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2007/07/17

“Quatro anos depois” 

Encantado por se ter lembrado do 4º aniversário do Aliança Nacional, prezadíssimo Manuel Azinhal.

O seu xi-do-coração vai-nos direito mesmo ao centro do alvo, mas é tiro de vida e ânimo para continuarmos, gratos e Amigos e companheiros de quatro anos de blogosfera.

Como também o
Francisco Múrias e o Corcunda.

Qualquer omissão é absolutamente involuntária.

Saudações fraternais para todos.

A.C.R.

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2006/08/02

Aniversário de Manuel Maria Múrias 

Faria ontem 78 anos, como seu filho Francisco oportunamente lembrou no blogue dele (“O Povo”).

A melhor homenagem que me é possível prestar-lhe hoje é recordar pontos da sua biografia que pessoalmente vivi com ele e que reuni num longo texto, pouco depois da sua morte editado pela Nova Arrancada e também arquivado neste blogue, em
Outubro de 2003.

Indico-o aos mais novos frequentadores da blogosfera e a outros que nunca o tenham lido, porque Manuel Múrias foi, com certeza, um dos cinco mais extraordinários Portugueses que conheci pessoalmente nestes sessenta anos de observação atenta da vida nacional.

A.C.R.

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2006/06/01

Porque somos odiados pelos
Nacionalistas zoológicos… 

Sobretudo os nacionalistas católicos.

Não é por sermos católicos mas por pertencermos à enorme força dos que no mundo defendemos os valores cristãos.

Antes de todos, para o caso, o valor de que os homens nascemos e somos iguais, sem excepções.

Isto é, principalmente sem diferenças que distingam e privilegiem a estirpe ou as estirpes, mal disfarçada subtileza sob que passaram a tentar esconder o seu racismo, chamando-lhe identitarismo.

Fora esses “estirpadores” – falsos nacionalistas portugueses, porque acabam sempre a revelar-se essencialmente “patriotas” germanistas – as reflexões de vários bloguistas nas últimas semanas ou meses têm definido duas tendências portuguesas de nacionalismo, sobretudo à volta da ideia de “nação como valor supremo na ordem natural” e de “nação como projecto”.

Soube-se de a primeira receber entusiásticos aplausos de certos nacionalistas zoológicos e soube-se de a segunda ser silenciada como se não existisse.

Penso que os primeiros não perceberam o que aplaudiam e penso que os silenciadores da tese da nação como projecto apenas preferiram não levantar ondas, se é que perceberam coisa alguma.

De facto, falar em valores da ordem natural implica reconhecer a existência de valores de ordem superior e sobrenatural.

Esses valores foram e são, no caso português, sempre de origem religiosa e cristã-católica, dado o papel fundador, repito, fundador, que o catolicismo teve no nascimento – e projecto – da nação e do Estado portugueses.

Os valores cristãos são consubstanciais do Estado-Nação português. É natural, pois, que os nossos “nacionalistas” germanizantes queiram ignorar ou repudiar o Cristianismo que lhes afronta os propósitos realmente desnacionalizadores.

Mas quem os não topa?

Não, com certeza, quem distingue valores naturais e valores sobrenaturais; nem também quem fala de nação como projecto, com certeza não amarrado à suposta etnia dum instante que nem sequer se sabe qual seria, a não ser se determinado por um qualquer imobilismo arbitrário.

São reflexões, como sabem, que vêm de longe, mas que agora pude reforçar lendo o que na blogosfera me foi dado ler, especialmente do
“Manuel Azinhal”, do “Corcunda”, do Francisco Múrias.

Podereis todos observar erros, aqui, mas não incitações ao crime.

A.C.R.

P.S. Desculpem os Autores acabados de nomear, se lhes parecer que apresentei as suas teses um pouco abstractamente. Sei que nenhum de nós se contenta com abstracções e que todos nós fazemos o nosso melhor na análise do concreto histórico e actual do nacionalismo. São campos minados por muitas suspeições e preconceitos, mas que remédio senão enfrentá-los, para que não se venha a dizer também de nós que somos igualmente bolorentos.

A.C.R.

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2004/02/23

Para o nosso balanço do Nacionalismo Português. (XIII) 

Hoje falamos de mudanças que o “28 de Setembro” trouxe.

(continuação do post de 2004/02/20)

O estado de espírito que viria a gerar o “28 de Setembro”, por parte da Direita portuguesa, foi sem dúvida o de um grande optimismo, por isso, talvez, pouco reflectido, como deixei escapar no poste anterior.

A “Direita” spinolista julgou chegada a hora do seu triunfo e atirou-se de cabeça, com poucas precauções.

A esquerda comunista ou satélite, por seu lado, não tinha ainda verdadeiramente dado a medida da sua força e da sua determinação, nem tinha ainda dado, como veio a dar, por fim, a medida do seu desespero suicida.

Ambas foram precipitadas.

A composição do equilíbrio de forças que havia de permitir, enfim, de algum modo, estabilizar politicamente o País, não passava pelo triunfo nem de uma, nem de outra.

Se quiséssemos usar uma linguagem cinegética, poderíamos dizer que o Gen. Spínola funcionou no pós-25 de Abril, até ao fim do PREC, como uma espécie de negação da Direita portuguesa.

Inconscientemente, em todo o caso, mas talvez porque essa fosse a grande vocação do Gen. Spínola, tudo aconteceu como se a Direita acirrasse o General, atirando-o sucessivamente para o campo de caça da esquerda e dos comunistas, que aí acabaram por apanhá-lo, reduzindo a pouco o seu peso político.

Foi no 28 de Setembro e foi no 11 de Março.

A verdade, porém, é que essas datas, se ficaram como as grande vitórias da esquerda comunista ou comunizante, de tal modo a obrigaram a excessos políticos e de violência que a desgastaram e esgotaram para outros combates mais decisivos. De facto perdeu-os essa esquerda por estar já muito enfraquecida, dos seus excessos anteriores, em que usou e abusou das forças próprias, até à exaustão, ao mesmo tempo que a não-esquerda se tinha entretanto organizado melhor e reunido forças mais disciplinadas, lúcidas e promissoras.

As derrotas do Gen. Spínola, das duas vezes em que provocou a esquerda em terreno aberto, no 28 de Setembro e no 11 de Março, deram cabo dessa esquerda “vencedora”.

Saldo do balanço dessas provocações: Spínola, com as suas insensatezes, obrigou a esquerda a tais dislates defensivos/agressivos que, no fim, deixando-a esgotada pelos excessos das reacções dela (as nacionalizações, as ocupações de propriedades, a autogestão de empresas, etc.), a conduziu indirectamente à derrota.

Talvez, afinal, não tenha sido de todo injusto o título de Marechal que lhe deram....

Mas é certo que, por uns tempos, não apenas a direita spinolista, mas toda a direita ficou em estado de grande desorientação e paralisada, após o “28 de Setembro”.

Estuporada, como se diria em Português de antanho, e sem saber que fazer.

Nós, antes militantes do MPP, aceitámos o convite do PDC, como já disse, depois de uma paralisação política de quase dois meses (v. Poste XII).

Ao ligarmo-nos ao PDC, não podíamos imaginar que, sem querer nem saber, íamos juntar achas num projecto político que também acabaria por tornar-se outro foco spinolista, sujeito à atracção dos habituais abismos de insensatez, imponderação e arrogância, ao estilo da “escola” do General..

Em apenas pouco mais de cinco meses vertiginosos, de 28/09/74 a 11/03/75, o PDC estabeleceu-se como partido, atingiu o zénite de popularidade e praticamente morreu, de morte súbita.

Mas a verdade é que, pela história do PDC, como por tantas outras histórias de actividades frenéticas, mas bem fundadas, de luta contra o domínio marxista do País, em tantas frentes, depressa os Portugueses nos sentimos cheios outra vez de esperança e optimismo.

Desta vez foi tão verdade e profundo o optimismo, que a “derrota” do 11 de Março não fez mossa e, em vez de abater a resistência da Nação, foi como um impulso novo para a resistência se firmar mais sólida e mais fundo.

Nem as nacionalizações em massa abateram o País!

Como se em geral pressentíssemos que isso e tudo que as acompanhou era o erro mais grave dos comunistas e comunizantes, que havia de conduzi-los fatalmente à derrota sem remissão.

