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2007/04/30

Memórias das minhas Aldeias
Esquecimentos da História
Parte V – N.º 08 

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António foi direito ao seu destino, para logo saber por vizinhos, a modos de fazerem fila à entrada do casarão imponente do comendador, que este continuava em gravíssimo perigo de vida, sendo pouquíssimas as esperanças de salvar-se, segundo uns tantos; poucas, segundo alguns; e nenhumas, de acordo com larga maioria.

António ousou, por isso, bater à porta entreaberta e entrar meio decidido.

Veio ter logo com António uma senhora jovem que ele não duvidou fosse a esposa, terrivelmente abatida mas de beleza impressionante, mesmo assim. E que não deixou de conservar a serenidade suficiente para dizer ao visitante que tinha a certeza de conhecê-lo, embora nunca o tivesse visto. E explicou que o marido lho tinha descrito havia umas duas semanas, com tanta fidelidade, que ela não duvidara, ao vê-lo ali, tratar-se da mesma pessoa. Ele teve de vencer alguma perturbação para dizer-lhe ao que vinha, lamentando fazê-lo em tão tristes circunstâncias. Verdadeiramente, sentiu-se a improvisar os primeiros floreios, em sociedade, da sua vida, sem perceber donde lhe vinha a súbita inspiração e o à vontade ainda mais surpreendente para assegurar-lhe que voltaria em ocasião mais propícia a não causar incómodo a “Vossa Excelência nem ao Senhor comendador”.

Sentia-se como se nunca tivesse feito outra coisa na vida e também isso, estranhamente, lhe trouxe à mente, naquele instante, a recordação das trincheiras.

- Venha vê-lo! – disse-lhe a senhora, num tom em que a ele pareceu ver um certo empenho, como se da sua visita ela esperasse algumas melhoras para o marido.

Com grande surpresa, António achou o doente completamente inconsciente e sem reconhecer ninguém ou fazer qualquer movimento, “em estado de coma”, explicou ela.

Mas também disse a António que iria entregar-lhe uma carta para si, escrita havia uma semana, que o marido guardara numa gaveta da cómoda, para ser-lhe entregue, pedira ele, logo que António a procurasse ali em casa.

Como António hesitasse se havia de abri-la ali mesmo, ela levou-o para uma sala de visitas – luxuosa como jamais ele vira coisa assim – mas no último instante ele arrependeu-se e saiu à pressa, mal se despedindo e explicando atabalhoadamente, numa súbita ansiedade indisfarçável, que não queria incomodar, que iria ler a carta em sua casa e… responder “em sossego”.

Ele não confessaria a si próprio – nem à mãe – que aquela mulher, na sua dor e na sua beleza e sofisticação, como nunca vira outra, nem tão perto, o perturbava cada vez mais irresistivelmente.

A carta – soube-o ainda a meio do caminho para casa, pois não resistiu a parar para abri-la – a carta era essencialmente e apenas uma carta de chamada escrita e carimbada por um congolês de Vila Nova de Tazem, em passagem de “conforto” por Portugal, que garantia emprego a António nas suas feitorias do Congo e se responsabilizava pela viagem de regresso de António a Portugal, em caso de insucesso da sua estada lá, bem como pelas despesas do seu tratamento e sustento em caso de doença que o retivesse no Congo, antes de poder regressar a Portugal ou à normalidade de exercício da sua profissão.

Acompanhava a carta de chamada uma outra carta, longa, do comendador Gomes explicando o que António deveria fazer com aquela e pondo em relevo a importância do serviço que o africanista de V.ª Nova de Tazem lhe prestava, pois que, depois da guerra, os negócios demoravam a retomar e poucos comerciantes aceitavam arriscar tanto por ele, António, como o que o africanista seu amigo arriscava.

Não deixava o comendador de enaltecer também os seus próprios méritos, porque dissera maravilhas de António ao outro, que nele, comendador, confiava cegamente, como em mais ninguém, porque não tinha nada de… trouxa.

O comendador morreu passados apenas poucos dias.

Começou então a falar-se mais abertamente do que se teria passado ou não.

Mas abertamente, abertamente só depois que a viúva deixou a Lapa, para raramente lá voltar, indo instalar-se na bela e rica casa que o marido comprara em Coimbra, numa lindíssima e conhecida quinta à beira do Mondego.

Lá viveria mais quarenta anos depois da morte do marido, diz-se que na mais perfeita solidão e tranquilidade, salvo uma que outra ameaça, às vezes muito perturbadoras e insistentes, de grandes inimigos que ele criara.

A.C.R.

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