<$BlogRSDUrl$>

2004/04/20

O declínio da Europa e a ideologia onusiana (V) 

(continuação do post de 2004/04/19)

Após extensa dissertação sobre a ideologia onusiana, é legítimo perguntar: o que tem isso a ver com a Europa e com o seu anunciado declínio? Que relação existe entre as duas coisas?

A ONU pretende ser a autoridade da governação mundial. Criou até uma ideologia e uma ética de integração holística – planetária, que transcende e supera as religiões e as identidades nacionais – para tornar essa tarefa mais fácil, onde tudo está definido e programado, desde os conceito de saúde, de educação, de desenvolvimento, de família alargada, aos direitos, tais como o de saúde reprodutiva, de escolha, etc.

A Europa não escapa ao alcance desta governação. Há até boas razões para desconfiar que tal ideologia foi urdida a pensar especialmente na Europa, como que a proclamar-lhe o ultimatum: a vossa gesta civilizadora acabou! A Europa não pode levantar mais a cabeça: nem na economia, nem na tecnologia, nem na arte, nem na filosofia, e muito menos na cena militar e internacional.

E vejamos como assim é: a perda de importância da Europa a nível mundial nas últimas décadas é bem visível na economia, na tecnologia, na arte. A desmilitarização da Europa é tal que podemos duvidar que seja capaz de se defender a si própria. O colapso de influência da Europa na cultura e na política internacional é notória, sobretudo desde a perda das colónias e das províncias ultramarinas. Filósofos e homens de pensamento até tem havido, mas já quase todos desapareceram. Resta-nos ter esperança que novos valores saibam privar com eles através das suas obras e pôr de pé, de novo, a cultura. Mas, onde estão esses novos valores, esses visionários das nações europeias para o séc. XXI?

A Europa está dividida. Ficou claramente provado na hora da verdade: na hora de tomar posição face à intervenção anglo-americana no Iraque. E ainda bem.

Ainda bem por várias razões:

1) Porque faz bem aos europeus tomarem consciência das suas reais e actuais fraquezas e limitações. Não há nada pior que as pessoas e os povos viverem enganados a respeito de si próprios. Sobre a lucidez e o realismo das circunstâncias actuais pode-se começar a construir.

2) Porque tal divisão, que estava latente, demonstrou que não é possível, de facto não foi, aprovar uma Constituição europeia e fundar um estado unitário transcendente às nações europeias, em virtude do que isso suporia de perda de soberania, de liberdade e de independência. Já se sabia que havia nações que não estavam dispostas a submeter-se aos desígnios de outras.

3) Porque o falhanço da Constituição europeia é o falhanço da ideologia onusiana para a Europa. A ideologia onusiana só pode ser imposta às nações europeias mediante um estado unitário e totalitário, como aquele que Chirac e Schröeder pretendem, em que o direito da União tem primazia sobre o dos Estados-Membros (art. 10º, 1) e a cidadania europeia acresce, mas não substitui, a cidadania nacional (art. 8º, 1), o que é, no mínimo, bizarro.

Não há dúvidas de que este projecto – felizmente – falhado de Constituição europeia e de um estado unitário serviria os desígnios da ONU, na medida em que as directrizes da UE e do Parlamento Europeu são convergentes na adopção da sua lógica e dos seus princípios holísticos (desde a saúde à educação, passando pela ecologia, modelos de desenvolvimento e concepções do homem e do mundo). A ideologia dominante no Parlamento Europeu é a da ONU.

Um exemplo bastante elucidativo: nos últimos dois anos a administração Bush negou à Agência das Nações Unidas para o Apoio à População uma verba que ascende a 34 milhões de dólares, alegando que essa agência se tem dedicado a promover abortos e esterilizações sem consentimento, posição que manteve apesar de insistentes pressões do lobby pro choice. A famosa agência da ONU não deu o caso por perdido. Eles bem sabiam que para a causa da saúde reprodutiva a União Europeia lhe dispensaria a módica quantia de 32.000.000,00 €. E assim foi.

Podemos questionar a oportunidade, a sensatez e o acerto da intervenção americana no Iraque. Não será mais do que a desastrosa continuação da sua desastrosa política externa, de há várias décadas a esta parte. Os próximos meses o dirão.

Mas há uma virtualidade emergente do relacionamento de Bush com a ONU, que tem a maior importância, por tabela, para o futuro da Europa: é que o Presidente dos EUA não se submeteu ao diktat da ideologia onusiana, cuidadosamente co-elaborado pelo seu predecessor. Mais: cortou com essa lógica em questões de política interna como a promoção da família, alternativas e restrições ao aborto, a recusa de concessão de privilégios aos homossexuais (a que alguns chamam direitos). Em suma, ousou ir por sua conta e contrariou as directivas da ONU. Neste particular, uma lição para a Europa.

Uma vitória de Kerry em Novembro próximo será o regresso a Bill Clinton e aí sim, os EUA voltarão a mandar no mundo através da ONU. A questão do Iraque será espinhosa para qualquer um deles: ficar no Iraque é mau, sair agora talvez ainda seja pior.

Já muito se escreveu sobre a crise actual na Europa: cultural, espiritual, económica, identitária, demográfica. Total.

As nações europeias têm raízes espirituais e culturais comuns (a civilização greco-romana, o cristianismo) profundamente assimiladas nos seus povos – muito mais do que nos comissários e funcionários de Bruxelas. Não precisam para nada de um estado unitário nem de uma Constituição, curiosamente, assentes nos pressupostos ideológicos que mais dividiram os povos europeus de há duzentos anos para cá: o laicismo e o jacobinismo.

Não! A Europa não precisa disso. Precisa somente de se encontrar a si própria, de reencontrar a sua identidade cultural e espiritual, no fundo, aquilo que a une em liberdade.

E encontrar-se-á se, e só se, cada uma das suas nações se reencontrar a si própria.

Manuel Brás

(continua num próximo post)

Etiquetas: ,


This page is powered by Blogger. Isn't yours?

  • Página inicial





  • Google
    Web Aliança Nacional