Nós, os “antigos” do “antigo MPP” e do “falecido” PDC lembrávamo-nos do sofrimento dos prisioneiros de 28 de Setembro, muitas vezes, porque sentíamos a sua ausência e a falta que faziam às famílias e ao nosso combate. Aos mais próximos de nós mandávamos, quanto podíamos, os nossas mensagens de esperança e confiança. Mas não podíamos deixar de lamentá-los sobretudo por estarem longe deste frenesim insurreccional que mais cedo ou mais tarde inverteria o sentido que as coisas tinham tomado até ao 11 de Março.

Sabíamos que era só uma questão de algum tempo.

A imensa nódoa da prisão, sem culpa formada, dos mais de mil prisioneiros políticos do 28 de Setembro, marcaria para sempre de infâmia o “regime” saído dos acontecimentos daquela data e refinado no 11 de Março.

Essa infâmia era por si só tão insuportável que o “regime” que a fizera não podia durar.

Absoluta foi, pois, a nossa alegria de ver cá fora, depois de o “regime” ter caído, os dois prisioneiros políticos do 28 de Setembro com quem mais, no MPP e no “Bandarra”, os do grupo do VECTOR tínhamos trabalhado: o José Luís Pechirra e o Manuel Maria Múrias.

Não há dúvida: o “regime” do 28 de Setembro tinha-os metido na cadeia, a eles e aos outros mil, mas foi curto: precisaria de ter metido muitos mais, talvez a Nação inteira. O PCP e apaniguados avaliaram muito mal a força de todos nós.

A.C.R.

(continua num próximo post)

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2004/02/16

Para uma resenha histórica e balanço do Nacionalismo Português moderno e pós-moderno (IX). 

Como veio a acabar o M.P.P. — Movimento Popular Português

(continuação do post de 2004/02/13)

Ao contrário do que se passou com a audiência dada pelo Primeiro-Ministro Doutor Adelino da Palma Carlos ao M.P.P., não me foi possível, na realidade, recordar com segurança quem terá representado o M.P.P. na audiência concedida pelo Presidente da República General António de Spínola, em 10 de Julho de 1974, à “delegação representativa do Movtº Federalista Português, do Partido Trabalhista Democrático Português, do Partido Liberal e do M.P.P.”, como refere o “relatório” oficial sobre a intentona do 28 de Setembro de 1974, na parte transcrita em 06 do corrente pelo blogue “O Sexo dos Anjos”.

Não se pode imaginar qualquer resultado minimamente interessante da audiência, sabido já na altura como Spínola estava a apostar tudo no Partido do Progresso e no CDS.

Não consegui sequer recordar, nem recorrendo à ajuda de alguns dos nomes que apontei antes, directamente envolvidos no M.P.P., quem nos terá representado na audiência, se audiência acabou de facto por haver.

A ter havido audiência (e não mera entrega do papel a algum secretário) e a termos estado representados, parece-nos que só poderia ter sido através do Eng.º A. Galamba de Oliveira e/ou do Dr. Manuel Braancamp Sobral.

Quaisquer outros de nós éramos insuficientemente “diplomáticos” para suportar uma audiência com o homem que todos considerávamos o principal responsável pelo êxito do assalto em curso ao Poder por parte do PCP e, portanto, o principal responsável, pela consequente destruição de Portugal que, aos olhos de muitos, era já inevitável.

Havia, porém, forças políticas de Direita e até Nacionalistas portugueses dispostos a perdoar tudo a Spínola, em nome dum pragmatismo político que não encontrava eco no M.P.P.

Se é certo que, acima de tudo, o M.P.P. transmitiu desde a primeira hora a certeza de querer e saber identificar o Inimigo no meio da confusão triunfante, isto é, o inimigo principal, o PCP, não é menos certo que sempre o MPP viu em Spínola o “inocente útil” com quem nada queria, com quem não pactuaria nunca e que considerávamos politicamente um inepto, um desastrado, se não pura e simplesmente um desastre acabado.

Com esse, nunca embarcaríamos em aventuras.

Parecia que já em Julho estávamos a palpitar os desastres do “28 de Setembro” e do “11 de Março”.

Mas não, não nos passava pela cabeça o que veio a acontecer.

Tínhamos muito com que nos ocuparmos, acções concretas lançadas ou em via de lançamento, em cujo êxito estávamos profundamente empenhados.

Íamos fazer o primeiro comício do M.P.P. entre o Povo e tínhamos escolhido, por sugestão do José Luís Pechirra, fazê-lo no Alentejo. Sim, no Alentejo, na “boca do lobo” comunista, para juntarmos os actos às palavras e darmos a prova de como não éramos de balelas, mas prontos a correr os riscos todos dos combates necessários, em que acreditávamos. Fomos ao Alentejo, admitimos por cautela o pior, não nos deram essa honra; e as coisas até não correram nada mal; teríamos até voltado em breve, não levassem os acontecimentos outro rumo, com a prisão do J. Luís Pechirra e do Manuel Maria Múrias, no “28 de Setembro”; e conseguiríamos a legalização do M.P.P., facilmente, com os milhares de assinaturas que por nosso intermédio foram mais tarde, na altura própria, para o PDC – Partido da Democracia Cristã.

Mas é cedo para falar disso, que não era previsível em Julho.

Nesse mês estávamos, o grupo do VECTOR, enquanto nos envolvíamos nas acções já referidas do M.P.P., a ajudar o Manuel Maria, com igual empenho e toda a nossa logística, a preparar a bela aventura do BANDARRA.

Não vou aqui repetir-me, mas quem queira saber ou recordar o que isso foi pode refrescar conhecimentos ou recordações lendo, neste blogue, o que escrevi na morte do M.M.M., a propósito do lançamento do inesquecível semanário e dos seus inesquecíveis três números (o “zero, o “um” e o “dois”) os únicos que a pesada mão da “censura” abrilina/comunista deixou sair.

Mas já chega por hoje, conto mais amanhã.

A.C.R.

(continua num próximo post)

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2003/11/20

PAPÉIS VELHOS 

Regista-se com satisfação o contributo de "Manuel Azinhal", no seu post de ontem com este título, para o esclarecimento de alguns pontos das minhas memórias de Manuel Maria Múrias, em particular do caso do Bandarra, bem como de alguns outros pontos da resistência ao PREC.

Mesmo tendo em conta que, relativamente ao "Bandarra", as confusões e alguns erros do "Relatório do 28 de Setembro de 1974", do MFA, são mais que muitos.

Mas isso não é culpa senão do próprio Relatório e seus autores.

Portanto, continue desenterrando esses "documentos" que, como tal, nos fazem rir e ilustram bem o rigor e seriedade de quem os lavrava.

A.C.R.

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2003/10/28

AS MINHAS MEMÓRIAS DO MANUEL MARIA MÚRIAS(III) 

António da Cruz Rodrigues

(continuação do post de 2003/10/27)


A Guerra do Golfo, os E.U.A. e os judeus

O meu rol de recordações relacionadas com Múrias é, como se vê, variado e extenso. Mas o mais singular ainda será, talvez, que nunca entre nós tenha havido o menor desentendimento ou núvem ameaçadora do clima de militante simpatia que cedo e rapidamente se criou entre nós.

Isso não nos impediu, nem quereríamos, de termos frequentes divergências amigáveis em matéria de opinião e de juízo sobre pessoas e acontecimentos.

Poderia referir vários casos, mas dou só um exemplo, por o considerar particularmente elucidativo do tipo das nossas divergências de opinião.

Era em 1991, durante a chamada Guerra do Golfo, tinha a U.R.S.S. acabado de soçobrar, desfazendo-se em repúblicas e territórios autónomos e ficando a tal ponto impotente que os E. U A. puderam lançar-se, hoje diria sem pudor, na aventura oportunista, bem calculada e bem premeditada, mesmo genialmente articulada por Bush, pai, da guerra contra Saddam Hussein, o presidente do Iraque.

Aliás, mais tarde mediocremente imitada e mais mediocremente executada por Clinton em 1998/1999, contra Milosevic da Sérvia, por causa pretensamente do Kosovo.

Múrias era por Saddam contra os E.UA.; eu contra Saddam.

