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2007/02/13

Memórias das minhas Aldeias
Esquecimentos da História
Parte III – N.º 16 

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“Zaire acima!” é agora o lema de Stanley.

E consegue transmitir a Manuel Cruz o seu próprio entusiasmo.

“Vamos refazer a viagem do vosso Diogo Cão, em 1484! Faz daqui a dois anos quatro séculos. Se calhar não te tinhas ainda lembrado!... Sabias que ele subiu o rio nas suas naus, até aos primeiros saltos que encontrou?...”

Manuel olhou-o a sorrir daquela facilidade para a manipulação da História que Stanley agora parecia apostado em demonstrar-lhe, sempre de modo extremamente lisonjeiro para Portugal, que ele não queria beliscar de modo algum, pois de muitos modos percebera que Portugal era o ponto mais sensível da personalidade de Manuel, tanto ou mais que o seu arreigado catolicismo.

“É cá uma fé minha! Olha Cruce, aposto que o teu Diogo Cão deve ter espalhado, rio acima, outros padrões além daqueles de que os vossos historiadores falam. E se fôssemos à descoberta deles?...”

Estavam sentados do lado de Cabinda, num penedo na margem direita do Congo, donde se avistava Matadi em frente, na margem esquerda do rio.

Vista pelos seus binóculos, parecia a Manuel Cruz que a povoação crescera desmedidamente desde que lá estivera, vinte e poucos anos antes, ainda ao serviço do comércio de escravos. Pensou que gostaria de ver onde ancoravam os vapores da carreira que então João Nogueira e os filhos estavam a preparar-se para inaugurar, lançada com o primeiro vapor comprado pelo Comendador & Filhos. Mas em Boma tinham-lhe dito que sim, que estava a funcionar na perfeição e bem próspera.

Ouviu ele, a esse respeito os comentários grandiloquentes de Stanley, o qual da sua viagem de exploração anterior, terminada confusamente em Boma, parecia ter adquirido ideias muito precisas da geografia do Congo.

“Tu imaginas a grandeza deste rio?... Não, claro, é impossível fazeres ideia. Numa grande região de lagos, a mais de dois mil quilómetros daqui, em linha recta para leste, nasce o Congo num dos maiores desses lagos, que vi com os meus olhos! A latitude geográfica da nascente foi pela primeira vez calculada pelo meu inesquecível Livingstone, que lá fui encontrar completamente perdido e me recebeu como se visse o próprio Deus! O Congo sai dali direito ao Norte, atravessa o Equador, caminha para Oeste, inflecte para sul, atravessando o Equador pela segunda vez, até chegar à foz, entre Cabinda e Santo António do Zaire, no extremo Norte de Angola. Estás a ver?... Faço-te um boneco. É um arco gigantesco de mais de quatro mil quilómetros que o risco descreve. Virá talvez a constituir a via de comunicação fluvial mais prodigiosa de todo o Mundo, se também se confirmar que as terras que atravessa são igualmente prodigiosas em riquezas naturais, como se diz. Sem falar dos afluentes do Congo, de que pouco sabemos… Mas alguns, de que me apercebi, ao desaguarem no Congo, são enormes se comparados com certos grandes rios europeus!”

Seguiu-se uma grande pausa, durante a qual Stanley esteve profundamente absorvido pelos seus pensamentos, parecendo muitíssimo longe dali.

“Sabes o que trama tudo, Manuel?” – disse, por fim, como que de repente acordado pelas suas próprias reflexões.

“É do pool de Kinshasa para baixo que se lixa tudo, com as cataratas do rio um tanto a jusante de Kinshasa! Sempre a vossa portuguesa cachaça de borrachos!”

E continuou sem rir.

“Dão cabo de tudo, as cataratas. Tornam impossível a utilização do rio para a navegação dos barcos que podiam ir para o Norte do Congo, a partir dos futuros portos de Boma e Matadi, ou inversamente, com as mercadorias que viessem de todo o mundo para todo o Congo, como, ao contrário, as que fossem de todo o Congo para todo o mundo.”

“Vamos ter de deixar a margem direita do Zaire – acudiu-lhe de súbito, aparentemente a despropósito – que anda por aí um tal Brazza, por conta do governo francês e de outros obscuros gauleses, a querer assegurar a posse desse território todo para a França. Mas pela margem esquerda, de Matadi até Kinshasa, poder-se-iam iludir os saltos do rio construindo um caminho-de-ferro, a grande arma moderna da civilização contra os obstáculos ao progresso!”

“Vê aqui neste mapa… Que te parece?”

“Sensacional! Simplesmente sensacional!... E os milhares de milhões para isso tudo?...” – observou Manuel, já meio prestes a embarcar nos sonhos de Stanley.

“Há gente pronta a aparecer com os biliões necessários, garanto-te – sossegou-o Stanley. – Já ouviste falar da Associação Internacional do Congo?...”

“Não. Alguma associação de protecção do ambiente?”

“Não brinques… É coisa muito séria. Hás-de começar a ouvir falar dela com grande frequência. Por trás, está o rei Leopoldo II da Bélgica. Creio que é mesmo o supremo dirigente e inspirador da AIC, como é mais conhecida a Associação. Ao que sei formou-se apenas para assegurar a posse para os belgas da Bacia do Congo. Tudo a Norte de Angola. Assim os portugueses têm garantido o respeito pelo seu domínio de todo o extenso e riquíssimo território que vai do Congo ao Cunene. Aconteceria o contrário, se o vosso vizinho a Norte fosse um estado poderoso e expansionista, como a França, sempre propensa a esmagar vizinhos fracos ou indefesos…”

Stanley ficou aliviado por ter aberto o jogo todo ao amigo. Sem saber, embora, se este teria medido bem o alcance do que acabava de revelar-lhe, por muito que conhecesse e apreciasse a inteligência e a cultura dele.

Mas Manuel, por seu lado, sentiu-se de algum modo defraudado, por Stanley saber há tanto tempo – quanto? – tantas coisas que só agora revelava, embora de grande importância para o que vinham fazendo juntos havia muitos meses.

E disse-lho, com a habitual frontalidade e delicadeza.

Stanley não se atrapalhou, respondendo que só pelo último correio, recebido no último dia no Ambriz, tomara conhecimento dalguns pormenores indispensáveis, que aliás também só agora fora autorizado a revelar.

Manuel engoliu em seco, desconfiado, mas fez que sim com a cabeça, como se tudo fosse fácil de acreditar.

Era a primeira núvem surgida no céu até então sempre luminosamente azul do seu relacionamento.

Tendia Manuel, porém, a desculpar Henry Stanley porque acreditava que novas garantias para Portugal resultariam do previsto novo arranjo de relações de forças na África Central – Bacia do Congo.

O argumento afigurar-se-ia frágil aos mais desconfiados?

A História viria, em todo o caso, a mostrar que essa nova relação de forças, preenchendo um vazio quase total, poderia e chegaria a funcionar positivamente a favor de Portugal, como bastas vezes terá efectivamente funcionado, durante o resto do tempo do País como potência africana de respeito.

A.C.R.

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