso de fotografias do Chefe, talvez o seu fotógrafo preferido, possivelmente sem um só insucesso registado ao longo de muitos anos.
Quantas vezes terá sido delicioso o diálogo entre Salazar e o agente Rosa Casaco, até acertarem a posição e o ângulo melhor para mais uma fotografia do Chefe, que queria que tudo parecesse muito espontâneo e com pouca pose.
Consta que Salazar gostava de se rever nas fotos melhor sucedidas que lhe tiravam.
Alguns fotógrafos tremiam no temor das apreciações dele às fotografias que lhe faziam, até que todos foram sendo proibidos de tal e Rosa Casaco ficou quase só em campo.
Daquela vez, com o seu convidado da Lunda, “o Presidente Salazar” esteve singularmente à vontade e espontâneo nos contactos.
Pena que as fotos tiradas tenham desaparecido todas.
O Presidente até se aproximou dos circundantes que imediatamente o rodearam, apesar da diligência, mal sucedida, dos agentes.
Mal sucedida, tanto que o próprio Presidente se apressou a tranquilizá-los com uma pequena mentira…
“Conheço toda a gente!” – disse alto, sorridente.
“Menos aquele ali…” - e apontou-lhe o dedo sem deixar de sorrir.
O visado, moço duns dezoito anos, corou muito e aproximou-se um pouco, enquanto dizia o nome do pai, de que Salazar logo se recordou, com o bom ouvido que lhe era geralmente reconhecido e com a memória também famosa… Mas que lhe ia já falhando, algo mais que o ouvido, de que precisava sobretudo para as reuniões do Conselho de Ministros, das quais se queixava ao Doutor Mário de Figueiredo dizendo que os ministros que ambos vinham recrutando eram cada vez mais trôpegos das falas.
“Ouve Zé… dá um abraço meu ao Pai, não te esqueças. Sabes que andei na escola com o teu avô, o pai dele?”
“Saiba vossa Senhoria que sim!” – respondeu o rapaz com um grande sorriso.
O visitante da Lunda estava de boca aberta. Abençoado “Dão” desinibidor, beberricado ao almoço! Já levava muito que contar e não esperava ouvir mais.
Mas ouviu!
O angolano da Lunda contou-o a Celestino Maria alegremente e também muito desinibido, por mérito seguramente dum excelente “Dão” tinto que também eles iam bebendo esse dia ao almoço, no então melhor restaurante de Luanda.
Salazar puxou mais para o seu lado o convidado da Lunda e apresentou-o aos ouvintes em poucas palavras, muito precisas e um tanto elogiosas para ele e para o pai soba.
“Sabem porque veio visitar-me?...” – perguntou logo a seguir.
Sem esperar resposta, explicou… não sem antes olhar para o visitante, como pedindo-lhe licença para a inconfidência.
“Com certeza! – assentiu este – Muito nos honra, a mim, a meu Pai e ao nosso Povo, a gentileza de Vossa Senhoria!”
Salazar sorriu ao de leve… Como já tinha saudades daquele tratamento antigo quase caído em desuso e, naquele dia só, já ouvido por duas vezes!
“Pois saibam – disse Salazar elevando suficientemente a voz – que o Senhor Dr. Carvalho da Silva veio aqui para renovar, renovar, digo bem, o apoio firmíssimo de seu Pai e do seu reino da Lunda ao combate de Portugal ao terrorismo em África e muito particularmente em Angola! Merece o nosso reconhecimento que ele transmitirá com certeza a seu Pai e ao seu Povo!”
Uma forte salva de palmas soltou-se inesperadamente daquele magote de gente, quase sempre tão contida e até macambúzia, como se diz que são em geral os beirões, talvez desta vez movidos por qualquer discreto aceno dos agentes da segurança.
A Censura recebeu instruções rigorosas de não autorizar qualquer referência ao acontecido, de que aliás não se encontra recordação alguma na própria gente daquela aldeia.
A.C.R.
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2007/11/21
Memórias das minhas Aldeias
Esquecimentos da História
Parte VIII – N.º 04 – OS QUE NÃO SE VENDEM
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O homem afigurou-se, com efeito, a Rufino, imediatamente após conhecê-lo e durante a longa conversa do primeiro encontro de ambos, como um extraordinário achado, uma revelação de primeiríssima água, se a conversa não iludia.
Como era possível!
Como era possível, num ambiente tão acanhado como ao fim de três semanas de múltiplos contactos, nos meios governamentais, políticos em geral e empresariais, tudo lhe parecia ser ?... Como era possível numa Angola abandonada pelos portugueses, dando-lhe a ele a sensação de o território mal saber que fazer à independência?...
Os angolanos conscientes disso parecia não encontrarem melhor tábua de salvação para Angola que as esquerdas, o que em geral descambava totalmente em confiança cega, entusiástica nos comunistas!