Ele pretendia que os E.UA. precisavam dum lição contra a sua arrogância agravada pela vitória final na Guerra Fria, então acabada de obter com a implosão do império comunista russo; eu ainda desconfiado do súbito esmagamento da U.R.S.S., não queria consentir nenhum trunfo que eventualmente permitisse, por então, a recuperação comunista, como poderia acontecer se os Americanos e o Ocidente ficassem humilhados na perda daquela cartada mundial. Ele achava que também Israel precisava de um bofetada bem assente, para ver se não continuava, com as suas querelas contra o resto do Médio e Próximo Oriente, a pôr ciclicamente em perigo a paz mundial, arrastando-nos a todos para uma nova Guerra Mundial, em defesa dos seus exclusivos interesses; eu pensava que os Árabes, e os Muçulmanos em geral, mais tarde ou mais cedo se encarregariam disso, de derrotar Israel sem que tivéssemos nós de comprometermo-nos, mas que, por então, prevalecia a necessidade de não deixar os comunistas recuperarem da sua derrota recente, voltando a assumir na sua periferia papel decisivo no vazio que os Americanos, uma vez humilhados, lá deixariam.

Ele rematou a discussão com uma ironia: «Só há uma coisa em que você tem razão é que assim não teremos de voltar a receber na Europa, nos próximos tempos, milhares ou milhões de judeus em fuga de Israel, caso os E.UA. percam ou não ganhem esta guerra». Ambos estávamos longe de pensar na altura quanto, passados menos de dez anos, Israel viria a estar realmente ameaçado de soçobrar a uma simples, mas complexa Intifada e o Mundo ocidental efectivamente ameaçado de ter de entrar numa guerra que pode generalizar-se, em defesa só dos interesses judaicos e limitadamente americanos.

Excluída a ironia, a discussão era, pois, toda ela muito... séria, porque, como se vê, os problemas do Médio e Próximo Oriente, conservam a plena actualidade, e cada vez mais, até. Nós que os vivemos, outra vez, agora intensamente, adivinhamos onde a discussão de há dez anos, continuada na actualidade, acabaria por levar.


Descendente de judeus - ele de portuguesíssima cultura

Mas, mudando de assunto, se me perguntarem o que me parece que melhor caracterizava a personalidade do Manuel Maria Múrias, responderei sem hesitar que era o seu profundo e enorme portuguesismo, ele que também afirmava alto a sua descendência de judeus cristãos-novos do nordeste de Portugal, pelo lado materno, Baptista, nome que igualmente usava.

Filho de um grande jornalista e escritor, erudito e historiador, o Dr. Manuel Múrias, o que intelectualmente de certo modo mais avultava na formação do Manuel Maria era a sua marca de herdeiro espiritual, seguidor, contemporâneo ou interlocutor de três ou quatro gerações duma grande elite cultural portuguesa do séc. XX.

Como que para lembrar bem as suas origens e clima em que foi criado, e as suas dívidas culturais, ele gostava de lembrar que aos onze anos já assistia com deleite às conversas entre seu Pai, comissário para Exposição do Mundo Português, e o ministro da tutela, nada mais nada menos que o Eng. Duarte Pacheco, ou, um pouco mais tarde, às tertúlias no gabinete de seu Pai, director da Biblioteca Nacional, com intelectuais portugueses e não raro o romeno Mircea Eliade e o espanhol Ortega y Gasset, o primeiro então adido cultural à embaixada da Roménia e o segundo refugiado da Guerra Civil de Espanha.

Mas isso eram apenas vagas recordações de infância, porque o que nele se revelava único e definitivo era a sua cultura toda radicada no substracto duma assídua e regular convivência e familiaridade de autores de sucessivas gerações que sedimentaram a grandeza da inteligência portuguesa no séc. XX. Estou certo de que ele evocaria facilmente estes que recordo, entre mortos e vivos, um pouco ao acaso da memória, necessariamente com as lacunas que o Manuel Maria saberia evitar: o próprio Pai, Manuel Múrias, naturalmente, Rodrigues Cavalheiro, os Caetano Beirão, Pai e Filho, João Ameal, Damião Peres, Barradas de Oliveira, Domingos Mascarenhas, Amândio César, Eduardo Freitas da Costa, Manuel Gama, Augusto Gil, Alberto de Monsaraz, Ladislau Patrício, António Alves Martins, Guilherme de Faria, Álvaro Pinto, Nuno Sampayo, Manuel Alves de Oliveira, o Homem Cristo Filho, Leitão de Barros, Cotinelli TeImo, António Lopes Ribeiro, Fernando Garcia, Perdigão Queiroga, Manoel de Oliveira, Amadeo Sousa Cardoso, Luís Reis Santos, Diogo de Macedo, Ivo Cruz (Pai) e Manuel Ivo Cruz, Luís e Pedro de Freitas Branco, Francisco Franco, Almada Negreiros, António Duarte, Leopoldo de Almeida, Raul Lino, Manuel Lapa, Júlio Gil, Marcelo de Morais, António Pedro, António Lino, Santa Rita Pintor, Jorge Barradas, Mário Saa, Teixeira de Pascoais, Leonardo Coimbra, Fernando Pessoa, Afonso Lopes Vieira, António Corrêa de Oliveira, Luís de Montalvôr, Augusto de Castro, Fernando de Sousa, António Ferro, João de Castro Osório, Fernanda de Castro Ferro, Alfredo Pimenta, José Osório de Oliveira, Armando da Silva, Virgílio Godinho, Mascarenhas Barreto, António Sardinha, Hipólito Raposo, Xavier Cordeiro, José Pequito Rebelo, João do Amaral, Eugénio Tamagnini, António Patrício, Luís Forjaz Trigueiros, Miguel Trigueiros, César Augusto de Oliveira, António de Navarro, Óscar Paxeco, Horácio Bessa Ferreira, José Pacheco, Joaquim e Anrique Paço d'Arcos, António de Oliveira Salazar, Paulo Merêa, Luís Cabral de Moncada, Mário de Figueiredo, Mário de Albuquerque, Fezas Vital, Quirino de Jesus, Arnaldo Miranda Barbosa, Gomes Teixeira, Hernâni Cidade, Tomás de Figueiredo, Francisco Costa, Mário Beirão, Nuno Montemor, Conde de Aurora, Antero de Figueiredo, Alberto Monsaraz, Pedro Homem de Mello, Francisco José Velozo, Vitorino Nemésio, Agustina Bessa Luís, Miguel Torga, Folgado da Silveira, Reis Ventura, Natércia Freire, Ester de Lemos, João Correia de Oliveira, António de Cértima, Rachel Bastos, Vítor Martins, David Mourão-Ferreira, Joaquim Navarro de Andrade, Armando Cortesão, António José Saraiva, Marcelo Alves Caetano, Luís da Câmara Pina, Silvino Silvério Marques, Kaúlza de Arriaga, D. Manuel Gonçalves Cerejeira, Guilherme Braga da Cruz, Manuel Rodrigues, Beleza dos Santos, José Pires Cardoso, Francisco Leite Pinto, Alberto Franco Nogueira, Reynaldo dos Santos, Diogo Pacheco de Amorim, José e Femando Bayolo Pacheco de Amorim, Afonso Rodrigues Queiró, Luís Ribeiro Soares, Jorge Borges de Macedo, José Dias Ferreira, Virgínia Rau, Francisco e João Manuel Cortez Pinto, Pedro Correia Marques, António de Sèves, Eduardo Brazão, Fortunato de Almeida, Fidelino de Figueiredo, A. Mendes Corrêa, Sampaio Bruno, Álvaro Ribeiro, Adriano Moreira, Afonso Botelho, António Quadros, Orlando Vitorino, Agostinho da Silva, Ruy Cinatti, José Marinho, António Braz Teixeira, Henrique Barrilaro Ruas, António TeImo, Femando Sylvan, Azinhal Abelho, Tomás Kim, José Hermano Saraiva, Pedro Soares Martinez, Henrique Martins de Carvalho, Manuel Gomes da Silva, António Manuel Pinto Barbosa, António Jacinto Ferreira, Joaquim Veríssimo Serrão, Daniel Serrão, D. Manuel Trindade Salgueiro, D. Francisco Maria da Silva, D. Manuel Mendes da Conceição Santos, D. António Reis Rodrigues, D. Manuel Almeida Trindade, D. José Patrocínio Dias, Mons. Miguel de Oliveira, Mons. Moreira das Neves, P.e Raul Machado, P.e Domingos Maurício dos Santos, P.e João Maia, P.e Joaquim de Jesus Guerra, P.e Henrique Rêma, P.e João Evangelista, P.e João Seabra, P.e José Quelhas Bigote, António José de Brito, António de Pina Martins, Ricardo Saavedra, António Manuel Couto Viana, Fernando Guedes, Manuel e Artur Anselmo, Fernando Jasmins Pereira, António Banha de Andrade, Herlânder Duarte, Jaime Nogueira Pinto, Rodrigo Emílio de Mello, Goulart Nogueira, João Bigotte Chorão, Miguel Castelo Branco, Luís Pinto Coelho, José Guimarães, Amorim de Carvalho, António Silva Resende, João Manuel Andrade, Mário Mendóça Frazão, Carlos Eduardo Bastos Soveral, Fernando Campos, Pinharanda Gomes, João Conde Veiga, Armor Pires Mota, Fernanda Leitão, Mário Saraiva, Francisco Hipólito Raposo, Barroso da Fonte, António Maria Zorro, Beckert d' Assunção, José O'Neill, José Vale de Figueiredo, Nuno Rogeiro, José Miguel Júdice, etc., etc., etc.

Herdeiro, contemporâneo ou interlocutor da gente desta pléiade de mestres e exemplos de portuguesismo, Manuel Maria Múrias era um deles e, se foi discípulo e seguidor de muitos, foi exemplo e referência dos outros, como modelo de português de uma só peça, de antes quebrar que torcer, português de lei porque bebeu o essencial da sua cultura em raízes acima de tudo portuguesas. Raízes que, aliás, iam buscar seiva aos grandes expoentes da cultura portuguesa de todos os séculos, mas, talvez mais acentuadamente ainda, aos grandes modelos de portuguesismo cultural do séc. XIX, como Eça de Queiroz, Almeida Garrett, Camilo Castelo Branco, Alexandre Herculano, Antero de Quental, Guerra Junqueiro, João de Deus, Conde de Arnoso, Oliveira Martins, os irmãos António e Jacinto Cândido...

Quero em suma dizer que o Manuel Maria Múrias era verdadeiramente, como poucos ou nenhuns, o herdeiro e devedor directo duma formidável elite intelectual e cultural portuguesa. O que lhe bastava inteiramente. Dispensava, por isso, ser ou apresentar-se como herdeiro e devedor de qualquer outra das grandes tradições culturais da matriz judaica, cristã e europeia; fosse ela espanhola, italiana, inglesa, alemã, russa ou mesmo francesa, por muito grandes que tenham sido ou sejam.


O homem de profunda fé católica

E contudo, a imagem do Manuel Múrias ficaria radicalmente amputada se, recordando-o como homem de cultura e de espírito, o não recordássemos, com igual vigor e justiça, como homem de funda espiritualidade.

Quem o conheceu, intimamente ou não, ou quem leu certos dos seus escritos, sabe como era capaz de se mostrar terrivelmente duro com sacerdotes e Bispos que julgasse no essencial traidores à tradição da Fé ou adversos a Portugal.

Manuel Maria Múrias seria tudo, menos um clericalista.

Mas sempre o conheci irrepreensivelmente fiel à sua Fé de católico, apostólico romano, ao magistério dos Papas, portanto.

No meio dos seus constantes e prolongados sofrimentos dos últimos anos ou das suas iras de sempre de Português quando ferido no seu portuguesismo, jamais o senti tergiversar na sua fidelidade a Cristo e à sua Igreja, pelo contrário.

Mas - Santo Deus! - uma capacidade como poucas para estigmatizar e cobrir de sarcasmos padres e Bispos de pechisbeque.

Por isso, porque foi, enquanto a saúde lhe deixou, batalhador temido e intemerato e sem repouso, justifica-se bem que lhe apontemos o voto sagrado, catolicíssimo e portuguesíssimo: Que Deus o tenha em Sua santa guarda!

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2003/10/27

AS MINHAS MEMÓRIAS DO MANUEL MARIA MÚRIAS (II) 

António da Cruz Rodrigues

(continuação do post de 2003/10/24)


Depois da prisão: a Rua. Sem ironia...

Quando saiu da Penitenciária, depois de quase catorze meses de prisão sem culpa formada - visitei-o lá duas vezes e continuava feroz e pronto para a blague como sempre - o Múrias vinha ansioso e pronto para novas batalhas e a transbordar da sua verve combativa, como que renovada e reciclada pela grandeza da experiência que para ele foi a prisão. Talvez de tão injusta, que por isso não o diminuiu nem na sua inteligência, nem na sua dignidade, antes pelo contrário.

Pedi-lhe que relatasse para a Resistência, que eu dirigia - quase a única e a mais duradoura sobrevivente à Revolução das publicações de análise doutrinária, de crítica e de combate de antes de Abril - pedi ao Múrias que relatasse para aí as suas experiências e meditações da prisão, tão fascinado me senti com os seus relatos orais. Ele era aliás um velho colaborador da revista.

Correspondeu por isso prontamente ao meu convite, em artigo que convido os leitores de agora a ler ou reler se tiverem a Resistência à mão, para imaginarem ou recordarem as extraordinárias impressões que causou *.

Foi ali que o Múrias renasceu para o jornalismo - e com que brilho! -
depois de libertado, antes de lançar-se, um ano e tal mais tarde, na criação, direcção e redacção da Rua, em cuja origem e vida nada tive, talvez porque andávamos ambos exclusivamente absorvidos e dominados cada um por seu projecto: ele a Rua e eu a Universidade Livre e comigo todo o grupo do Círculo de Estudos Sociais Vector e alguns convidados.

Julgo que um dos maiores prejuízos - ou crimes? - causados - cometidos? - pelo PREC foi ter sequestrado na prisão, entre Caxias e a Penitenciária, durante o longo período de 14 meses, uma parte muito importante da elite social e cultural portuguesa.

Atrevo-me a dizer que não tanto pela duração do período de prisão, e prisão sem provas nem pronúncia, mas sobretudo pelo que esse período, coincidente com o PREC, significou para a vivência nacional dos Portugueses. Sob esse aspecto, terá sido mesmo - creio firmemente - o período mais importante destes 50 anos da vida dos Portugueses como entidade colectiva nacional, agudamente consciente de si mesma, período só sobrepujado pela grandeza da mobilização nacional durante alguns anos das guerras do Ultramar.

Deste ponto de vista, o Múrias foi seguramente uma das grandes vítimas do PREC abrilino. Cuidadosamente guardado como ele dizia, em Caxias e na Penitenciária pelo pavor que os donos do PREC tinham da reacção (nacional) - talvez o maior factor da derrota final deles - o Múrias não pôde viver na carne e no convívio ombro a ombro, de todos os dias, como todos nós os que ficámos cá fora, a magnitude e o sublime dessa experiência espontaneamente colectiva, durante esses meses e sobretudo entre 13 de Março e 25 de Novembro de 1975, numa apoteose épica que atirava os Portugueses como um homem só ou uma só família, numa só e única expectativa, contra a frente comunista e anti-nacional dos partidos e organizações militares ou civis de esquerda.

Ao Múrias, como a tantos outros companheiros seus de cadeia, ficou a faltar-lhes seguramente essa experiência intransmissível para compreenderem que, finda ela, o combate que se impunha à Direita já não era o mesmo combate de antes do 28 de Setembro. Já não se impunha tanto o combate político-polémico do Bandarra, retomado pela Rua, mas outro, o combate cultural, de que a maior expressão, na sociedade civil, viria a ser - o que até hoje ninguém foi capaz de negar - a criação da Universidade Livre.

Uma constatação se impõe, porém: se a Rua foi derrotada por carência já de ambiente oportuno, a Universidade Livre também foi derrotada, ainda que pelo contrário, isto é, por excesso de receptividade ambiente. Muitos videirinhos do meio universitário entenderam a Universidade privada antes de mais como uma formidável oportunidade de negócio, e não descansaram enquanto não convenceram o Ministro da Educação a dar-lhes, duma assentada, outras quatro ou cinco universidades — que acolheram os alunos da Universidade Livre, para isso a tempo impedida de funcionar pelo ministro cúmplice — seguidas essas, nos dois ou três anos depois, de mais quatro ou cinco novas privadas.