Quer dizer que, quando Carvalho da Silva, como confessou no primeiro encontro a Celestino Maria, já pouco esperava do comunismo internacional, soviético ou não, para os mais altos expoentes políticos que conhecera, isso ainda era e representava o futuro e a salvação de Angola…
Pior ainda que a cegueira das esquerdas portuguesas do PREC!
Que horrendo atraso mental e cultural lá tínhamos deixado! Como fora possível, não obstante uma Universidade que tanto dinheiro e sacrifícios nos custara? – perguntava-se Rufino, sem querer nem poder acreditar.
Na verdade, conversando longamente, por duas ou três vezes, com Carvalho da Silva, acabou ele por perceber que bastava o caso deste para compreender que os seus anteriores juízos, a tal respeito, eram completamente infundados ou, pelo menos, que tinham de ser corrigidos pelo formidável exemplo do próprio Carvalho da Silva.
Seria uma única e solitária excepção?
Com grande surpresa, Celestino Maria foi rapidamente verificando que, se as análises sócio-políticas de Carvalho da Silva não eram correntes ainda, pelo menos o estado de espírito que traduziam estava singularmente difundido.
Digamos que o comunismo mítico das elites angolanas mais visíveis, e ainda as mais influentes, não passava duma sobrevivência. Uma sobrevivência, de facto, como que saudosista ou reflexa apenas, dos lugares-comuns ideológicos que dez. vinte e trinta anos antes tinham alimentado o levantamento duma certa elite social negra, contra certo domínio português.
Em vez disso, ia concluindo Celestino Maria, a partir das conversas com Carvalho da Silva e os meios sociais que ele lhe abriu, o que estava a alastrar era o estado de espírito de ruptura dos novos comunistas, se tal lhes podemos chamar, com o comunismo dos “fundadores” do levantamento independentista dos anos cinquenta-sessenta.
Isso vinha ao encontro da análise de Rufino, a respeito do futuro do comunismo soviético internacionalista e mundialista.
“Os portugas finalmente acordam!” – diziam entre si alguns dos mais conscientes angolanos em Luanda e um ou outro, sintonizados com estes, no Lobito e em Benguela.
Carvalho da Silva trabalhava no ministério angolano dos Negócios Estrangeiros, em Luanda, na sede do Governo. Pareceu a Celestino Maria que em funções mal definidas ou de âmbito muito geral e vago. Uma espécie de pau para toda a obra, o que podia significar grande confiança nele, da parte dos chefes, como nenhuma confiança em particular. Pode dizer-se que não incomodava ninguém e que ninguém o incomodava a ele.
Talvez por ser filho de um soba local do interior nordestino, muito rico, dizia-se em Luanda, que fizera questão de o mandar estudar medicina em Coimbra e que exercia grande poder na sua área de influência, sobretudo pela confiança que merecia ao governo em Luanda.
Quando Celestino Maria o conheceu, o filho do soba “dos diamantes”, isto é, da zona dos diamantes de Angola, continuava a mostrar grande orgulho por ter sido recebido uma vez pelo “Presidente Salazar”.
“E na sua própria casa, no Vimieiro, pertinho de Santa Comba Dão, veja lá!” – adiantou ele ainda a Celestino, com manifesta vaidade.
“E como o povo me recebeu à porta da casa do “Presidente”, quando apareci no meu Maserati descapotável! Entrei por entre alas de pessoas que rodeavam o carro de boca aberta! A sério!...
“Valia mais, então, ser recebido uma só vez pelo “Presidente Salazar” do que ser recebido agora dez vezes, em Belém, pelo Mário Soares…” – não se coibia ele de dizer, deixando perfeitamente embaçado Celestino, que receava contradizê-lo.
Mas Carvalho da Silva tomou por anuência o silêncio e por simpatia o ligeiro sorriso de Celestino. Tanto que daí em diante não parou de inchar a sua confiança no português ido “propositadamente” de Lisboa, para se entender com ele sobre assuntos tão transcendentes como era o da nova comunidade em vista de todos os grandes Povos de Língua Portuguesa, crescendo com o ensino universitário privado, que iria uni-los a todos num só e definitivo abraço, muito apertado e inter-continental.
A.C.R.
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2007/11/20
Memórias das minhas Aldeias
Esquecimentos da História
Parte VIII – N.º 03 – A COMUNIDADE POLÍTICA INESPERADA
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Rufino pressentiu desde logo que só Celestino Maria estaria à altura de executar consigo o formidável projecto africano que estava a germinar-lhes nas cabeças e excitar-lhes as mais loucas e enternecidas ambições.
Era preciso que tudo se apresentasse sempre assim, para o exterior, tão excessivo que ninguém acreditasse no projecto ou levasse minimamente a sério os seus supostos autores e agentes.
O único companheiro lúcido e louco bastante para consigo levar, sem dúvida até ao fim, tão desvairado plano era evidentemente Celestino Maria.