Os tristes resultados já públicos de certas dessas universidades não impedirão de reconhecer que, seja como for e embora transformado em negócio chorudo o objectivo principal imediato da maioria das universidades portuguesas privadas, o facto essencial é que graças à incidência do ensino universitário privado, inventado pela Universidade Livre, o tendencial monolitismo esquerdista da sociedade portuguesa a seguir a Abril foi definitivamente derrotado. Por decidida opção, aliás, da sociedade civil que tão rápida e largamente correspondeu à sua criação.

Tudo visto, creio não exagerar dizendo que durante alguns anos muito ou quase tudo o que era elite portuguesa de Direita, por esta congregado ou satelitizado, esteve efectivamente alinhado à volta d' a Rua e da Universidade Livre. Mais importante que isso, porém, será reconhecer que sem o caminho aberto pela U.L. muitas dezenas, mesmo centenas de milhares de jovens portugueses não teriam tido acesso ao ensino universitário.

Sem esquecer que a U.L. foi a principal vítima sacrificada da mais feroz guerra de facções dentro da Direita portuguesa, após Abril. Outra vítima terá sido a Rua?


O polemetista: de como Manuel Maria Múrias calou Mário Sores

Nos tempos que seguiram ao fim d’a Rua, eu e o Manuel Maria recomeçamos a encontrar-nos com certa frequência. E aí por 1988, quando a Universidade Livre, vítima de muitos ódios e em especial o ódio do Ministro João de Deus Pinheiro, já me deixava tempo desocupado, e quando ele Múrias já se apresentava recuperado da queda d'a Rua, de novo cheio de criatividade intelectual e capacidade de afirmação, foi então que se me proporcionou, por razões pessoais que aqui não interessam, propor ao Manuel Maria que fizesse para nós, a Sogelivre, proprietária da U .L., um livro sobre o Chiado, que tinha ardido quase dois anos antes e era preciso "reconstruir" ou não deixar perder, no imaginário nacional.

Debatemos muito o assunto entre nós ao longo de muitas conversas quase diárias e, depois de muitas incertezas, ele acabou por decidir-se, e eu aceitei, pelo que viria a ser um belíssimo roteiro histórico, cultural e social do Chiado.

Mas, enquanto pesquisava nas bibliotecas e arquivos, com vista ao roteiro, o Múrias foi congeminando e desenvolvendo a ideia, que me propôs e eu também aceitei sem hesitar, do livro "De Salazar a Costa Gomes", que começou a escrever mal acabou o Chiado. Foi-mo "contando" com crescente entusiasmo enquanto o livro crescia e eu crescendo na certeza de estar a assistir à génese duma grande obra, talvez genial.

Tinha-se celebrado entretanto o centenário do nascimento do Doutor Salazar, em 1989. Logo a seguir, a partir de um grupo dos que, por iniciativa do Vector, nos deslocámos às comemorações do Vimieiro, em 28 de Julho, nomeadamente o Adelino Felgueiras Barreto, o Herlânder Duarte, o Manuel Arnao Metello e o José Carlos de Athayde de Tavares, a que se juntaram outros, como José Pinheiro da Silva, Francisco Ferro, Rui da Palma Carlos, Eduardo Conceição, decidiu-se criar o Núcleo de Estudos Oliveira Salazar, ou N.E.O.S..

O Manuel Maria era pouco afeito a comemorativismos e talvez ainda menos a grupismos. Não se interessou, portanto, por aí além, pelo N.E.O.S. em regime de comissão instaladora, a que presidi - mas apanhei-o distraído e consegui dele o que viria a ser, admito, um dos mais se não o mais importante estudo em defesa da personalidade de Oliveira Salazar promovido até hoje pelo N .E.O.S..

Conto a história simples.

Um dia, creio que em Abril ou Maio de 1991, ia eu a entrar ou a sair da estação do Cais do Sodré, a pensar indignado nas aleivosias produzidas por Mário Soares num artigo publicado nessa manhã no Público, quando inesperadamente dou com o Manuel Maria a sair ou a entrar, a quem logo perguntei se lera o texto insultuoso. «Li, li — disse-me — li, li aquela merda». «Pois então torne a ler e prepare a resposta que você é a pessoa indicada que temos para responder-lhe» — exigi eu em nome do N.E.O.S. «Bem, vou pensar. Não vejo para quê pegar-lhe» — respondeu dubitativo.

Mas fiquei com a certeza de que ele não falharia.

De tal modo o fez que passados poucos dias me entregou o feroz e lucidíssimo artigo que viríamos logo a publicar em forma de opúsculo e se acha hoje entre as doze colaborações do volume também editado pela Nova Arrancada, com o título de Salazar Sem Máscaras.

Em substância, defendia nele o Manuel Maria que na sua catilinada não fazia Soares outra coisa senão, meio consciente ou subconsciente, dar largas a uma espécie de complexo edipiano: atacando o Dr. Salazar, vingava-se por queixas mais ou menos recalcadas que teria contra o próprio Pai dele, o Dr. João Soares. Segundo o Múrias, pois, ao vilipendiar a memória de Salazar, o que Mário Soares fazia inconscientemente ou subconscientemente era limitar-se a matar a memória do Pai.

A verdade é que nunca mais se ouviram os tonitruantes ataques de Mário Soares contra o Dr. Salazar, de tão certeira foi a contra- ofensiva do Múrias.

Certo é que as melhores inspirações nos vêm muitas vezes dos piores adversários.

O Múrias contou-me como foi.

Mal me deixara no encontro do Cais do Sodré, quando deu com o estendal dum desses livreiros ambulantes ali costumeiros. Logo os olhares lhe terão caído num qualquer livro sobre psicanálise, que não hesitou em comprar e ler entusiasmado para concluir que a carapuça psicanalítica enfiava como uma luva no Mário Soares denegridor do antigo Presidente do Conselho.

Tive, por isso, a talvez excessiva prudência de submeter a resposta do Múrias ao parecer técnico dum psiquiatra, naturalmente seguro conhecedor dos conceitos e descobertas de Freud e seus epígonos. O já referido Dr. Eduardo Conceição, psiquiatra, por mim a tal respeito ouvido, e como disse membro do N .E.O.S., não teve dúvidas em assegurar-me que a resposta do Múrias era perfeitamente conforme aos cânones psicanalíticos.

O artigo foi um êxito.

E Mário Soares não só não voltou a vilipendiar o Doutor Salazar, como até veio a produzir alguma coisa em defesa, no fundo, de Salazar: lembram-se do célebre relatório por ele subscrito sobre a política de Salazar, durante a 2ª Guerra Mundial, em relação com a famosíssima questão do ouro dos Judeus? Será que, consciente ou subconsciente, o artigo do Múrias terá ajudado Soares a descartar-se, e airosamente, daquela alhada que lhe armaram?...
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* Números 115/116 da "Resistência" de 15/12/74.

(continua num próximo post)

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2003/10/24

AS MINHAS MEMÓRIAS DO MANUEL MARIA MÚRIAS(I) 

António da Cruz Rodrigues

Morreu no ano em que morria o século, com 72 anos, o Manuel Maria Múrias, porventura de tanto ter sido um Homem plenamente do seu tempo, tão ardentemente envolvido que andou nos nossos maiores combates da segunda metade do séc. XX.

Com o Manuel Maria, desde 1968, o ano em que pessoalmente nos conhecemos, vivi períodos diversos, todos intensos, de aproximação e amizade. Mas os sete anos de 1989 a 1995 foram de proximidade espiritual total e muito profunda, com longas conversas muitas vezes diárias, no mínimo semanais e muito apoio mútuo: sete anos que me dão jus a acreditar que o conheci como poucos.

Pelo que, como poucos, fora dos seus familiares, poderei dizer que ao perdê-lo morreu substancial parte de mim mesmo, impedida que ficou essa parte de crescer e renovar-se como se renovava constantemente no convívio com ele.


O conversador, o escritor, o jornalista

Porque era, como todos os que o conheceram sabem, um conversador incomparável e com os mais imprevisíveis rasgos de humor, com frequência derrapando em catadupas de sarcasmos sangrentos e vingativos.

Na noite do velório, quando fomos cumprimentar a família, vim cá fora abraçar o irmão Nuno e ficámos ambos muito comovidos a falar do Manuel Maria. Quando instantes depois demos por nós, calámo-nos de repente, confundidos por repararmos que sem querer tínhamos começado quase à gargalhada a lembrarmo-nos de tantas blagues e situações verdadeiramente hilariantes vividas com o Manuel Maria.

Apesar do insólito, recordar Manuel Maria daquela maneira não deixava de ser uma grande homenagem para que a sua memória espontaneamente e ternamente nos arrastava.

Esse espírito de grande humor e vivacidade crítica está presente em muitos dos seus artigos e colaborações na Imprensa. Mas também está no livro que é a sua obra mais completa e profunda e que muito me orgulho de lhe ter «encomendado» para uma editora que pensava lançar e viria a ser a Nova Arrancada: o livro é «De Salazar a Costa Gomes», a reflexão apaixonada e lúcida e a mais fascinante que terá sido escrita sobre um dos mais graves períodos de transição da nossa História.

Pouco antes tinha ele acabado o «Chiado - Do séc. XII ao 25 de Abril», que através da Universidade Livre também combinara com o Manuel Maria, com o propósito de ser um roteiro capaz de ajudar à ressurreição do Chiado, ardido em 1998, mas que o A. transformaria na belíssima história social e cultural do famoso bairro de Lisboa, que a N. A. igualmente viria a publicar.

Em 1997, propus ao Manuel Maria que organizássemos uma 2ª edição do «Chiado», revista por ele e que fosse muito ilustrada. A sua saúde, que o foi ajudando cada vez menos, impediu a concretização da ideia. Hoje lamento-o profundamente, mesmo com a certeza de que essa tentativa foi a única fracassada das várias, para não dizer muitas, em que juntos nos empenhámos.

Porque me lembro com alegria e orgulho de tantas em que fomos bem sucedidos, mesmo quando derrotados pela força de certas circunstâncias.

Foi o caso do Bandarra.

Fora o Múrias quem me deu de chofre a notícia da militarada de Abril, telefonando-me para casa às quatro da madrugada. Eu tinha publicado dois meses antes na Resistência o editorial dirigido ao Spínola, com o título «Demita-se, Senhor General!»

Diga-se que o editorial causou um grande impacto nos meios políticos da situação e que muitos consideravam ter dado mais um empurrão decisivo na demissão do general pelo governo Caetano.

Múrias, pelo telefone, não deixou de mo lembrar por meias palavras. Fossem quais fossem os revoltosos, não iriam perdoar-mo, deixou entender: «Você acautele-se! Vêm aí tempos péssimos...», desligou.

De facto, os vencedores não me perdoaram.

Mas a ele também não.

Fomos ambos dos primeiros suspensos nos respectivos serviços do Estado e proibidos de aí voltar: ele na R. T.P.; e eu no Ministério das Corporações, logo em 2 de Maio, ambos ficando a aguardar a demissão compulsiva.

Éramos peste.

Os crimes dele, a avaliar por tudo o que veio a sofrer, seriam ainda piores que os meus. Pois que eu, em processo sem direito a defesa, apenas vim a ser acusado de delitos de opinião cometidos na Resistência, principalmente o editorial publicado contra o Spínola e o artigo que depois aí escrevi também contra o homem, em Junho, a propósito do seu discurso de anúncio da descolonização que havia de revelar-se exemplar.

No fundo, eles tinham razão.

Éramos não só peste mas pior ainda, indomáveis.

O Múrias, porque nos mantínhamos sempre em contacto, sei que não parou; e eu, com alguns amigos do Vector - o Agnelo Galamba de Oliveira, o Adelino Felgueiras Barreto, o Pedro Garcia Rocha, o João Manuel Cortez Pinto e mais três novatos - no dia oito de Maio já estávamos clandestinamente, num pinhal perto de Conímbriga, a encontrarmo-nos com o velho António Sousa Machado, o Fernando Meira Ramos, o Joaquim Mendes de Vasconcelos e o Nuno Bigotte Chorão, idos do Porto, para decidirmos a criação do M.P.P. - Movimento Popular Português. Apoiando-nos secretamente e na sombra, veio logo o Henrique Martins de Carvalho, que tinha estado um mês antes do 25/04 em Lausanne com a numerosa delegação do Vector ao Congresso do Office lntemational desse ano, donde viera espantado com a força das nossas ligações nacionais e internacionais. Mais tarde lamentaria eu não ter ligado às apreciações que o Manuel Maria me veio a fazer da personagem.

O M.P.P. foi um dos primeiros «partidos» daquela vaga de «partidos» surgidos como cogumelos logo a seguir ao 25/04 - para desaparecerem aliás, em geral, com o 28 de Setembro (1974) ou com o 11 de Março (1975). Mas foi sobretudo o primeiro de todos, e muito antes de todos, a atacar frontal e expressamente o P.C.P., alto e bom som, por sinal num então famoso folheto de 16 páginas intitulado «PCP Partido Fascista», distribuído aos milhares, e em muitas dezenas de grandes cartazes afixados por Lisboa inteira, tudo a partir da sede da Resistência e do Vector, na Rua Nova de São Mamede.

Uma coisa era certa: nós no M.P.P., já em Maio/Junho de 1974 não tínhamos dúvida alguma sobre quem então era o principal inimigo de Portugal e dos Portugueses.

Mas, apesar de tanto, naqueles primeiros meses de Revolução do 25 de Abril ao 28 de Setembro, talvez o mais bonito de tudo tenha sido mesmo o Bandarra.


Como nasceu o Bandarra

Em Abril/Setembro de 1974, eu e mais dois amigos, o Agnelo Galamba de Oliveira e o José Francisco Rodrigues, éramos já os únicos accionistas e administradores que nos aguentávamos de pé e activos na Editorial Restauração, dona do semanário Debate e editora de várias obras muito significativas, de carácter histórico e doutrinário, os três vendo debandar outros e com muitas e mais antigas responsabilidades.

Como o Debate não tivesse resistido a essa debandada*, o Manuel Maria procurou-me um dia a perguntar-me se eu e a Restauração não quereríamos editar um novo semanário. Já tinha nome, Bandarra. Obtido por mim o acordo dos meus colegas de administração, respondi-lhe rapidamente que sim, desde logo pondo à disposição do novo semanário as instalações para o funcionamento da sua direcção e redacção e o pessoal que tínhamos, os inesquecíveis e mesmo heróicos e sacrificados irmãos Lopes. Com tudo isso, passados poucos dias, já o Manuel obtinha a garantia de apoio financeiro de importantes senhores da nossa praça.

Assinadas e avalizadas pelos três administradores em exercício as livranças que ficavam a garantir o empréstimo bancário facultado pelos aludidos senhores, o Bandarra pôde arrancar. Em glória, como todos sabem, tal foi a onda de surpreendido entusiasmo e jubilosa esperança que imediatamente começou a chegar-nos. Talvez não seja excessivo dizer-se que o Bandarra terá sido uma das causas da feroz reacção comunista triunfante com o 28 de Setembro. De facto, os comunas e apaniguados podiam lá tolerar aquela tão clara manifestação anti e contra-revolucionária, dum vigor como depois do 25 ainda se não vira? O 28 de Setembro é o claro desmascarar do PREC até aí mais ou menos tacteante e às apalpadelas e o Bandarra e o seu principal mentor jornalístico, o M.M.M. - grandemente apoiado pelo Miguel Freitas da Costa -, não podiam deixar de ser das primeiras e das principais vítimas do PREC. O Múrias foi para o RALIS e logo para o Forte de Caxias, ainda em 28, depois para a Penitenciária, aí permanecendo até perto do Natal de 1995, um dos últimos criminosos reaccionários da vaga do 28/09 a serem libertados; e o Bandarra, assaltadas e vandalizadas as instalações da Travessa de São Pedro (em Lisboa), impedidos pessoal e dirigentes de lá entrarmos durante meses, queimado à porta, na rua, pela populaça, os exemplares do número dois, não pôde continuar a publicar-se.

Digamos que o fracasso do Bandarra foi no mínimo, mesmo assim, uma derrota honrosa.