O génio!
O génio de todas as audácias e de todas as deslealdades, disfarçadas exactamente de qualidades contrárias às falhas estruturais maiores da sua natureza, por força da ambição sem limites nem escape que lhe alimentavam as forças e determinavam o estilo.
Tal como a imaginação de ambos.
E o sentido das oportunidades, nos dois também, estaria à altura das ambições e das ocasiões que o destino aparentemente lhes oferecia?
E as faltas de critério mais ajustado à acção, que Celestino já mais de uma vez revelara?...
Uma coisa são ocasiões, outra são oportunidades…
Esta, a presente oportunidade, mais do que aproveitada tinha de ser construída…
Sem que, por isso, a UL tivesse de pagar o que quer que fosse às esquerdas dominantes dos Estados lusófonos que para o efeito interessassem…
Já decidira que seria assim e explicou porquê a Celestino Maria, que concordou alegremente, até porque Rufino lhe prometeu que aquilo que a UL poupasse, dum lado, teria de ir, doutro lado, para os bolsos dos que arriscassem presente e futuro pessoais onde mais ninguém arriscava, eles próprios, portanto, mas também uma mão-cheia de outros, no Continente, nas Ilhas e no Ultramar.
Uma mão-cheia ou duas, talvez três ou quatro, sublinhou Rufino, entre brancos, pretos ou mulatos, mesmo “canecos”, desde que classificados como peças fundamentais ou decisivas da múltipla do xadrez novo que dali em diante iria jogar-se no tabuleiro colossal de dois ou três continentes.
Classificados de peças fundamentais ou decisivas por quem?
Pois por quem havia de ser?
Por um júri constituído pelos dois mais criativos, decididos e competentes jogadores desse xadrez e mais conhecedores das regras e objectivos desse xadrez divinal, de que apenas os dois manobrariam naturalmente não só os peões do jogo, mas todas as demais peças, sobre o tabuleiro inter-continental, em verdade predisposto pela História para os feitos das sucessivas gerações dos portugueses de mais fibra.
Ficou assente que Celestino Maria faria as necessárias abordagens numa primeira viagem a Luanda, Benguela e Lobito, tendo sobretudo em vista suscitar empatias favoráveis ao projecto. Sem esquecer, claro, que a Universidade criada pelos portugueses nos anos sessenta, com a fuga, depois da descolonização, dos professores idos de Portugal, entrara no caos e logo a seguir numa massificação em nexo que praticamente a paralisara.
Não constituía a Universidade pública de Angola, por isso, concorrente significativa para o pólo da UL a instalar, mas deixara uma triste fama e um desprestígio de que a UL dificilmente se livraria, sem grande decisão e audácia, discreta mas sem limites.
Celestino Maria telefonou de Luanda a Rufino verdadeiramente desanimado com o panorama de desconfiança generalizada, em Angola, contra o ensino universitário dos últimos anos!
“Mas isso pode ser formidável!” – exclamou da outra ponta da linha o indestrutível Rufino.
“É talvez o caso de dizermos que, quanto pior, melhor pode vir a ser… Pensa bem. Se encontrasses aí uma Universidade cheia de prestígio, e de alunos satisfeitos... Isso é que seria uma concorrente perigosa, talvez invencível e insuperável. Não haveria lugar para a UL. Assim, todo o campo é nosso. Tudo o que fizermos será infinitamente melhor que tudo que existe ou venha a existir aí nos próximos tempos. Só nos falta quem possa ajudar-nos a ocupar rapidamente o terreno e bem!”
“Olha! – acrescentou – Mando-te o nome, currículo e contactos para alguém que já me recomendaram como pessoa ideal com quem podes aconselhar-te. É de toda a confiança. Guarda segredo, por enquanto. Mas procura-o antes de formulares juízos definitivos. Garantem-me que está ansioso por ser-nos útil. Não te esqueças de agir com toda a discrição! Cuidado com as várias “secretas”. Sei que estão por toda a parte, mas os agentes delas podem ser neutralizados por aquela forma de que muito falamos aqui… Não poupes! Mostra todo o nosso poder e a grandeza das nossas intenções! Bem. Adeusinho!... E dá notícias frequentes! Não poupes nas chamadas! Quero notícias todos os dias. Também sabes como evitar as escutas. Aplica as regras sem receio, nem perdas de tempo. Adeusinho!... Ah! Ainda outra coisa. Não esqueças que do Governo não precisamos senão que nos deixe funcionar legalmente. Mostra-lhe as leis de cá para se inspirarem. E que nos assegurem uma base suficiente de alunos, bolseiros com propinas pagas pelo Estado… Agora é que é mesmo. Adeusinho! Queres que diga alguma coisa à Cecília?... Não?... Ora adeusinho, então!”
E desligou finalmente.
A.C.R.
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