Algum tempo depois fui chamado a Caxias para prestar declarações. Queriam saber porquê e como tinha nascido o Bandarra. Quando me interrogaram sobre o Múrias e lhes respondi que o considerava o maior jornalista português vivo, os dois tenentes que me ouviam - tenho ideia que não passavam de tenentes, se não mesmo de alferes – olharam-me como ET's e não quiseram mais nada; puseram-se a redigir o auto de declarações, que assinei, e mandaram-me logo embora. Não voltaram a incomodar-me, nem a nenhum dos restantes administradores. Mas outros o tinham já feito ou viriam a fazê-lo, por causa da Resistência e do Vector...

Ainda uma nota curiosa sobre o rescaldo do Bandarra: surpreendentemente, nunca ninguém viria a exigir, nem aos avalistas, o pagamento das letras do empréstimo bancário à Restauração, todo gasto nos três números publicados. Coisas do 28/09 e do 11 de Março, e suas nacionalizações, que deixaram os prequianos empanturrados, incapazes de digerir e organizar as suas conquistas, ou sequer de travar o caos por eles e elas desencadeado...
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* o último número do "Debate" saiu ainda esse sábado, a seguir a 25/04/74, porque já estava na tipografia.

(continua num próximo post)

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2003/10/23

MANUEL MARIA MÚRIAS 

Fez no dia dez deste mês três anos que morreu o grande jornalista e grande Português que foi o Manuel Maria.

Continua a fazer-nos a mesma falta que sentimos no dia da sua morte, mal recebemos a notícia chegada de chofre.

Vamos lembrá-lo aqui com a publicação do texto que se segue — “As Minhas Memórias do Manuel Maria Múrias” — como homenagem que o blog lhe deve, sem nenhum favor mas com enorme saudade; e também para que um pouco o conheçam os mais novos e o recordem por instantes os mais velhos. Alguns de nós seguramente lhe devemos — ao convívio da sua “verve” espantosa — dos mais belos momentos de amizade e alegria criadora das nossas vidas.

Um abraço, Manel.

A.C.R.

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2003/10/14

NACIONALISMO ONTEM E HOJE (II) 

Comunicação ao I Congresso Nacionalista Português - Lisboa, 13 e 14 de Outubro de 2001

(continuação do post de 2003/10/13)

Prof. Dr. António José de Brito

Mas passemos para o plano do que foi outrora Portugal e hoje, por inércia, se continua a designar dessa forma, e voltemo-nos para o nacionalismo português. Eu considero que 73 e 74 foram realmente os anos do fim na fórmula extremamente feliz de um autor — Nogueira Pinto — que, depois, a repudiou e, pelos vistos, acha que este reles rectângulo multitudinário, reles partícula da Europa dos mercadores e bufarinheiros, tem algo de essencialmente semelhante com a pátria do "morrer sim mas devagar" e "por cada pedra desta fortaleza eu daria um filho."

Eu sou um emigrado do interior, que espera a morte neste território porque ser emigrado do exterior não importa a pena, pois desde 1945 está presente por toda a parte o mesmo esterco.

Nesta altura perguntar-me-ão porque estou com divagações sobre o nacionalismo dito português se já não há Portugal? Não é uma situação paradoxal?

Não, pelos motivos que adiantarei. Primeiro: O nacionalismo assenta em princípios. A forma como foram aplicados no nosso ex-país pode servir para mostrar erros e falhas que deverão ser evitados se se travar de novo o combate contra os malefícios do nosso tempo, embora sob nova moldura. Depois, saber não ocupa lugar e não é mau, perante a série de disparates intoxicadores hoje em voga, levantar o véu da verdade quanto ao passado outrora nosso. Finalmente porque a história das ideias é sempre útil para quem pretenda pensar a sua linha de conduta política. Dirão que o que vamos fazer não é história mas arqueologia? Talvez, mas é arqueologia muito superior à dos rapazinhos que afirmam que o actual rectângulo "lusitano" já estava delineado desde há quatro mil anos.

De resto será paradoxal por exemplo estudar o pensamento monárquico num povo em que a monarquia já não existe e nenhuma chance tenha de restauração? Não se tirarão ensinamentos para a instauração da Realeza noutras paragens?

Diga-se de passagem que no presente, entre nós a monarquia praticamente morreu também, pois aquele a quem caberia a posição de rei, em boa verdade é republicano porque é democrata, a república sendo a conclusão lógica da democracia. E claro que um "pretendente" republicano nunca será rei, como um ateu jamais será papa, por muito que lhe dêem tal nome. E sem rei não se vislumbra monarquia senão numa manhã de nevoeiro.

Mas voltemos ao nacionalismo português.

Numa altura em que se estava longe de se aplaudir a felonia e a deserção, agora celebradas anualmente, em garbosos desfiles de luva branca e ar marcial das chamadas forças armadas, mas em que já nuvens caliginosas se acumulavam sobre Portugal, por força de um regime execrável e das mais falsa ideologias, um grupo de rapazes resolveu pensar a pátria em dignidade e verdade. Assim surgiu o Integralismo Lusitano com Sardinha, Pequito Rebelo, Hipólito Raposo, Almeida Braga, João do Ameal, Alberto Monsaraz, Rolão Preto, etc. Começaram eles por publicar uma revista a Nação Portuguesa, constituir um movimento e ter um jornal denominado Monarquia. No primeiro número da Nação Portuguesa, apareceu um texto célebre "O que nos queremos". Aí se traça a concepção de uma monarquia de poder pessoal como condição sine qua non da sobrevivência da Portugalidade.

Mas o que os integralistas dessa época expunham era bastante mais do que esse texto dizia.

Eles desenvolviam um nacionalismo claro, corporizado, verbi gratia, nas palavras de Sardinha "pondo a nacionalidade como razão e fim de nós próprios concluímos na necessidade do Rei como elemento do seu prestígio e da sua existência".1

E não esqueçamos que, na obra de maior fundo teorético do Integralismo — Pela dedução à monarquia de Pequito Rebelo — este, depois de traçar a hierarquia ontológica-axiológica dos seres — "matéria força, organismo vivo, pessoa humana e sociedade",2 não hesitava em escrever que "a pessoa humana, constituindo parte da sociedade, é menos complexa que a sociedade", continuando mais adiante "o mal reside até, não directa e essencialmente na personalidade, mas na actualização de uma possibilidade da personalidade que é exactamente a possibilidade que tem a personalidade de persistir em si mesma não se integrando nas leis sociais".3

Como se vê, o Integralismo tomava posição universalista na questão básica "indivíduo sociedade". Dela é que decorria a sua atitude monárquica. E nem vale a pena exibir as páginas, tão numerosas elas são, em que a partir das suas concepções iniciais, deduzia uma série de negações firmes como o repúdio do liberalismo e da democracia e do período constitucional.

Sobre o Integralismo pesou a acusação de ser um plágio da Action Française. Mas não passa de um lugar comum ainda para mais falso. É patente que entre ambas as escolas há pontos idênticos, porque ambas são espécies de nacionalismo. Mas, também, aqui e ali, havia discrepâncias: no tocante ao romantismo, à Renascença, à valoração da Idade Média, à questão do direito sucessório, etc.. A hipótese do plágio ou decalque é, assim, de afastar. Sem falar que na tradição do pensamento político português existiam já vários tópicos perfilhados pelo Integralismo.

De resto, a suposição que um nacionalismo se contradiz por coincidir com outro no essencial, não tem fundamento racional. Nessa altura dois indivíduos não podiam ser, igualmente, individualistas. Adiante.

Anote-se que o Integralismo inicial foi acompanhado, desde 1915, por um escritor que jamais aderiu formalmente a ele, mas com cuja doutrina declarava estar de acordo por inteiro. Refiro-me a Alfredo Pimenta, um dos mais coerentes, mais eruditos e mais desassombrados dos pensadores monárquicos portugueses.

E não se deixe de salientar que se o Integralismo considerava pseudo monarquia a chamada monarquia liberal, condenava ainda como desvio perigoso do rumo normal da tradição, a denominada monarquia absoluta, em que as Cortes deixaram de ser ouvidas.

Quanto a nós, a monarquia desapareceu, efectivamente, em 1820 (com breve reaparecimento, no reinado de D. Miguel) mas não sofreu o desvio perigoso com um chamado absolutismo caracterizado pela não reunião de Cortes. As Cortes eram convocadas por iniciativa do Rei e que, durante largo tempo, não fossem convocadas, em nada alterava a constituição da monarquia.

Não vou aqui deter-me longamente nas vicissitudes do Integralismo. Ele, de início, aceitou a realeza de D. Manuel II, sem embargo deste, em 1914, data do aparecimento da Nação Portuguesa, não ter renegado a Carta e não ter dado sinais de se aproximar da genuína realeza.

Em Janeiro de 1919, teve lugar a Monarquia do Norte, assim chamada porque durante cerca de um mês a norte do Douro, a bandeira azul e branca substituiu aí a verde e vermelha. D. Manuel, partidário entusiasta dos meios legalitários e, aliás, pouco informado, permaneceu alheio à revolta.

O Integralismo, depois da vitória do regime republicano escolheu o momento para formular um Ultimato ao Rei exigindo que repudiasse a Carta e adoptasse a doutrina tradicionalista. Como aquele não aceitasse a exigência, os integralistas desligaram-se da obediência a quem, até então, acatavam como soberano e aclamaram rei o descendente D. Miguel, D. Duarte Nuno de Bragança (a seguir a várias abdicações), uma criança ainda que ficou sob tutela da Infanta D. Aldegundes.

Monárquicos houve que, aderindo aos princípios integralistas, achavam descabida a imposição feita a D. Manuel. Por exemplo Alfredo Pimenta.

Em 1922, celebrou-se o Pacto de Paris, entre o ramo miguelista e o ramo manuelista. D. Aldegundes em nome do Sr. D. Duarte, reconhecia a realeza de D. Manuel. E estabeleceu-se que a futura constituição seria da competência das Cortes.4

Os integralistas repudiaram o Pacto considerando-o, e bem, uma pura expressão de parlamentarismo, usando até António Sardinha a dura expressão "atraiçoados por uma infanta de Portugal".5

Nessa altura, o Integralismo Lusitano dissolveu-se enquanto organização política, apenas ressurgindo quando o Pacto foi denunciado por D. Aldegundes, em 1925. Já então morrera Sardinha.

Entretanto, após algumas tentativas infrutíferas, os integralistas manuelistas estruturaram-se num grupo sólido, que foi a Acção Realista Portuguesa, em que Alfredo Pimenta era vulto destacado e onde se salientaram Caetano Beirão, João Ameal, Fernando de Campos, António Cabral, Luís Chaves, Ernesto Gonçalves e outros.

Depois do 28 de Maio, um dos fundadores do Integralismo, exilado no Brasil, a seguir a 1919 — João do Amaral —, regressou e fundou a Liga de Acção Integralista, a que aderiram a Acção Realista e uma série de Integralistas da nova geração. Nesse período agitado, em que as tentativas de golpe abundavam, uma série de oficiais, ligados à referida Liga, falharam na imposição das suas directrizes, arrastando-a na débacle. Permaneceram a Acção Realista, tal como os velhos integralistas.

Dois acontecimentos marcaram o nacionalismo português a seguir — a entrada de Salazar, em 1928, para o governo, na qualidade de ministro das Finanças, onde o prestígio, em breve adquirido, permitiu-lhe proferir, em 1930, o chamado, impropriamente, discurso da Sala do Risco em que manifestou a intenção de imprimir à conjuntura castrense da época uma orientação nacionalista, anti-liberal e antidemocrática, mas fazendo abstracção da monarquia e, por outro lado, em Fevereiro de 1932, o aparecimento do jornal Revolução que, em Maio do mesmo ano, passou a ser dirigido por Rolão Preto, iniciando-se assim o movimento nacional-sindicalista de que Rolão assumiu a chefia e Alberto Monsaraz o cargo de secretário "geral". Tratava-se de dois integralistas que, não esqueçamos, se tornavam dirigentes de um partido nacionalista, mas igualmente alheio à ideia monárquica.

O nacional-sindicalismo tinha todos os aspectos exteriores do fascismo — camisas azuis, saudações de braço estendido, etc. Salazar, esse, nas suas célebres entrevistas a António Ferro, acentuara o que o aproximava do fascismo mas também o que o separava, sendo sempre insistente no seu repúdio activo do totalitarismo. O órgão jornalístico do nacional-sindicalismo foi — juntamente com o Comércio do Porto, não se sabe por que carga de água — o único em Portugal a celebrar a subida ao poder de Hitler.

Mas, à parte as manifestações folclóricas e a celebração referida, o nacional sindicalismo pouco tinha de genuinamente fascista, como aliás mostraremos adiante.

Claro o choque destas duas tendências, dentro da mesma política parecia inevitável. O nacionalismo como que estava numa encruzilhada: ou optar por uma alternativa de direita conservadora, meramente fascistizante, ou por um fascismo integral e radical. Mas, na nossa opinião semelhante alternativa não passa de uma aparência ilusória. Quem lê os textos de Rolão e o diário Revolução nada encontra de substancialmente totalitário. Mais: em 16 de Julho de 1933, num discurso no teatro S. Carlos, ele proclama "nós estamos para além do fascismo que é a escravidão do homem em proveito do Império".6

Em Novembro desse ano reúne-se o Congresso nacional-sindicalista para se debater a posição face ao Estado Novo. Rolão Preto, Monsaraz e bastantes outros manifestam-se a favor da plena independência, do estar de fora, ao passo que Manuel Múrias, Supico Pinto e muitos militantes se manifestaram a favor do regime.

A cisão ocorreu e, enquanto a Revolução era suspensa aparecia a Revolução Nacional dirigida por Múrias.

Em Julho de 1934 surge a célebre nota de Salazar convidando os nacionais-sindicalistas a ingressar na União Nacional, os que o não fizessem passando a ser considerados indiferentes ou inimigos.

Em 1935, os nacionais-sindicalistas da obediência a Rolão Preto mancomunaram-se com elementos da anti-nação num golpe de estado fracassado contra Salazar e, no ano seguinte, Rolão Preto publica o livro Justiça, dedicado à memória de seu bisavô deputado às constituintes vintistas e do filho deste, cúmplice dos assassinos dos lentes de Coimbra que iam prestar homenagem ao rei legítimo. E dedica-o com estas palavras "ao seu alto sonho de liberdade".7 No volume abundam os elogios "aos direitos de livre crítica"8 à "independência dos poderes do Estado"9 bem como os ataques à censura que a "Revolução não pode aceitar porque não aceita nenhum limite para as liberdades espirituais"10 e por aí adiante.

Em obra intitulada A Revolução espanhola não deixa de agredir o fascismo. Em Para além da guerra, de 1942, em plena cruzada das democracias, prudentemente não toma atitude clara, tendo a pitoresca conclusão que, com a guerra, o homem concreto "compreendeu… como será vã toda a justiça que não assente no respeito da pessoa humana porquanto toda a pessoa é sagrada".11 Só que as pessoas, pelos vistos, sagradas de Hitler e Mussolini, já em 1945 no estudo Traição burguesa são classificadas de "tiranos".12

Quanto ao resto, nem vale a pena falar. O que ainda se aponta como chefe fascista português esteve ao lado do pobre demagogo Humberto Delgado e deu o seu aval à traição abrilina, presidindo um dos seus partidos — o P.P.M. Para chefe de movimento fascista não está mal!
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1 António Sardinha, Na feira dos Mitos, Lisboa, Gama, 1942, 2ª: ed., p.3.
2 Pequito Rebelo, Pela Dedução à Monarquia, Lisboa, Gama, 1945, p.13.
3 Pequito Rebelo, Idem, p.27.
4 António Cabral, El Rei D.Duarte II, Lisboa, Francisco Franco ed., 1934, p. 75.
5 António Sardinha, A Prol do Comum, Lisboa, Férin, 1934, p. 26.
6 Cit.por José Plácido Barbosa, Para além da Revolução… Revolução, entrevistas com Rolão Preto, Porto, 1940, p.127.
7 Rolão Preto, Justiça, Lisboa, sem menção de editor, 1936, p.1.
8 Rolão Preto, Idem, p.95.
9 Rolão Preto, Idem, p. 91.
10 Rolão Preto, Idem, p.98.
11 Rolão Preto, Para além da guerra, Lisboa, Gama, 1942, pp. 113-114.
12 Rolão Preto, A traição burguesa, Lisboa, Pro Domo, 1945, p.162.

(continua num próximo post)

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